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	<title>Sapiens Sapiens &#187; vontade</title>
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		<title>Mensagem aos acomodados</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Apr 2011 18:10:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Liderar uma equipe acomodada é uma dura tarefa?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em minhas andanças pelas empresas, tenho ouvido com freqüência queixas sobre a falta de atitude das pessoas. A maioria dos funcionários – dizem os gerentes – fica esperando ordens, não se antecipa, não tem, para usar um jargão corporativo, proatividade.</p>
<p style="text-align: justify;">Têm razão os gerentes. É duro liderar uma equipe de acomodados. Mas, se serve de consolo, esse assunto não é novo, como mostra um ensaio de 1899 do escritor americano Elbert Hubbart, chamado <em>Mensagem a Garcia. </em>Foi um dos textos mais reproduzidos no século 20. Virou até filme.</p>
<p style="text-align: justify;">A história é ambientada na Guerra Hispano-Americana, que foi deflagrada depois que o navio americano <em>Uss Maine</em> foi afundado pela marinha espanhola. Como conseqüência dessa guerra, a Espanha perdeu várias colônias para os Estados Unidos, como Cuba e Filipinas, que logo depois conseguiram sua independência.</p>
<p style="text-align: justify;">Consta que o então presidente americano William McKinley precisava mandar uma carta ao general Calixto Garcia Íniguez, que era o líder das forças rebeldes cubanas contra os espanhóis. Como se tratava de uma mensagem estratégica para a vitória, ele pediu que a missão fosse dada a um homem de confiança, daqueles que não vêem obstáculos quando têm um objetivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi então escolhido o tenente Rowan, que imediatamente navegou até a ilha de Cuba, passou fome e frio, quase foi preso, mas não esmoreceu nunca e finalmente conseguiu entregar a mensagem ao general Garcia.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto da mensagem não importa, o que valeu foi o ato de entregá-la. A história é um pouco criticada porque sugere obediência cega, submissão à autoridade, mas também é uma homenagem ao comprometimento, coisa que falta – e muito – hoje em dia.</p>
<p style="text-align: justify;">O escritor Elbert Hubbart endereçou expressões fortes às pessoas sem atitude, como “atrofia da disposição”, “inépcia moral”, “invalidez da vontade”, e por aí vai. Já para as pessoas como o tenente Rowan, ele sugeriu que se erguessem estátuas de bronze, pois fazer parte da solução, e não do problema, segundo Elbert, é um verdadeiro ato de heroísmo.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: www.vocesa.com.br</em></p>
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		<title>Força Interior</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Feb 2010 02:20:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
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		<description><![CDATA[Com frequência fala-se que temos que usar nossa força interior. De que se trata essa força, especialmente quando alguém tem de enfrentar uma dificuldade?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há pessoas que, diante das adversidades, crescem e aproveitam para se transformar em pessoas melhores. E há outras que simplesmente se deixam destruir. O que determina a diferença entre esses dois tipos de pessoas sempre me intrigou.</p>
<p style="text-align: justify;">Na metade da década de 1990 eu passei por um período de sofrimento. Estava em crise profissional, financeira e afetiva. Cada novo dia parecia um fardo a ser carregado, e cada vez mais pesado. Nessas horas, gosto de ler. E entre as várias leituras a que recorri estava o livro <em>Poder Sem Limites</em>, do americano Anthony Robbins, uma espécie de guru do sucesso. Apesar de ser superficial a maior parte do tempo, o livro trazia o pensamento acima, e confesso que mexeu comigo. Em parte por curiosidade científica, em parte porque eu não queria, é claro, me deixar destruir por aquele momento difícil.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria possível transformar uma fase ruim, um período de desesperança em energia para avançar? Seria a derrota apenas uma ilusão, um rito de passagem para uma vitória pessoal, maior e mais duradoura? Como realizar essa metamorfose kafkiana invertida, fazendo surgir um novo homem a partir de um ser amorfo e repugnante? Seria eu capaz?</p>
