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	<title>Sapiens Sapiens &#187; relações</title>
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		<title>A importância da parceria</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jun 2010 14:51:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Qual o verdadeiro significado de um companheiro? Por que as pessoas valorizam tanto ter alguém ao lado para poder viver mais plenamente? ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Certa vez Tom Jobim escreveu: &#8220;Vou te contar, os olhos já não podem ver, coisas que só o coração pode entender, fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho&#8230;&#8221;. Com todo o respeito pelo maestro, eu acho que ele exagerou um pouquinho na última frase. Nela, ele condiciona a felicidade exclusivamente ao fato de não se estar sozinho. Entretanto, vale lembrar que a recíproca pode ser igualmente verdadeira, ou seja, alguém que irradia felicidade tem mais chance de ter alguém ao lado.</p>
<p>Mas, uma vez posta essa ressalva, vamos dar um crédito ao Tom, e concordar que, quando se tem alguém ao lado, tudo fica mais fácil, mais seguro, mais completo, mais divertido. Só que &#8211; e esta condicional é importantíssima &#8211; não pode ser qualquer alguém, tem de ser um alguém a quem se possa, sem medo de errar, chamar de companheiro ou companheira.</p>
<p>Companheiro é uma palavra que vem do latim cum panis e refere-se a alguém com quem dividimos o pão. Companheiro é uma pessoa em quem confiamos o suficiente para sentar junto à mesa e compartilhar uma refeição, esse momento que não alimenta apenas o corpo, mas também a alma. O simbolismo de se alimentar com alguém é imenso, pois pressupõe que você está em sintonia com essa pessoa e olha junto com ela para o futuro &#8211; afinal, quando nos alimentamos criamos a esperança de continuar vivendo, de não morrer, de termos um amanhã.</p>
<p>Como não nos alimentamos apenas de pão, mas também de ideias, saberes e planos, ter um companheiro significa compartilhar esse conjunto de coisas &#8211; tudo o que nutre nosso corpo, nossas emoções, nossos pensamentos e, principalmente, nossos sonhos. Se essa plenitude é possível com a pessoa que está ao seu lado, acredite, ela pode sim, nesse caso, colaborar &#8211; e muito &#8211; com sua felicidade. E então, parodiando o maestro: enquanto a noite vem nos envolver, é muito bom estar ao lado de um companheiro.</p>
<p><em>Mas será mesmo que uma parceria é assim tão importante?</em></p>
<p>Acompanhe esta história: apesar de ser incrivelmente inteligente, John apresentava grande dificuldade para lidar com os fatos do cotidiano, um dos sintomas da esquizofrenia de que era portador. Ele era considerado uma revelação em matemática, havia concluído sua graduação com louvor na Universidade de Princeton e, com 23 anos, chegava ao prestigioso Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) como professor, apesar de continuar desencaixado do mundo real.</p>
<p>Mas no MIT ele conheceu Alicia, uma jovem estudante de física, e então sua vida começou a mudar. Quando, anos depois, recebeu o prêmio Nobel de Ciências Econômicas por seus trabalhos relacionados à Teoria dos Jogos, John subiu ao pódio para seu breve discurso, e ele o dedicou a uma pessoa: à sua companheira Alicia, sem a qual, segundo ele, nenhuma de suas conquistas teria sido possível. Seu gesto foi justo, pois ela lhe havia dado todo o suporte, emocional e prático, liberando assim sua inteligência para ser adequadamente aplicada à ciência. A história de John Nash, suas teorias matemáticas, sua luta contra a esquizofrenia e a relação com sua mulher foram bem retratados no filme Uma Mente Brilhante, com Russell Crowe no papel de Nash. O filme inclui o discurso, que, aliás, é o momento mais emocionante da fita.</p>
<p>John e Alicia Nash não configuram um caso isolado. Representam apenas uma entre milhares de outras histórias, exploradas pelo cinema e pela literatura, que se referem à força da parceria que um casal pode ter. É sim uma história de amor, mas mostra que este não é um assunto restrito ao romance entre duas pessoas. Ele tem um caráter muito maior, em que os rumos de vida delas são influenciados, para o bem ou para o mal. Pessoalmente, acredito fortemente na influência que um companheiro tem na vida de alguém. E digo isso por experiência própria.</p>
