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	<title>Sapiens Sapiens &#187; tempo</title>
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		<title>Meu lugar sagrado</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Mar 2011 18:15:54 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Há muitos lugares no mundo que são considerados sagrados. O que faz com que um local possa receber essa qualificação?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Saímos de Londres no final da tarde, seguindo para o oeste, em um carro alugado. Dirigir na Inglaterra é fácil e difícil. É fácil porque as estradas são ótimas, a sinalização é competente e o trânsito é civilizado. E é difícil porque precisamos recondicionar os movimentos para dirigir do lado direito do carro e do lado esquerdo da estrada. Lá, o errado é o certo. O pior é trocar a marcha com a mão esquerda, já que praticamente não se encontram carros automáticos na terra da Rainha – acham muito americano, esse conforto.</p>
<p style="text-align: justify;">A bordo, eu e meu filho, em nossa semana anual de colocar as coisas em ordem e a conversa em dia. A seu pedido, optamos por uma viagem <em>easy ride</em>, o que não significa viajar sem destino, e sim ir definindo o destino durante a própria viagem – explicou ele. Em cada etapa se planeja a etapa seguinte, e dessa maneira se pode ter a segurança da viagem programada e o excitante sabor da aventura. Ao anoitecer chegamos a Salisburry, uma pequena vila distante cerca de 80 milhas de Londres, onde havíamos reservado pela Internet um quarto para passar a noite no Grasmere House, um hotelzinho de duzentos anos.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia seguinte visitaríamos Stonehenge, um lugar considerado sagrado. Estávamos excitados com essa expedição, provavelmente por motivos diferentes. Para mim era a oportunidade para vivenciar o mistério que cerca esse conjunto de pedras colocadas em círculo há mais de quarenta séculos. Para o Rodrigo significava conhecer o lugar sagrado dos celtas. Os jovens gostam dos celtas e são atraídos por lugares sagrados. E de nada adiantava lembrar que Stonehenge é pelo menos dois mil anos mais antiga que a cultura celta. O que importa é a mística do local.</p>
<p style="text-align: justify;">Acordamos cedo, tomamos o café-da-manhã inglês, composto por ovo frito, salsicha, bacon e feijão doce, servido por um simpático garçom húngaro, e rapidamente estávamos na estrada com destino certo: o passado. Conversávamos animados sobre história, sobre a diversidade de culturas e sobre as surpresas da vida quando, como que do nada, lá estava, bem à nossa frente, o círculo de pedras mais famoso do mundo. Stonehenge fica à margem direita de uma estrada movimentada, e não há como não vê-la, imponente, irradiando sua energia milenar.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente estávamos na mística Stonehenge mas, claro, estávamos também na organizada Inglaterra, portanto, era necessário encontrar o local adequado para estacionar o carro, ler as recomendações e chegar ao circuito pelo qual pode-se caminhar contornando o monumento. Primeira lição de um lugar sagrado: ele deve ser respeitado.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se é possível explicar a sensação de estar em um lugar como esse. Você é naturalmente levado à contemplação. Quer ficar quieto, apenas observando aquelas pedras que são testemunhas de 45 séculos. O mundo evoluiu, fez arte, ciência, guerras, descobrimentos, enquanto as pedras simplesmente ficaram em seu lugar, repousando em seu nicho, como que querendo mostrar que há, sim, valores permanentes. Pode não ser fácil descrever um lugar sagrado, mas percebe-se claramente quando se está em um.</p>
<p style="text-align: justify;">Observei as pessoas ao meu redor e verifiquei comportamentos de todos os tipos. Havia os que, nitidamente, realizavam contidas orações, alguns meditando isolados, e havia os deslumbrados, os japoneses fotografando, os aposentados passando tempo, alguns hippies tardios e até um druida moderno com cartazes anunciando a chegada de uma nova era. Locais sagrados são assim, atraem tribos diversas, todas em busca de algo – que pode ser paz, quietude, cultura, curiosidade ou até, quem sabe, sentido para a vida. </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O sentimento do sagrado deriva do próprio local ou ele deriva uso que se fez desse local?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os locais considerados sagrados exercem uma influência sobre as pessoas, normalmente descrita como um sentimento de paz interior. Eu senti isso em Stonehenge, como já senti em outros locais que tive a oportunidade de conhecer. E nunca procurei –importante esclarecer – teorizar sobre a origem desse sentimento, pois isso poderia estragar a magia da experiência. Não importa o quanto aquele local tem de energia própria e quanto de programação psicológica eu estava providenciando para mim mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Lugares sagrados são aqueles que, de alguma forma, colocam o homem em uma dimensão diferente daquela em que ele trava sua luta diária de sobrevivência. É uma espécie de recarregador de baterias, considerando que a energia que precisamos para viver não vem apenas dos carboidratos, mas também de fontes existenciais. O Homem é o único ser que padece da lógica que o leva a questionar a razão de sua própria existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que estamos aqui, afinal? Seriamos meros entrepostos de gens, destinados a participar do processo de sobrevivência de nossa espécie, e pronto? Não, ninguém gosta de aceitar essa premissa de natureza tão simples. A consciência deu ao Homem duas missões: a de se diferenciar na Natureza e de justificar sua própria existência através de suas ações. Tarefa difícil, essa de ser gente. Não é nada fácil explicar para si mesmo o sentido da vida e dar conta do recado de não ser mero participante da cadeia alimentar, entre o vegetal produtor e a bactéria decompositora.  </p>
<p style="text-align: justify;">Por isso os locais sagrados são importantes, porque eles nos conectam com aquilo que gostamos de chamar dimensão superior, de divino, ou simplesmente de Deus.  Na verdade, todos nós já temos essa dimensão divina no peito, mas sentimos que ela precisa ser plugada, de tempos em tempos, em uma tomada de energia divina externa a nós mesmos. Algo maior que o humano, que materializamos em forma de orações, cultos, ritos e locais sagrados.</p>