<p style="text-align: justify;">São apenas perguntas, mas desde Sócrates sabemos que as perguntas são mais importantes que as respostas, porque geram busca, movimento, ação. A resposta interrompe, paralisa. E provavelmente foram as perguntas acima que me motivaram a buscar a mim mesmo, ou melhor, a querer encontrar aquele homem que cresce na adversidade, que se agiganta na crise porque lança mão da força interior para confrontar a influência exterior. E foi o que aconteceu.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, eu encontrei a força necessária e suficiente para virar um jogo que parecia perdido, mas isso não é prerrogativa apenas minha. Todos somos usinas de energia vital, essa força que vira trabalho, que se transforma em ação, que provoca mudança. O mérito está em mobilizar essa energia, pois também temos represas emocionais que impedem sua utilização, até certo ponto. Diante das dificuldades, podemos ficar paralisados, perplexos, pasmos com a injustiça de a vida não ser exatamente como queríamos. E corremos o risco de nos acomodar na esperança de que a solução venha de fora, quem sabe pelas mãos de um superherói ou de um anjo salvador.</p>
<p style="text-align: justify;">Nada disso! A solução tem que vir de dentro. Nietzsche já chamava de homem superior aquele que conseguia vencer seus inimigos internos, sugerindo que nós só podemos ser derrotados por nós mesmos. É claro que tudo o que nos acontece tem um com ponente externo, mas também tem um interno, o próprio eu, que é mais forte do que imaginamos, e às vezes não acreditamos nisso. Assumir a responsabilidade é o melhor sinal de maturidade e o primeiro passo para a liberação da força interior.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #99ccff;">E como se mobiliza essa força interna?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Quando penso em forças lembrome com saudade do Carneiro, o melhor professor que tive no curso prévestibular. Ele lecionava Mecânica, a parte de Física que se encarrega de estudar a dinâmica dos corpos. “Para produzir ou alterar o movimento de um corpo é necessária a aplicação de uma força”, dizia ele. “Portanto, força é um agente capaz de modificar o estado de um objeto físico.”</p>
<p style="text-align: justify;">E eu ficava pensando qual seria o equivalente humano para essa força modificadora. Se há tantos tipos de energia, o ser humano deveria ter um tipo especial, só seu, que lhe dá força para trabalhar, produzir arte, superar adversidades, construir história. Não é possível que sejamos apenas depósitos de combustível orgânico obtido pelo alimento, capaz de ser oxidado para poder levantar uma pedra. Eu não podia aceitar que eu fosse apenas um entreposto energético, como um rio em movimento ou uma mina de carvão.</p>
<p style="text-align: justify;">A física, com todo seu esplendor lógico, é insuficiente para explicar o espetacular conjunto de processos que permite a um homem superar qualquer outra força da natureza, e que não pode ser simplesmente represado ou ensacado como um combustível fóssil ou renovável. Demorei a entender esse mistério, e não foi nos compêndios de física, e sim nos saberes da psicologia, na literatura e na própria vida vivida.<br />
Estou escrevendo este artigo na semana em que o mundo reverencia os 70 anos da morte de Freud. Sua importância é imensa para o entendimento da alma humana, e isso se deve a seu trabalho pessoal e também ao trabalho de seus seguidores, que foram muitos durante sua vida, e hoje são milhares, ampliando suas ideias, ajudando a raça humana a se compreender. Entre seus discípulos diretos esteve Erik Erikson, um jovem artista plástico alemão que se encantou pela psicanálise, mudou de área, trabalhou ao lado de Ana, a filha de Freud, e acabou migrando para os Estados Unidos, onde se fixou na Universidade de Harvard como professor e pesquisador. Seu centro de interesse era o ego e sua influência nas relações interpessoais. A Erikson devemos a expressão “força do ego”, que nos ajuda a entender coisas do comportamento humano. Segundo suas observações, nós estamos programados para desenvolver algumas virtudes, que seriam estados de orientação para o bem e para a evolução. São elas: a esperança, a vontade, o propósito, a competência, a fidelida- de, o amor, o cuidado e a sabedoria. Ao conjunto dessas virtudes podemos dar o nome de força interior, pois quem é dotado dessas qualidades terá todas as condições para reagir às adversidades e atingir os objetivos desejados. Entretanto, Erikson explica que o desenvolvimento dessa integridade psicológica depende de um esquema de fases psicossociais, cada uma com suas propriedades. Em cada um dos períodos de formação da criança, do jovem e também do adulto, o homem está desenvolvendo virtudes emocionais que lhe permitirão enfrentar a vida. Como essas fases são psicológicas, mas também sociais, o meio ambiente e as relações com a família e com os amigos serão determinantes na formação desse conjunto de virtudes. Para desenvolver essas virtudes, é necessário encontrar propósitos para a vida, desenvolver conhecimentos, treinar a disciplina e conseguir criar relações humanas construtivas. Trata-se de um investimento, de um trabalho que não tem fim. São mecanismos de liberação da força vital que precisam ser criados, pois nascemos com a força, mas precisamos aprender a lidar com ela.