<p>Casamentos podem ser com papel ou sem papel, com alguém do outro sexo ou do mesmo, entre pessoas de mesma nacionalidade ou que se criaram em lados opostos do mundo, entre fiéis da mesma ou de outra religião, que têm a mesma cor na pele ou não, que torcem pelo mesmo time ou por times rivais, que têm a mesma idade ou nem são da mesma geração. O que importa não são essas coincidências. O que importa é se são companheiros de verdade.</p>
<p>Nos casamentos que acontecem todos os dias, é possível considerar que estão sendo construídas parcerias de verdade?</p>
<p>Uma parceria é mais que um casamento. Aliás, um pode acontecer sem o outro. Conheço casamentos que não são parcerias e parcerias em que o casamento nem sequer foi cogitado, não está na pauta de prioridades. Em um casamento, considero que haja três possibilidades de parceria. A primeira é quando o casal tem um projeto comum, a segunda é quando um se engaja no projeto do outro e a terceira é quando ambos têm seus projetos próprios, mas um colabora com o projeto do outro. É mais fácil verificar isso no âmbito das carreiras, então vejamos.</p>
<p>Primeiro tipo de parceria: ter um projeto de carreira comum. Isso é maravilhoso, mas é o mais complicado, pois pressupõe mais contato, e, como consequência, maior superfície de atrito. Acontece com os casais que trabalham juntos, o que é mais comum do que se imagina. Vivemos uma época em que os bons empregos não estão caindo das árvores, o que leva as pessoas, especialmente as mais ambiciosas, a empreender seus próprios negócios. Em outras palavras, a criar seus próprios empregos.</p>
<p>E, nesse caso, é comum o casal resolver trabalhar junto, dividindo as tarefas, as responsabilidades e os resultados. O Luiz Felipe e a Gisela são um bom exemplo. Eu os conheci há mais de uma década, quando ainda estavam buscando consolidar sua empresa de cosméticos em Curitiba. Lembro-me de o Luiz Felipe ter-me dito uma vez, com seu jeito brincalhão: &#8220;Fazemos tudo em par. Trabalhamos, sonhamos, viajamos, estudamos, brigamos e até dormimos juntos&#8221;. Hoje sua empresa tem sucesso nacional e eles continuam fazendo tudo juntos.</p>
<p>Segundo tipo de parceria: engajar-se no projeto do outro. Acaba tendo um efeito parecido com o primeiro tipo, pois o projeto que era de um passa a pertencer a ambos. Foi o caso de Yves e Pierre. O jovem Yves tinha recém-voltado a Paris, após servir o exército na guerra da independência da Argélia, e queria retomar a carreira de estilista, que tinha começado anos antes na casa Christian Dior. Só que agora com seu próprio estilo e com seu nome, então criou a marca YSL, ou Yves Saint Laurent. A ideia, o nome e o talento eram seus, mas ele não teria chegado aos tapetes vermelhos da alta costura mundial se não tivesse contado com seu parceiro, Pierre Bergé. Foi ele que deu o apoio financeiro e a estrutura empresarial, foi responsável pela gestão, pela estratégia e pelo marketing. O projeto era de Yves, mas Pierre embarcou nele e o tornou possível.</p>
<p>A relação afetiva entre ambos durou 15 anos, mas a parceria profissional durou 45, até a morte de St. Laurent, em junho de 2008. De certa forma, Yves se referiu à parceria de um casal quando disse: &#8220;Nada é mais belo que um corpo nu. A roupa mais bela que pode vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Mas, para aquelas que não tiveram a sorte de encontrar essa felicidade, eu estou lá&#8221;.</p>
<p>Terceiro tipo de parceria: casais em que um apoia o projeto do outro. Em uma sociedade competitiva, que se constrói pela força do conhecimento, não é incomum o marido e a mulher construírem carreiras brilhantes em áreas diferentes de atividade, mas igualmente exigentes em estudo e preparo. É o caso da Joyce e do Daniel. Ela, dentista conceituada, estudiosa, antenada. Ele, executivo cobiçado pelas empresas de tecnologia, fala vários idiomas, conhece como poucos o mundo high tech e dos negócios que resultam dele. Suas áreas são diferentes; em comum, mesmo, só os gêmeos Pedro e Gustavo, e o projeto para mais um filho. Mas é bonito de ver como um se interessa pela carreira do outro, como estimula, torce, sofre, se orgulha.</p>