<p style="text-align: justify;">Os templos e outros tipos de locais sagrados são, na verdade, obras do homem, mas gostamos de atribuir à sua edificação uma ordem superior, e a seu local algum fato transcendental. Todas as religiões observam os locais de nascimento, de morte ou de pregação de seus profetas. Eles funcionam como portais para a dimensão superior que nos aguarda, e com a qual gostamos de nos conectar desde já com a finalidade de orientar nossa vida terrena.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, locais sagrados são bons, úteis e necessários, e mesmo quem não curte a idéia da eternidade, não consegue se livrar da necessidade de paz interior. O que vai variar imensamente entre as pessoas é a qualidade desse local. Locais sagrados são, comumente, relacionados a locais de práticas religiosas, como igrejas e templos, mas essa ligação, ainda que comum, não é determinante nem definitiva. Em outras palavras, locais religiosos são sempre sagrados, mas locais sagrados não precisam ser necessariamente religiosos.   </p>
<p style="text-align: justify;">Que religião se professa em Stonehenge? Ora, nem sabemos se sua primeira utilidade foi ser um local de cultos. Pode ter sido um local de cura, de estudo ou de decisões políticas. A única coisa que sabemos é que se trata de um local que foi considerado especial ao longo de muito tempo. Pesquisas arqueológicas mostram que sua primeira edificação data de 3100 anos a.C., e que teve muitas outras épocas de reforma, reconstrução e modificação.</p>
<p style="text-align: justify;">E sabemos também que o nascer do sol no dia 21 de junho, o solstício de verão, cria, com a projeção de sua luz, uma avenida central no círculo de pedra. Essa observação dava ao homem a dimensão do tempo, lembrava a finitude da vida, marcava os ciclos de sua existência e o aproximava do divino. E, claro, poderia estar ligada apenas à marcação dos ciclos agrícolas. Transcendental ou pragmático, não importa, um local sagrado é sempre necessário. </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os locais sagrados são sempre locais de peregrinação e busca coletiva?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Local sagrado é aquele que nos conecta com uma dimensão maior do que a da prática cotidiana. Por isso os templos são também obras de arte, em que a arquitetura, a escultura e a pintura estão presentes, às vezes em doses espetaculares (basta entrar em uma igreja medieval), ou locais onde se pratica a música, seja o canto gregoriano ou pop evangélico moderno. A arte precisa estar presente porque ela é uma espécie de símbolo da possibilidade do Homem. O artista é o preposto de Deus tanto quanto o sacerdote. Mas, cuidado, pois há arte sagrada no cotidiano também, e só quem consegue perceber isso muda o patamar de sua vida prática. Nossos locais pessoais podem ser transformados em locais sagrados, e este foi o assunto que dominou a conversa com meu filho depois da visita a Stonehenge. Afinal – ponderamos – não é todo dia que se pode ir a um lugar como aquele para recarregar as baterias; então precisamos de outras fontes mais próximas. E elas existem, estão em nosso país, nossa cidade, em nosso bairro. Aliás, os locais sagrados são principalmente aqueles que nós mesmos construímos e neles colocamos nossa melhor parte.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha casa é um local sagrado, bem como meu trabalho, o parque onde passeio, a livraria que gosto de freqüentar, a academia onde cuido da saúde. Locais sagrados são aqueles em que trabalhamos, estudamos, produzimos, conversamos, amamos. Se esses lugares não forem sagrados, dificilmente o serão os templos e os sítios históricos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sagrada é a vida que vale a pena, que não compactua com o destrutivo, que não se contenta com o mínimo, que busca o excelente, que distribui compaixão, afeto livre, amor verdadeiro. Lugar sagrado é o próprio corpo, que merece cuidado; é a mente, que precisa do conhecimento; é a emoção, que precisa do belo. Lugar sagrado é o espaço ao nosso redor, que conquistamos com nossa própria energia, e que será tão maior quanto for nossa intensidade de viver. E Stonehenge é sagrado, sim, porque me ajudou a perceber tudo isso.</p>
<p style="text-align: left;"><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>O futuro de cada um de nós</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Nov 2010 14:59:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se considerarmos que o que existe mesmo é o presente, por que dizem que é tão importante viver o tempo futuro? Qual é, afinal, nossa conexão com um tempo que ainda não existe e que nem sabemos se existirá?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Acompanhe esta história:  o Paraná tem um símbolo que é praticamente desconhecido fora daquele Estado: a gralha-azul. Trata-se de uma ave da família dos corvídeos, que encanta pela beleza de suas penas azuis, gradualmente mais escuras na cabeça e no peito. Para os paranaenses, esse animal-símbolo é tão importante que, diz a lenda, um caçador que tente acertá-lo com um tiro verá sua espingarda negar fogo ou até explodir, pois a gralha-azul é protegida dos espíritos da floresta das araucárias.</p>
<div id="attachment_2564" class="wp-caption aligncenter" style="width: 260px"><a href="http://www.sapiensapiens.com.br/wp-content/uploads/gralha_azul.jpg"><img class="size-full wp-image-2564" title="Gralha Azul" src="http://www.sapiensapiens.com.br/wp-content/uploads/gralha_azul.jpg" alt="" width="250" height="166" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem: Secretaria do Turismo do Paraná.</p></div>
<p style="text-align: justify;">Tal devoção deve-se a uma característica do pássaro: ele é o responsável pela disseminação da <em>Araucaria angustifolia</em>, o majestoso pinheiro paranaense, que já recobriu a quase totalidade daquele estado e também de boa parte de toda a região Sul e de São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">O detalhe curioso fica por conta do método empregado pela gralha: ela enterra os pinhões e, destes, nascerão novos pinheiros. Trata-se então de uma semeadora compulsiva e incansável, que dedica sua vida à proliferação da bela árvore. A explicação para tal comportamento é que a gralhinha tem duas características: preocupação com o futuro e péssima memória. Enterra as sementes com a intenção de guardá-las e consumi-las mais tarde, mas esquece-se de onde as guardou, possibilitando assim sua germinação.</p>