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #99ccff;"><strong>As situações difíceis da vida são capazes de estimular a liberação de uma força que desconhecíamos?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Cada pessoa é um Adam que pode virar He-Man pela invocação de seu poder, mas isso deve ser feito com convicção. O personagem de desenho animado que animou as crianças das décadas de 80 e de 90 não levantava a espada e anunciava “Pelos poderes de Grayskull&#8230; Eu tenho a força!”, a não ser que fosse necessário. Era o perigo que liberava a energia que transformava o fracote no fortão, o medroso no herói.<br />
Na sociedade moderna, podemos dizer que praticamente não corremos perigos físicos, como acontecia em Eternia, o planeta do He-Man e da She-Ra. Em compensação, corremos perigos emocionais ainda maiores, pois todos os dias somos assombrados pela possibilidade de fracasso, pelas perdas afetivas, pelos problemas profissionais e financeiros, pelas dúvidas existenciais. E todos os dias temos a chance e a necessidade de anunciar nossa força, ainda que, às vezes, algumas pessoas não o façam. No mesmo ano em que me preparava para o vestibular assisti ao filme <em>Dr. Jivago</em>, baseado no romance de Boris Pasternak, que conta a história de pessoas comuns atingidas pela revolução russa, provavelmente um dos períodos mais turbulentos que a humanidade já produziu. Lembro- me de ter sido difícil acreditar que tudo aquilo pudesse ser verdade. Aquele sofrimento em cascata, uma desgraça atrás da outra. O jovem médico Yuri preso, afastado da família, sequestrado pelos bolcheviques para lhes prestar serviço e, ainda por cima, a dúvida entre o amor por sua mulher e a paixão por Lara. Toda essa trama épica deixou em mim uma tatuagem emocional até hoje. Aliás, descobri que podemos aprender muito sobre a alma humana através da literatura, principalmente dos clássicos russos. Eles relatam como ninguém a guerra, a injustiça, o inverno, a fome, a dor. E deixam claro que nada pode enfrentar a força do ser humano.</p>
<p style="text-align: justify;">O destino não pergunta se estamos dispostos, simplesmente apronta das suas. Eu estava em Florianópolis na grande enchente de 1983 e presenciei cenas explícitas de grandeza humana. No fim, era um embate entre a força dos elementos e a força da alma das pessoas. Lembro-me de ter conhecido o José Carlos, um jovem pai que, ao chegar em casa, ela – a casa – não estava mais lá. Havia sido levada pela enxurrada, que por pouco não levara junto sua mulher e seus dois filhos pequenos, que, por sorte, tiveram tempo de sair. Quando lhe perguntei “E agora?”, ele me olhou com gravidade, suspirou e disse: “E agora é começar tudo de novo”. E começou, e persistiu e reconquistou sua casa – aliás, melhor que anterior.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, a necessidade obriga. “O sapo pula por precisão, não pula por boniteza”, diz o escritor Guimarães Rosa. A força interior existe, mas é virtual. Não pode ser percebida a não ser quando é solicitada de verdade. E isso pode acontecer por dois motivos: por exigência do destino ou por ingerência da vontade. Ou por ambos.</p>
<p style="text-align: justify;">“Ferramenta tens, não procures em vão”, disse Fernando Pessoa em um de seus belos poemas que nos colocam em contato conosco mesmos. “Tenha o coração sensível e use a força da mente”, termina seu verso. Sim, temos a ferramenta em nós, só precisamos usá-la.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: <a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank">www.revistavidasimples.com.br</a></em></p>
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		<title>Hora certa para ter filhos</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2010 02:27:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há como saber qual é o momento mais apropriado de ter filhos? O que é preciso levar em conta para tomar essa decisão com responsabilidade]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Essa é uma grande questão da pós-modernidade. Hoje em dia, vivemos mais tempo e melhor, temos a ciência, a informação e o conhecimento a nosso favor. Há liberdade na maior parte do mundo. Em compensação, surgiu um fato novo para o qual não estávamos preparados: temos que fazer muitas escolhas, e isso nos angustia. Ter filhos, por exemplo, antes era destino, agora é escolha.</p>