<p>Não é importante que ambos torçam pelo mesmo time, mas ambos têm que torcer. Parceiros são assim, estão juntos para dar força um ao outro, para compreender, aconselhar, abraçar, alegrar-se, chorar junto. Companheiros compartilham do mesmo pão &#8211; e não importa se o pão é fresco, macio e abundante, ou está duro, passado e é pouco. Companheiros compartilham o que têm: do pão aos sonhos; o presente e o futuro.</p>
<p>Aliás, esse assunto também foi tema da mitologia e da poesia, ou de ambas ao mesmo tempo. Uma das mais belas abordagens é aquela em que um anjo pergunta a Deus por que Ele havia criado os homens com &#8220;aquele defeito&#8221;.</p>
<p>- Que defeito? &#8211; perguntou o criador, com brandura.</p>
<p>- Bem &#8211; disse o anjo -, eu reparei que as pessoas só têm uma asa, e não duas, como nós, e sabemos que são necessárias duas para voar. Então parece que eles nasceram defeituosos.</p>
<p>- Acontece, querido anjo &#8211; explicou Deus -, que cada homem e cada mulher tem, sim, duas asas, só que uma está consigo e a outra está em outra pessoa. Eu os fiz assim para que eles aprendessem a voar em pares e assim conseguissem chegar mais alto.</p>
<p>- Além disso &#8211; continuou o Todo-Poderoso -, dessa maneira eles também aprenderão a respeitar e a cuidar uns dos outros. Qualquer pessoa que magoe outra poderá estar machucando sua outra asa, e assim ficará impedida de voar. Só pelo amor, nunca pelo ódio, se aprenderá a voar pela vida, aproveitando toda a maravilha que ela tem para oferecer.</p>
<h4><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: </em><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></h4>
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		<title>As mágoas vão rolar</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Feb 2010 02:22:01 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A não ser que você seja um anjo imaculado e habite uma dimensão celestial, longe das imperfeições e das mazelas humanas, você já teve que perdoar alguém e também já precisou ser perdoado. Eu diria que é improvável cruzar a vida sem prejudicar e ser prejudicado, magoar e ser magoado, decepcionar e ser decepcionado. Com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A não ser que você seja um anjo imaculado e habite uma dimensão celestial, longe das imperfeições e das mazelas humanas, você já teve que perdoar alguém e também já precisou ser perdoado.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu diria que é improvável cruzar a vida sem prejudicar e ser prejudicado, magoar e ser magoado, decepcionar e ser decepcionado. Com ou sem intenção, nas relações humanas, esses verbos malquistos algum dia acabam sendo conjugados. E, nesses casos, o substantivo perdão tem de ser chamado a compor o texto, senão a vida não completa sua sintaxe.</p>
<p style="text-align: justify;">O perdão é, sim, um importante meio de obter paz de espírito, ainda que não seja o único. Mas, como todos os outros recursos que pavimentam o caminho que leva ao estado de graça interior que, por sua vez permite ao humano usufruir da tranquilidade de conviver consigo mesmo, o perdão verdadeiro é difícil de ser praticado.</p>
<p style="text-align: justify;">Perdoar é o ato de libertar o outro da culpa, mas é mais que isso. Em sua função libertária, o perdão liberta quem o pratica. É um ato de grandeza de espírito, que representa, acima de tudo, uma doação.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>For-give, vor-geben, per-dón</em>, perdão. Praticamente em todos os idiomas a palavra perdoar obedece a sua origem do latim vulgar perdonare, que é formada pela junção do prefixo per (através de) com a palavra <em>donare</em>, que representa o ato de doar ou, melhor ainda, dar-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Através do perdão a pessoa doa o que há de melhor em si mesma – a compreensão, a compaixão e a esperança. Você me ofendeu e me magoou, e eu compreendo que você falhou porque é humano, compadeço-me por seu arrependimento e tenho a esperança de que tal não se repetirá. Por isso o perdoo. Simples e belo. Mas&#8230; sempre possível? Essa é a verdadeira questão existencial do perdão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #993300;">Qual o melhor caminho para compreender o perdão? </span></strong></p>