<p style="text-align: justify;">A gralha-azul é um dos poucos exemplos que colhemos no mundo natural de animal que tem preocupação com o futuro. Bichos têm consciência do presente, do aqui e agora, das necessidades imediatas, mas, com raras exceções, como a do pássaro sulista, vivem em total despreocupação com o dia de amanhã. Não conhecem tempo, não têm noção de futuro e, do passado, guardam apenas as memórias que reforçam seus instintos. E é nesse capítulo que encontramos um imenso diferencial humano: nós, sim, conhecemos o conceito de tempo. Sabemos que o presente em que nos encontramos tem conexões com um tempo que passou e com um tempo que virá.</p>
<p style="text-align: justify;">Nunca saberemos quando o homem começou a ter tal noção de tempo, mas sabemos que somos a única espécie dotada de consciência temporal. A memória do passado e, principalmente, a imagem do futuro são qualidades mentais sofisticadas demais para qualquer outra espécie que não a humana. Nosso córtex cerebral é a parte mais elaborada de nosso cérebro e, com tais características, é uma exclusividade humana. Uma das qualidades do córtex é a análise de um número muito maior de variáveis a cada processo de tomada de decisão, entre elas, o tempo. Somos capazes, por exemplo, de adiar o prazer, e até aceitar algum sofrimento, desde que ele esteja a serviço de um futuro mais prazeroso. Essa é uma das vantagens competitivas que nos permitiram assumir uma posição de mando e controle no planeta, ainda que haja tanto descontrole.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, mesmo entre nós, racionais, conscientes de nossa posição neste mundo e neste tempo, há variações na maneira de fazermos conexões com o futuro. Pelo menos três categorias são bastante claras, e, entre elas, diferentes graus de profundidade podem ser identificados: o descaso, a previsão e a construção. Vamos a elas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O descaso</strong>: Nesta categoria colocamos todos os que não se preocupam com o futuro, apesar de saberem que ele existe. Pare estes cabe a expressão latina carpe diem, que quer dizer “viva o presente”. É uma recomendação que se faz à pessoa que diz que será feliz, ou realizada, ou tranquila, “quando” acontecer alguma coisa. Quando se formar, quando comprar sua casa, quando ganhar dinheiro, quando casar, quando&#8230; Para esse tipo de pessoa, a felicidade é um projeto e não o que deve ser, um estilo de vida. Para uma pessoa assim, carpe diem nela!</p>
<p style="text-align: justify;">O carpe diem com recomendação para que se aproveite o presente é excelente, mas, como desculpa para ignorar o futuro, pode virar uma armadilha. O que não dá para esquecer é que o futuro vai virar presente, e que este será melhor ou pior a depender das ações de hoje. Tudo está conectado, um ato de hoje terá repercussão amanhã.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizem os historiadores que a queda do Império Romano teve início no momento em que o carpe diem deixou de ser apenas um conselho e acabou por se transformar em filosofia de vida, seguida pelo imperador e, claro, por seus súditos. A despreocupação com o futuro cobrou, daquela gente, um pesadíssimo pedágio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A previsão:</strong> O futurólogo Michiu Kaku disse: “Previsão é uma coisa muito difícil, especialmente quando é sobre o futuro”. Mesmo assim, é a isso que esse professor do City College de Nova York se dedica, a prever o futuro, atendendo a um dos mais antigos desejos humanos. A História está repleta de exemplos de tentativas de previsão, dos antigos gregos em seus oráculos até a atualidade, quando cérebros privilegiados dedicam sua energia a apreciar uma paisagem ainda inexistente.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos oráculos gregos, era comum a presença das pitonisas, as sacerdotisas que previam o futuro. Para essas pessoas, prever tinha a ver com adivinhar, portanto havia algo de sobrenatural. Entretanto, a previsão do futuro não precisa habitar o reino da magia; pode viver na realidade, no reinado da lógica, vestindo a roupagem da ciência. Economistas, cientistas, sociólogos, empresários e outros tantos profissionais exercitam a arte e a ciência de prever, ainda que com parcimônia. Nesse campo, duas são as possibilidades. A primeira é <em>forecast</em>, do inglês “previsão”. Muito utilizada por todos aqueles que não desejam ser surpreendidos por fatos que poderiam ter sido previstos. Preferida dos economistas, sonda o futuro com as ferramentas dos dados, informações, gráficos. Podemos prever a inflação, a reserva de petróleo, a quantidade de chuva. Em todos esses casos, a previsão baseia-se em séries históricas anteriores, tendências concretas, análises científicas.</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda é <em>foresight</em>: outra palavra inglesa que também significa previsão. A diferença é que, nesse caso, a previsão não se vale de dados, mas de sentimentos; algo que poderia também ser chamado de intuição. Mas não há nada de místico nessa abordagem do futuro. A intuição, então, deriva da experiência de vida. E também de sua integridade mental, da qual fazem parte a serenidade e a calma interior. Pessoas que dominam sua área de atuação devem ser respeitadas quando se referem ao futuro. Em geral esses profissionais não são pegos de surpresa, pois têm, a seu favor, a consistência do <em>forecast</em> e a concordância do <em>foresight</em>. Imagine um empresário que diz: “O mercado continua consumindo este produto, e a tendência é que a demanda se amplie no próximo ano”. Acaba de usar o <em>forecast</em>. Se ele continuar seu raciocínio e disser algo como: “Mas, apesar de ainda termos estoque, acredito que devemos lançar já a segunda versão do produto”, estará usando seu <em>foresight</em>, seu faro empresarial.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A construção</strong>: Já se disse que a melhor maneira de prever o futuro é construí-lo. E, nesse caso, estamos falando da capacidade excessivamente humana da sonhar e, claro, transformar o sonho em realidade. O homem é o único animal que tem noção de futuro, e é também o único ser capaz de exercitar a imaginação. A essa combinação maravilhosa damos o nome de sonho, que nada mais é que a imagem cristalizada de um futuro ideal.</p>