<p>Veja a Natália e o Eduardo, um casal típico da atualidade. São belos, cultos, profissionais, se dão muito bem, têm amigos, praticam esportes, viajam bastante, moram em um lindo apartamento recheado de conforto, arte e tecnologia. Têm um negócio próprio, trabalham juntos porque suas competências são complementares e são muito admirados por isso. Não dá para dizer que falte alguma coisa para esse casal. Mas falta. Eles não têm filhos.</p>
<p>Enquanto estavam ocupados construindo a vida que têm, a questão filhos não estava na pauta, até que o assunto começou a ganhar relevância. Como não sabiam como lidar com ele, fizeram o que os casais pós-modernos fazem: terapia. Mas, claro, a terapeuta não disse o que eles deveriam fazer, só os ajudou a pensar, a considerar todas as variáveis, as perdas e os ganhos.</p>
<p>Natália já vai fazer 35 anos e sabe que está chegando ao limite da idade ideal para ser mãe – do ponto de vista biológico. A natureza é cruel. O homem pode procriar sem problema até depois dos 70, a mulher mal passa da metade disso. A natureza tem lá suas explicações, mas não convence muito os pós-modernos, que se acostumaram a mantê-la sob controle e nesse assunto sentem-se meio impotentes. Para piorar, o Eduardo, que é mais velho, apesar de não aparentar, já tem filhos de uma relação anterior. Ele está, digamos, realizado nessa área, mas, como ele ama Natália, considera ter um filho com ela, até para dar continuidade ao amor deles. Ambos têm consciência de que a vida deles vai sofrer uma mudança radical, mas a hora da decisão chegou, não dá mais para esperar.</p>
<p>Então como decidir com propriedade se este é o melhor momento?</p>
<p>A decisão de ter um filho obedece aos princípios clássicos da tomada de decisões. Quanto mais variáveis forem consideradas, maior a chance de a decisão ser acertada. Nesse caso, há três áreas que devem ser consultadas: a idade reprodutiva, a estabilidade da relação e o equilíbrio profissional e financeiro. Em síntese, dessa decisão tão importante participam os três elementos que constroem nosso ser: a biologia, a emoção e a razão.</p>
<p>Quanto à biologia, sabemos que a mulher tem uma idade reprodutiva ideal, que vai dos 18 aos 35 anos, com alguma variação de mulher para mulher. Antes ou após essa faixa aumentam os casos de infertilidade e de distúrbios genéticos. Ainda que haja inúmeros casos de mulheres que se tornaram mães após os 40, tiveram gravidez tranquila e filhos saudáveis, os especialistas recomendam engravidar antes, para ter a estatística a seu favor.</p>
<p>No que diz respeito ao lado emocional, é necessário dizer uma coisa dura: provavelmente, o maior dos erros que um casal pode cometer é o de achar que um filho vai trazer felicidade. O certo é trazer um filho para compartilhar a felicidade que já se tem. Até porque seria muito cruel e egoísta dar essa responsabilidade para o pequeno ser.</p>
<p>Concordo que um filho dá a sensação de plenitude, de continuidade, de imortalidade. Mas é necessário que ele encontre um mundo pronto para recebê- lo, estruturado o suficiente para lhe dar a chance de crescer de modo saudável. E disso faz parte uma estrutura emocional equilibrada. O melhor que um pai pode fazer por seu filho é amar a mãe dele. Crescer em um ambiente de amorosidade, em que a paz é parte da família, com pais que conversam e trocam carinhos, em que o beijo é democrático e a preocupação de um com o outro é genuína, acredite, é o melhor substrato para a construção de uma personalidade estruturada.</p>
<p>Quanto à lógica, esta se refere ao lado prático da vida. Um filho dá despesa, exige espaço, tempo, atenção. A questão financeira talvez seja a mais relevante, há muitos estudos sobre o assunto. Um dos últimos mostra que, quanto mais os pais ganham, mais gastam, e que o investimento em um filho até que ele complete a faculdade pode chegar à casa de 1,5 milhão de reais. Não pensar no aspecto financeiro seria irresponsável, pois seu filho precisa frequentar locais que colaborem com seu desenvolvimento, estudar línguas, viajar, praticar esportes, ter saúde, acesso a livros, comprar roupas. A lista não tem fim.</p>
<p>Planejamento familiar pode parecer diferente de outros planejamentos porque tem um fortíssimo componente emocional. Sim, tem amor envolvido na questão, mas continua sendo um planejamento.</p>
<p>Apesar do trabalho e da despesa, um filho é motivo de felicidade para o casal</p>