<p style="text-align: justify;">“Errar é humano, perdoar é divino”, diz o ditado. Mas ele está um pouco ultrapassado. Há tempos que o conceito de perdão abandonou o céu angelical para vagar em terra mundana. O principal motivo é que sem ele a vida em comunidade não seria possível, pois cada ofensa geraria uma inimizade. O perdão não é apenas uma atitude, é uma qualidade necessária à elevação dos espíritos, como demonstram várias áreas do pensamento humano que já se debruçaram sobre ele, como a filosofia, a psicologia e a religião.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Bíblia o perdão é tema recorrente. No Velho Testamento, em Levítico (16:29-31), encontramos que Moisés institui um dia dedicado à purificação dos pecados. Considerado como um “estatuto perpétuo”, tal data é respeitada pelos judeus, que a chamam de Yom Kippur – o dia do perdão. A importante ocasião ocorre logo após o Rosh Hashanah – o ano-novo judeu. Pedagógica correlação, pois esclarece que não se deve iniciar um novo ciclo sem perdoar e obter perdão.</p>
<p style="text-align: justify;">Moisés havia subido o monte Sinai para ter um encontro com o Divino, de quem recebeu as tábuas com os Dez Mandamentos. Ao descer, a decepção. Encontrou os hebreus adorando uma imagem, uma estátua de bezerro, ignorando seus conselhos de que só devemos adorar a Deus. Em sua revolta, atirou as tábuas ao chão, quebrando-as, e não lhe restou saída senão voltar à montanha e pedir novas tábuas a Deus, implorando-lhe, também, o perdão. Ele então instituiu aquele dia para marcar o perdão concedido pelo Senhor à iniquidade de seu povo e a sua própria ira.</p>
<p style="text-align: justify;">As orações e o jejum praticados no dia do perdão, além do compromisso de o ofensor não mais cometer as transgressões novamente, são alguns dos passos seguidos por aquele que quer limpar suas mágoas para começar purificado o novo ano.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi nesse dia, em que a noção de perdão foi pela primeira vez esboçada como um importante valor humano, e também foi ali, dentro dessas mesmas raízes judaicas, que o cristianismo brotou.</p>
<p style="text-align: justify;">O Pai-nosso, a oração mais importante entre os cristãos – que teria sido ensinada pelo próprio Cristo –, considera o perdão uma forma de estabelecer uma relação com Deus e com os homens. “Perdoai nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido”, diz uma passagem, antes de pedir força para evitar as tentações e proteção contra os infortúnios da vida. Sim, o perdão precede o poder e a segurança.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #993300;">Por que o perdão faz bem a quem perdoa e beneficia quem é perdoado? </span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong></strong>Entre os filósofos, o perdão também é tema ancestral. Foi, só para ilustrar, assunto de simpósios, os encontros em que, entre um gole e outro de vinho, os antigos gregos se punham a discutir as grandes questões que inquietam o espírito humano, como a morte, a coragem e o amor. “Só quem tem a capacidade de perdoar conquista o direito de julgar”, disse Sócrates num desses momentos de sabedoria e embriaguez em que a civilização ocidental foi gestada.</p>
<p style="text-align: justify;">Contemporâneo de Cristo, o romano Sêneca introduziu o perdão na esfera do estado. Em sua obra, Tratado sobre a Clemência, o tutor de Nero apresentou a arte de perdoar como a principal arma para o governante lidar com a justiça e firmar-se como estadista. Segundo o filósofo, praticar atos clementes seria exercitar a temperança do gênio, a tranquilidade do espírito e a virtude do erudito. O perdão real possibilitaria a coesão do estado na sociedade, atendendo às diferentes vontades das classes, ao mesmo tempo que serviria como excelente instrumento jurídico, permitindo a aplicação da pretensa justiça com moderação. Apesar disso, ele mesmo foi vítima da falta de perdão. Desconfiado de sua traição, Nero o condenou à morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de muitos séculos e de muitas reflexões e textos sobre o assunto, a filósofa alemã Hannah Arendt, que migrou para os Estados Unidos com a ascensão do nazismo, escreveu, em seu livro <em>A Condição Humana</em>, que o perdão é uma resposta libertária: “[o perdão] é a única forma de reação que não ‘re-age’ apenas, mas age de novo e inesperadamente, sem ser condicionada pelo ato que provocou e de cujas consequências liberta tanto quem perdoa quanto o que é perdoado [...] é a liberação dos grilhões da vingança”.</p>