<p style="text-align: justify;">Shakespeare escreveu: “Somos feitos da mesma matéria que compõe os nossos sonhos!” Com essa afirmação, conferiu uma nobreza à qualidade de sonhar. Mas, se todos sonhamos – pois não se trata de uma prerrogativa e sim de uma qualidade –, por que nem todos realizamos nossos sonhos? É que sonhos são como deuses, só existem enquanto acreditamos neles, e é forte a tendência de as pessoas sonharem com aquilo em que elas não creem.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem não sonha e não tem objetivos claros tateia na incerteza. Charles Dogson foi um matemático inglês especializado em lógica matemática que gostava de trilhar pelo tema que aproxima lógica de futuro. E, para falar sobre a lógica e a vida com as crianças, escrevia livros sob o pseudônimo de Lewis Caroll, sendo o mais conhecido Alice no País das Maravilhas. Nele há um diálogo impagável em que Alice, perdida, pergunta ao gato de Cheshire qual caminho deve seguir. O gato questiona então para onde ela deseja ir, e Alice responde que não tem certeza. Isso leva o felino falante a comentar: “Se você não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve”.</p>
<p style="text-align: justify;">Após dizer isso, o gato desaparece, mas deixa visível seu sorriso sarcástico, diante de uma Alice completamente atônita. É a metáfora explicando a atitude do mundo diante dos que não sabem aonde desejam chegar – ri sarcasticamente. Tema de reflexão para quem deseja pensar estrategicamente – ou a lógica do futuro ou o sarcasmo do gato de Cheshire&#8230;.</p>
<h4><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: </em><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></h4>
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		<title>A máquina do tempo</title>
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		<pubDate>Fri, 21 May 2010 18:42:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Dezembro! Parece que foi ontem que o ano começou&#8230; Este mês, tradicionalmente, é usado como uma espécie de rampa de lançamento para a máquina do tempo. É quando viajamos para trás, visitamos o passado e verificamos nossas conquistas e derrotas acontecidas no ano que está terminando. E é também quando fazemos uma incursão no futuro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dezembro! Parece que foi ontem que o ano começou&#8230; Este mês, tradicionalmente, é usado como uma espécie de rampa de lançamento para a máquina do tempo. É quando viajamos para trás, visitamos o passado e verificamos nossas conquistas e derrotas acontecidas no ano que está terminando. E é também quando fazemos uma incursão no futuro e tentamos imaginar o ano que queremos viver nos próximos doze meses. Vamos nessa?</p>
<p><strong>Visitando o passado</strong></p>
<p>O interessante é que, quando se fala da imaginária máquina do tempo, a maioria das pessoas gostaria de tê-la para viajar primeiro para o passado, depois para o futuro. Parece que o desejo de poder mudar alguma coisa que já aconteceu é maior do que a curiosidade sobre o que vai acontecer.</p>
<p>Queremos viajar para o passado provavelmente para fazer alguma coisa que não fizemos ou para desfazer algo de que nos arrependemos.  Pois então temos uma boa notícia. Nesse sentido, a máquina do tempo já existe, é barata e acessível a todos nós: é nossa própria consciência. A percepção saudável da realidade permite que façamos uma conexão lúcida entre as experiências presentes e o significado do passado.</p>
<p>Voltar no tempo é uma fantasia divertida e útil, por estranho que pareça. É divertida porque revivemos os momentos bons, e porque percebemos que os maus, pelo menos em sua maioria, não passaram de sensações desagradáveis que não tiveram tanta repercussão assim em nossa vida.</p>
<p>E é útil porque nos obriga a refletir sobre o que gostaríamos de mudar em nossa jornada, portanto, em nós mesmos. “Ah, se eu pudesse voltar no tempo”, dizem as titias que não casaram, os homens sérios que não aproveitaram a juventude, os pais que estragaram os filhos com mimos e excessos. Pois é, infelizmente não dá para mudar o passado, mas dá para mudar seu significado em nossa cabeça e em nosso coração.</p>
<p>O que passou, passou, mas deixou suas marcas, que podem ser chamadas, simplesmente de aprendizados. O que devemos evitar é a armadilha de culpar o passado pelos problemas do agora, e de viver em função de glórias que já aconteceram. As marcas do passado devem ser lidas como palavras em um livro de história. Servem para que evitemos cometer os mesmos erros e para que possamos aperfeiçoar os pontos positivos, aqueles que nos tornaram pessoas melhores.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Imaginando o futuro</strong></p>
<p>Esta é uma prerrogativa dos humanos. Nenhuma outra espécie é capaz de imaginar o futuro, pelo simples motivo de que não têm conhecimento de que ele existe. Nosso cérebro é o único que tem consciência temporal, identifica o presente, recorda o passado e imagina o futuro. É bem verdade que o presente é a única realidade prática, mas também é verdade que é nesse instante que se inserem a passado e o futuro. Na dimensão temporal atual, o passado recebe o nome de memória e o futuro tem vários pseudônimos, tais como sonho, desejo, medo e esperança.</p>
<p>O que não podemos deixar de lembrar é que futuro não é algo que vai existir, o futuro existe agora. Aliás, o futuro só existe no presente, pois quando, no futuro, o futuro virar presente, ele deixará de ser futuro. Parece óbvio, mas escapa da percepção cotidiana da maioria das pessoas. E escapa também o fato de que o futuro virará presente, e quando isso acontecer, ele será melhor ou pior a depender das providências tomadas no presente, neste presente.</p>
<p>Em outras palavras, só vivemos no presente, mas estamos fortemente conectados ao passado que nos ensina, e ao futuro, que nos motiva. Viver é estar atado a essa tríade temporal, doce ou amarga, dependendo da consciência e das iniciativas de cada um, sempre lembrando que a verdadeira sabedoria reside em vivermos em paz com o tempo. Consciência tranqüila com relação ao passado e expectativa positiva com relação ao futuro tornam nosso presente mais ameno.</p>