<p>Sem dúvida é a maior felicidade que se pode experimentar, mas estamos diante de duas questões bem diferentes: a maternidade e a tomada de decisões. São dois assuntos que pertencem, em parte, a áreas diferentes da mente humana. A maternidade é uma força própria da condição de ser mulher, e a ela concorrem o instinto e a emoção, com a mesma força. O instinto da perpetuação, com o qual não dá para discutir. E a emoção de ser mãe, de amar da forma mais intensa possível, de se sentir amada, de ver nos olhinhos do filho o verdadeiro sentido da vida. A maternidade está, sim, entre as maravilhas de uma existência. Trata-se de uma experiência que nem sequer pode ser explicada, só pode ser vivenciada.</p>
<p>Como pai que foi meio mãe, posso afirmar que vale a pena experimentar a sensação de gerar, de sentir o sabor da continuidade, da perpetuidade; de participar, através de um ato extremamente amoroso, do enriquecimento deste mundo. A emoção é imensa, sem dúvida. Ter um filho, vê-lo crescer, sorrir, aprender, errar, dar os primeiros passos em direção ao controle de sua vida. Eu experimentei tudo isso e posso afirmar que meus filhos me tornaram melhor. Ensinaram-me mais do que aprenderam de mim. Deram significado a meu trabalho, aos cuidados com minha saúde e até ao amor que sentia pela mãe deles. Sim, é maravilhoso ter um filho, mas&#8230;</p>
<p>Mas há a decisão, e esta pertence ao círculo da lógica, ainda que faça parte das funções dela consultar as emoções, sem as quais as decisões se tornariam frias e estéreis. Decidimos o tempo todo, em praticamente todas as nossas atividades, e é possível que seja exatamente nessa obrigação diária que se esconda a grande causa da ansiedade humana. Sim, pois a escolha pressupõe, em geral, várias renúncias, o que nos leva a crer que a escolha nos dá menos do que o que perdemos, e isso gera um desconforto interno chamado ansiedade.</p>
<p>Começamos o dia fazendo escolhas, e continuamos assim pela vida afora. Decisões, decisões. Ansiedade constante. Pense um pouco: se decidir qual sapato comprar já causa uma revoada de borboletas no estômago, imagine o borboletário ao ter que decidir se está, ou não, na hora de ter um filho. Trata-se de uma decisão que irá mudar sua vida, não duvide disso. Aquele pequeno ser assume o comando de tudo à sua volta. Os horários da casa, a estrutura do quarto, os móveis da sala, tudo passa a girar em torno das necessidades e dos desejos do pequeno.</p>
<p>Não que ele não faça sua parte. Quando resolve brincar às 4 da manhã, tira você da cama de mau humor, mas este se desvanece na primeira risadinha que faz aparecer aquelas covinhas na bochecha. Ele tem tudo sob controle. Suas armas são a alegria, o riso, os pequenos movimentos, a descoberta de que tem mãozinhas, o aperto que dá em seu polegar demonstrando dependência e confiança.</p>
<p>Não basta o desejo de ter filhos? O que mais é preciso? É maravilhoso ter um filho, e será tão mais quanto mais agregar valor a nossa vida. A questão é que ele também tira algo, pois é um sugador insaciável de atenção, cuidados, tempo, dinheiro. Há um preço a pagar, e temos que estar preparados para isso. Se assim não for, a maravilha da maternidade, ou da paternidade, perde pontos para a aridez da vida prática. Duas publicações recentes me disseram muito a respeito deste tema.</p>
<p>A psicóloga Vera Maluf, que apoia casais que enfrentam alguma dificuldade nessa área, publicou o livro Fertilidade &amp; Maternidade – O Desejo de um Filho (Atheneu), no qual aborda, principalmente, as possibilidades da reprodução assistida e suas consequências psicológicas. No capítulo chamado “O desejo em nossas vidas”, ela diz que o desejo de ter um filho não é tudo, que precisamos também ter vontade. E explica: “O desejo é dado pela psique, libido, biologia – é um fato natural. A vontade é construída pela consciência, disciplina, interação – é um fato social. Educação é a arte de construir vontades”. Uma visão cristalina.</p>
<p>E o psiquiatra Içami Tiba acaba de acrescentar mais uma publicação a sua lista de livros dedicados às questões familiares e educacionais, Família de Alta Performance – Conceitos Contemporâneos na Educação (Integrare). Nele encontrei uma pequena frase em forma de agradecimento feito por um filho: “Agradeço a meus pais pela ‘predisposição genética’ a ser feliz. E a Deus por ter sido tão ‘mimado’ por Ele”. Que bom se todos os filhos se sentissem estimulados a fazer esse agradecimento. Ele tem um profundo significado: esse filho foi bem esperado e bem recebido, e teve todas as oportunidades da vida. Os pais estavam prontos para recebê-lo e ele respondeu ao amor de ter sido criado com o brilho de existir em plenitude.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: <a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank">www.revistavidasimples.com.br</a></em></p>
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