<p>Mas as pessoas estabelecem relações diferentes com relação ao futuro, dependo de seu grau de maturidade e de lucidez. Há os que ignoram o futuro, tratam de viver intensamente o presente e alegam que irão atender às demandas do futuro apenas quando elas aparecerem. Estes são os imprevidentes.</p>
<p>Há também os que tratam de prever o futuro. Eles, inteligentemente, analisam os fatos do passado, lêem os sinais do presente e, a partir dessa técnica, arriscam palpites sobre o que acontecerá no ano que vem. Estes são os futurologistas.</p>
<p>Mas há os que não se contentam em prever o futuro, resolvem, por iniciativa própria, construí-lo. Usam, para esse fim, duas qualidades fundamentais: a imaginação e a razão. Imaginam o mundo que desejam, para si e para os outros, e tratam de assentar os tijolinhos da lógica para construir a escada que os levará ao seu destino. Estes são os idealizadores.</p>
<p><strong>A realização das profecias</strong></p>
<p>Há quem diga que pensar sobre o futuro significa brincar de profeta, de adivinho, pois o número de possibilidades de nossa vida é tão grande que só a partir do elementos da lógica não é possível acertar o que vai acontecer. Sim, há verdade nesta observação, mas também temos que considerar a incrível capacidade de nossa mente em influenciar os acontecimentos futuros, e, neste caso, não estamos falando de profecias místicas, e sim de psicologia.</p>
<p>Há estudos sérios sobre este assunto. Por exemplo, o sociólogo americano Robert Merton, que é doutor pela Universidade de Harvard, dedicou sua vida a estudar o comportamento das pessoas em seus ambientes de trabalho, especialmente dos líderes. Ele percebeu que quando as pessoas se convencem de que alguma coisa acontecerá, essa coisa tem grande chance de acontecer de fato pelo simples motivo que todos se organizam para realizar aquela previsão. A esse fenômeno o estudioso chamou de <em>profecia auto-realizável</em>, uma espécie de conspiração mental para fazer acontecer o que se deseja.</p>
<p>Então, muito cuidado nesta hora, pois o mesmo se aplica para aquilo que tememos que aconteça. Quando nosso medo é grande tratamos de justificá-lo providenciando os meios para que o fato se concretize. Afinal, gostamos de ter razão sempre.</p>
<p>Por isso, neste mês de dezembro, na rampa de lançamento para o ano que vem, precisamos ter muito cuidado com nossas previsões, pois elas têm o estranho hábito de se concretizar. Deseje só o melhor. Enfrente seus medos com coragem e não com paralisia. Acredite em seu potencial, confie nas pessoas, acrescente alegria e amor às suas relações e ao mundo. Afinal, é o único que temos. E pare de dizer o que você quer do futuro; experimente ser generoso e pergunte ao futuro o que ele quer de você.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Conexão Direta com Você, da Nextel.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
www.nextel.com.br</em></p>
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		<title>A passagem do tempo</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Feb 2010 16:30:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
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		<description><![CDATA[O tempo passa e ficamos com a sensação de que nunca o aproveitamos como deveríamos. Existe uma maneira de conciliar a vida com o tempo, que a consome?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">Os gregos, que encontravam explicação para tudo pelas forças emanadas pelo monte Olimpo, não se contentavam em ter um deus do tempo, tinham logo dois: Cronos e Kairós. Um só deus grego não seria suficiente para explicar a relação do homem com o tempo, tamanha a tensão que existe entre ambos.</p>
<p style="text-align: justify;">A única proeza em que o homem teve sucesso, a respeito do tempo, foi conseguir medi-lo. Para isso, analisou ciclos, como os movimentos da Lua e do Sol, observou seu efeito sobre a natureza e, então, padronizou os tempos do ano, das estações e dos dias, posteriormente divididos em frações, chamadas horas, minutos, segundos. Em sua arrogância, o humano acreditou que, ao medir o tempo, o controlaria. Doce ilusão. As medidas só serviram para aumentar a sensação da passagem veloz do tempo, que escorre pelas mãos, como a água.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas nem tudo está perdido. Nós, humanos, podemos ser apenas pobres mortais, mas temos uma ferramenta que nos permite controlar, se não o tempo, nossa própria existência. Essa ferramenta se chama consciência. E ela nos permite conviver com o tempo com base em três visões: da física, da metafísica e da ética. Do ponto de vista físico, o tempo pode ser medido. No âmbito da metafísica, o tempo pode ser sentido. E, de acordo com a ética, o tempo deve ser vivido.</p>
<p style="text-align: justify;">A física é a relação mais óbvia, e é com um instrumento físico que nós passamos a medir o tempo: o relógio. Contudo, ele apenas nos avisa que o tempo passa – o que faremos com essa informação é problema nosso. Do ponto de vista do que está além da física, o tempo é um sentimento, portanto ele tem duração variável, contrariando os relógios. Veja só: dois minutos de broca do dentista são mais longos do que 16 minutos escutando o Bolero de Ravel ao lado da pessoa amada.</p>
<p style="text-align: justify;">E, quanto à ética, ela nos alerta para um fato óbvio só para os mais conscientes: o tempo é um recurso escasso que não pode ser reposto, e sua qualidade dependerá do que fi- zermos com ele. Como disse Marcel Proust: “O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração”. E ele entendia do assunto, pois dedicou mais de uma década para escrever cerca de 4 mil páginas, que foram publicadas em sete volumes dedicados à relação humana com seus valores, entre eles o tempo. A essa obra completa, o escritor francês chamou <em>Em Busca do Tempo Perdido</em>. No último volume, O Tempo Reencontrado, o autor faz várias voltas ao passado e descobre que só a memória poderá se defrontar com o tempo e nossa paz interior será proporcional ao que a memória encontrar na volta ao passado, ou seja, a qualidade que demos ao tempo que nos foi dado viver.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #ff6600;">Podemos sentir o tempo e medi-lo. Então ele está à nossa disposição?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;">O tempo está à nossa disposição, mas é ele que dispõe de nós, por isso, estabelecer com ele uma relação de paz é um ato de sabedoria. Sentir e medir o tempo são aparentados, pois ambos nos permitem perceber seu andar ininterrupto. Como? Bem, sentir e medir o passar das horas são iniciativas úteis, pois nos ajudam a decidir o que faremos com o tempo de que dispomos. Assim, nossa paz com o tempo será diretamente proporcional à paz que estabelecemos com nossas escolhas e nossas decisões. E essas são pessoais, relativas aos valores de cada um.</p>
<p style="text-align: justify;">O cientista inglês Stephen Hawking, que ocupa na Universidade de Cambridge a mesma cadeira que já foi de Newton, escreveu um livro chamado <em>Uma Breve História do Tempo</em>. Em dado momento, em meio a intrincados conceitos científicos, ele pondera que o tempo tem que ser analisado com base em três setas: a seta cosmológica, que explica a expansão do Universo, a seta termodinâmica, que explica a modificação constante das coisas, e a seta psicológica.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, o físico mais importante da atualidade não consegue analisar os fatos do tempo sem recorrer à psicologia. Os enigmas intrincados da matéria se relacionam com os mistérios do tempo desde sempre, mas, quando o homem passou a protagonizar essa peça no palco do Universo, seus pensamentos e sentimentos acrescentaram novos ingredientes ao roteiro, às vezes de comédia, às vezes de tragédia.</p>
<p style="text-align: justify;">A maior contribuição da física, nesse assunto, é a ideia da relatividade. As sofisticadas descobertas de Einstein sobre a velocidade da luz nos levaram a abandonar a ideia de tempo único e absoluto. Então: “O tempo se tornou um conceito mais pessoal, relativo ao observador que o está medindo”, diz Hawking. Nossa relação com o tempo se faz baseada em nossos valores, opções, decisões e culpas. É o tempo psicológico. Eu dedico mais tempo àquilo que tem mais valor para mim. O problema é conhecer seus valores.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando aos gregos, Cronos é o deus do tempo medido, por isso usamos expressões como cronograma, cronologia, cronômetro. Nos livros de mitologia, ele é representado como um deus malvado, que come seus próprios filhos, simbolizando o que o tempo faz conosco atualmente – parece que ele nos devora. Já Kairós é o deus do tempo vivido, das escolhas que fazemos, da maneira como nós aproveitamos a vida. Cronos é quantitativo, e Kairós é qualitativo.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira sensação é a de que Cronos é inimigo e Kairós amigo. O primeiro quer subjugar, e o segundo libertar. Mera sensação, pois, na prática, nós precisamos de ambos, uma vez que não podemos escolher a felicidade sem nos organizarmos para alcançá-la. Kairós nos estende a mão, Cronos nos empurra. Mas é necessário que saibamos o que queremos e que consigamos nos organizar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #ff6600;">A sabedoria consiste em estabelecer uma conexão entre os valores pessoais e a gestão do tempo disponível?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;">A mitologia ilustra bem essa angústia humana. Zeus, o mais poderoso deus do Olimpo grego, era filho de Cronos, mas nenhum dos dois conhecia esse parentesco, mantido em segredo por Réa, mãe dos filhos de Cronos. Mas Zeus só assume a posição de poder quando enfrenta Cronos e o vence em uma batalha. Ele havia sido sabiamente aconselhado a não matar seu oponente, pois assim ele estaria matando o próprio tempo e ficaria, então, aprisionado no instante, sem futuro nem memória.</p>
<p style="text-align: justify;">A estratégia de Zeus foi vencer Cronos, cortando seus tendões e amarrando sua cabeça aos pés, criando um círculo com seu corpo. A partir de então, o deus do tempo passou a ser também o deus das ações repetitivas, como o dia e a noite e as estações do ano, eventos cíclicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Na prática, Zeus conquistou Cronos e o dominou, administrou. Nossa vida moderna não difere disso. Todos temos 24 horas por dia à nossa disposição, mas estou certo de que você conhece pessoas que aproveitam bem essas horas, produzem, trabalham, estudam, se cuidam, se divertem, cultivam as relações. E também conhece outros, que se queixam da falta de tempo, da velocidade dos acontecimentos, da sensação de impermanência e da falta de controle. Na prática, o que acontece mesmo é exatamente a falta de controle, de ação da lógica na organização de suas prioridades. A agenda não escraviza – ao contrário, liberta, confere autonomia, possibilidades, alcances.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas gestão é a segunda palavra -chave. A primeira é escolha. Fazemos nossas escolhas com base em nossos valores e criamos uma estratégia para atingir nossos propósitos. Estratégias dependem de recursos, entre eles, o mais caro e raro: o tempo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #ff6600;">O ideal seria estabelecer uma relação lógica entre presente, passado e futuro?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Muito se fala que a única coisa real é o presente, pois o passado não existe mais e o futuro ainda está por vir. Há uma lógica nessa observação, mas é uma lógica primitiva, pois esses tempos são totalmente interligados e interdependentes.</p>
<p style="text-align: justify;">É verdade que o presente é a única realidade prática, mas também é verdade que é nesse instante que se inserem o passado e o futuro. Na dimensão temporal atual, o passado recebe o nome de memória e o futuro tem vários pseudônimos, como sonho, desejo, medo e esperança.</p>
<p style="text-align: justify;">O futuro não é algo que vai existir. O futuro existe agora. Aliás, o futuro só existe no presente, pois, quando no futuro, o futuro virar presente, ele deixará de ser futuro. Parece óbvio, mas escapa da percepção cotidiana da maioria das pessoas. E escapa também o fato de que o futuro virará presente e, quando isso acontecer, ele será melhor ou pior, a depender das providências tomadas no presente, neste exato momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, só vivemos no presente, mas estamos fortemente conectados ao passado, que nos ensina, e ao futuro, que nos motiva. Viver é estar atado a essa tríade temporal, doce ou amarga, dependendo da consciência de cada um. Fazer as pazes com o tempo é a verdadeira sabedoria. Só que “a sabedoria não se transmite, é preciso que nós a descubramos fazendo uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas”, também disse Proust.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, a sabedoria é uma maneira de ver as coisas, mas isso exige intenção, disposição e coragem. O problema é que desenvolvemos essas três qualidades em épocas diferentes de nossa vida, por isso a maturidade às vezes tarda, depende do tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo tempo que exige maturidade para ser bem escolhido e controlado, em outras palavras, para ser muito bem vivido.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: <a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank">www.revistavidasimples.com.br</a></em></p>
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		<title>O cronômetro do Taylor</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2010 13:20:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O que interessa é como você usa seu tempo ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em></em>Ele circulava pela fábrica portando um indefectível cronômetro. Quando lhe perguntavam o que fazia, respondia: “Estou medindo o grau da efi ciência”. O cronômetro de Frederick Taylor (engenheiro americano que viveu entre os anos 1856 e 1915, considerado o pai da administração científica) não media apenas o tempo, ele calculava a relação entre o trabalho realizado e o volume de recursos utilizados, inclusive o tempo, o mais escasso dos recursos.</p>
<p>O início do século 20 foi um período de espetaculares acontecimentos. Foi a era da introdução do automóvel, do telefone, do surgimento de uma nova física que dividiu o átomo, da aceitação do inconsciente humano. O mundo nunca mais foi o mesmo depois daqueles anos. Foi nesse período que alguns homens, Taylor entre eles, lançaram as bases para a criação de uma nova ciência: a administração. No dizer de Peter Drucker, essa foi a mais importante de todas as invenções, pois foi ela que viabilizou as outras. E, entre seus primeiros conceitos, encontramos a efi ciência, a capacidade de atingir resultados crescentes com economia de recursos. O tempo passa e a ideia da efi ciência só se fortalece.</p>
<p>A sustentabilidade, por exemplo, é descendente dela. Precisamos continuar produzindo, mas sem desgastar o planeta. E, acima de tudo, precisamos acertar nosso ritmo pessoal com o do mundo, pois parece que este ficou parecido com o coelho da Alice, que repetia sem parar “Estou atrasado, estou atrasado”. O mundo ficou mais rápido e fez surgir um novo tipo de patrão e de cliente, mais apressado e menos paciente. Nas empresas não precisamos só fazer mais com menos, mas mais rápido.</p>
<p>Sim, o cronômetro do Taylor continua ligado, mas alguma coisa mudou. Ele agora não mede a velocidade da tarefa, e sim o uso racional do tempo. O que interessa mesmo não é quanto tempo você gastou e sim como você o utilizou. Observe se você se organizou, respeitou a agenda e antecipou as urgências. Quem percebe isso tem uma vantagem sobre os demais: usa o tempo a seu favor e no final do dia pode ir para a academia, para o clube ou para o cinema, sem culpa.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: <a href="http://www.vocesa.com.br/" target="_blank">www.vocesa.com.br</a></em></p>
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		<title>Atenção aos Filhos</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Feb 2010 03:35:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O educador Paulo Freire dizia que tinha aprendido a ler antes de aprender a ler. É que, antes de “ler as letras”, ele já sabia “ler o mundo”. “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, e a posterior leitura desta não pode prescindir da continuidade da leitura daquele”, escreveu. Na visão do mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O educador Paulo Freire dizia que tinha aprendido a ler antes de aprender a ler. É que, antes de “ler as letras”, ele já sabia “ler o mundo”. “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, e a posterior leitura desta não pode prescindir da continuidade da leitura daquele”, escreveu. Na visão do mais importante educador brasileiro, quem não aprende a interpretar o que o mundo ao seu redor tem a dizer terá muita dificuldade em compreender o que as palavras impressas em um livro querem transmitir.</p>
<p>Portanto, primeiro aprendemos várias outras linguagens antes de nos aventurarmos na linguagem escrita. E essa primeira leitura quem nos ensina é a família, o lar a que nos foi dado pertencer. Há imensa beleza na descrição que o velho mestre faz de sua infância e do convívio familiar: “Me vejo na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para os riscos e aventuras maiores da vida que eu iria viver”. E continua: “A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão – o sítio de avencas de minha mãe –, o quintal amplo em que se achava, tudo isso foi meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus em pé, andei, falei. De todas essas coisas eu tirava a compreensão e eu ia aprendendo no meu trato com elas, e nas minhas relações com meus irmãos mais velhos, com minha mãe e meu pai, e até com os gatos da família – a sua maneira manhosa de enroscarem- se nas pernas da gente, com seus miados de súplica ou de raiva”.</p>
<p>Essas frases foram retiradas de um texto do Paulo Freire em que ele se refere à importância da família na formação do caráter e da competência social e produtiva dos jovens. Para muitos, a família é a célula principal que forma o tecido social, e seu grau de organização e saúde irá determinar o grau de organização e saúde da sociedade como um todo. Para alguns, a família é apenas uma idéia burguesa do núcleo conjugal que visa apenas a continuidade dos negócios e do patrimônio através da herança. Para Paulo Freire, é o lugar onde começamos a fazer a leitura do mundo, e o ambiente que irá contribuir decisivamente no nosso caráter e no nosso destino. Prefiro Paulo Freire.</p>
<p>A família-equipe</p>
<p>A reflexão à qual o texto do educador nos leva é sobre o fato de que a responsabilidade dos pais vai muito além de prover alimentação, segurança, educação, saúde. Os pais ensinam seus filhos a ler o mundo. E a dúvida que nos atinge com a força de um cruzado de direita é: afinal, como é mesmo que se faz isso?</p>
<p>A sociedade pós-guerra, e a contemporânea em particular, desenvolveu características novas, nunca antes presenciadas pela humanidade, em toda sua história, e que nos mostram que a família já não é mais o que era. A mãe está trabalhando, virou profi ssional, tem projetos próprios. O pai trabalha muito, não pode parar de estudar, fica muito tempo fora de casa. Os filhos têm de cumprir uma agenda que inclui muitas coisas além do colégio. Está armado o cenário para a proliferação da angústia do “será que estou fazendo a coisa certa?”, que assola o coração dos pais de hoje.</p>
<p>Eu, pessoalmente, me identifico com quem confessa essa angústia por não ter mais tempo de ficar com os filhos pequenos, ouvinvida do suas dúvidas, lendo histórias, apoiando as primeiras iniciativas, entendendo seus dilemas. Eu vivi esse capítulo intensamente. E aprendi a duras penas – pai inexperiente que era – que o lar é o primeiro mundo em que uma criança vive, e o que irá encontrar depois lá fora pode significar um grande perigo se, em seu primeiro ambiente, ela não recebeu sinais da realidade, ainda que atenuados.</p>
<p>É em casa que as crianças começam a formar seu sistema imunológico contra as frustrações da vida. A escola é a segunda instância, a família é a primeira. Coisas como autoestima, autoconfiança, responsabilidade, respeito, curiosidade, determinação e autonomia não se aprendem nos livros – se desenvolvem na prática, através de estímulos e exemplos. E são justamente essas coisas que definem a qualidade de uma pessoa, mais do que seu conhecimento teórico. Estudar é bom, aprender é melhor. E o aprender ultrapassa o estudar porque inclui o vivenciar.</p>
<p>Se a família é uma espécie de equipe, cada um tem suas tarefas, suas responsabilidades, papéis a representar. E isso exige, sim, atenção, preparo e organização dos pais, os líderes naturais. Definir horários para o convívio familiar não desmerece a relação, como se pensa, antes a engrandece, pois demonstra a importância que se dá à família. O trabalho é importante, claro, mas a família é fundamental. Por que destinar à família as sobras do tempo? Terá o convívio com os seus menos valor do que com os outros?</p>
<p>Pessoas produtivas são aquelas que aproveitam bem seu tempo, gerenciam com competência seus horários e dessa forma conseguem atender a mais compromissos do que os “perdidos no tempo”, que são, infelizmente, muitos.</p>
<p>E há mais uma premissa básica: podemos avaliar as relações levando em conta o critério de quantidade, mas também podemos fazê-lo baseados na qualidade. Em outras palavras, mais importante do que dedicar muito tempo aos filhos, é dar-lhes um convívio bom, intenso, belo. Em uma escola infantil, a professora provocou seu aluninhos com a seguinte questão: “Quando é que você gosta mais de seu pai?” A maioria das crianças respondeu algo como “Quando ele me leva para passear”. Um garoto, entretanto, disse: “Gosto mais dele quando está inteiro ao meu lado”. Esse garoto sabia o que estava dizendo.</p>
<p>Estar inteiro ao seu lado significa, para a criança, que o pai não está, ao mesmo tempo, lendo o jornal, assistindo a televisão ou conversando com mais alguém. Nesses casos, ela passa a representar um mero papel de coadjuvante, ela sente que não tem importância e pode até ser um estorvo. Estar inteiro significa olhar nos olhos, escutar de verdade suas palavras, responder com cuidado a suas indagações. Estar inteiro significa ser honesto, verdadeiro, coerente. É melhor ser um pai inteiro por uma hora do que um pai parcial por dez.</p>
<p>Lições da natureza</p>
<p>Vem dos biólogos uma informação muito interessante: a espécie humana é a mais frágil entre todas as de nosso planeta. Nós não somos fortes nem velozes e também não dispomos de equipamentos de ataque e defesa, como garras aguçadas e caninos salientes. Não somos numerosos se comparados com os insetos, por exemplo, nem temos carapaças de proteção como os caranguejos e os caracóis.</p>
<p>Mesmo assim, conseguimos o domínio sobre as outras espécies e o controle da natureza (melhor seria dizer descontrole, eu sei). O que nos permitiu essa proeza, mesmo sendo uma espécie desprovida de equipamentos anatômicos de sobrevivência? O cérebro, claro – além do polegar opositor, que nos permite manipular objetos. Um cérebro altamente desenvolvido, como o nosso, possibilitou a confecção de ferramentas e o desenvolvimento de estratégias de sobrevivência e domínio. O resto é história.</p>
<p>Mas não foi só pela parte lógica que o cérebro nos ajudou. Também pelo sistema límbico, o componente neurológico pelo qual nós experimentamos sentimentos e emoções, somos capazes de amar, sentir saudades, ciúme, raiva, medo, prazer, inveja, ambição. E essa parte foi a responsável pela forte tendência humana de formar grupos, de se aglutinar e, dessa maneira, aumentar sua chance de sobrevivência e controle do meio ambiente. E o primeiro desses grupos foi a família.</p>
<p>Os humanos formam a espécie em que os filhos ficam mais tempo em contato com seus pais, o que, aliado à capacidade de pensar, ter memória e dominar o conceito do tempo, criou um sistema em que uma geração passa à próxima todo o seu conhecimento. Uma tartaruga quando nasce é igual a outra que nasceu milhões de anos atrás, pois a tartaruga mãe e a tartaruga pai só passam para seus rebentos uma carga genética. Em nosso caso, além da carga genética, os pais entregam para seus filhos a carga cultural que eles aprenderam com a geração dos avós, que, por sua vez, aprenderam com seus pais, e assim por diante. A essa linha criada pelas gerações encadeadas damos o nome de civilização. Que dependeu da capacidade que o ser humano tem de amar e cuidar dos filhos e ensinar-lhes coisas.</p>
<p>Sim, ter filhos é um projeto da natureza, mas é também um projeto da sociedade e de cada um de nós. E projetos requerem atenção, lógica, inteligência, amor. Ensinar nossos filhos a “ler o mundo” é o que eles esperam de nós, além de se sentirem amados, claro. Somos diferentes das outras espécies. Somos provedores de sentimentos e conhecimentos. Somos responsáveis por aqueles que conquistamos, como disse Saint-Exupéry, mas somos ainda mais responsáveis por aqueles que geramos. Kahlil Gibran nos alertou sobre isso em seu belo poema sobre filhos: “A vida não recua e não se retarda no ontem/ Tu és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas, são disparados/ Que a tua inclinação, na mão do arqueiro, seja para a alegria”.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: <a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank">www.revistavidasimples.com.br</a></em></p>
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