<p style="text-align: justify;">Com essas palavras ela faz uma conexão com a psicologia, que busca a qualidade do pensamento e a calma das emoções, e diz que perdoar faz bem porque livra a pessoa das amarras do ódio e da injustiça. Perdoar beneficia quem é perdoado, mas favorece principalmente quem perdoa. Acontece que perdoar é uma atitude, mas primeiro é um sentimento. Antes de perdoar com as palavras, é necessário perdoar com a mente e com o coração, senão o efeito não é o mesmo, fica pela metade, vira falsidade. É preciso coragem para perdoar de verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">É de autoria de Freud o notável texto “Repetição, lembrança, translaboração”. Nele, o pai da psicanálise propõe que o inconsciente, que aprisiona a pessoa no passado e não permite que ela conviva em harmonia com o presente nem consiga ver esperança no futuro, seja examinado com coragem e grandeza suficiente para produzir o mais importante dos perdões: o perdão a si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>E quando a pessoa não merece perdão?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">A verdadeira questão filosófica do perdão é a opção de aplicá-lo. Mais importante que perdoar é decidir perdoar com convicção, o que implica visitar os princípios da justiça.</p>
<p style="text-align: justify;">No casamento de sua filha, meu amigo José Ernesto protagonizou um dos mais comoventes momentos que eu já tive a oportunidade de presenciar. Ao dizer aos noivos o que ele lhes desejava, aconselhou: “Sempre que possível escolham o perdão. Sempre que necessário escolham a justiça”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em duas frases ele sintetizou a essência das relações humanas que valem a pena. As relações devem ser dotadas de valores, não apenas de objetivos comuns. Quando as pessoas se juntam apenas por motivos utilitários, remetem sua relação à época dura das cavernas, em que tudo era permitido em nome da sobrevivência. Casamentos, amizades, empresas, agremiações políticas – qualquer tipo de encontro entre pessoas tem um objetivo que as mantenha unidas, mas, se for apenas isso a uni-las – objetivos, metas, destinos –, pessoas não serão pessoas, mas meros componentes de uma engrenagem mecânica. Ao humano, competências conferem utilidade, valores providenciam dignidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há vida digna sem justiça, e o perdão é parte dela. Parte. Perdão não é justiça. Perdão é decorrente da justiça. E praticar justiça remete a pessoa à tarefa de julgar, provavelmente a mais ingrata das missões humanas, pois significa entender os motivos de quem fez o que fez, considerar os efeitos do que foi feito e decidir sobre a pena justa e conveniente, que pode ser, entre outras, o perdão.</p>
<p style="text-align: justify;">É possível perdoar o assassino frio, o estuprador impiedoso, o corrupto contumaz? É justo perdoar o juiz da Inquisição, o patrocinador do Holocausto, o instaurador do <em>Apartheid</em>? Ora, sem considerar a justiça, o perdão é obsceno; sem contemplar o perdão, a justiça é malévola; afinal, a justiça é uma necessidade, o perdão, uma possibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, mesmo considerando que seja pesado julgar, difícil ponderar os fatos envolvidos, doloroso relevar mágoas, impossível esquecer ofensas, o ato de perdoar é grande, digno e belo. Até porque, ao julgar alguém, é conveniente fazer algum julgamento de si mesmo, para, ao perdoar o outro, guardar para uso próprio um pouco do perdão. Porque você, eu, qualquer um, se viveu uma vida, precisará ser perdoado por não tê-la aproveitado melhor.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: <a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank">www.revistavidasimples.com.br</a></em></p>
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		<title>O verbo cuidar</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Feb 2010 01:24:26 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Ultimamente tenho prestado muita atenção à palavra cuidar. Tenho encontrado referências a ela em muitos livros bons e isso me estimulou a analisar o quanto ela foi determinante para que coisas boas acontecessem, além de perceber que o descaso com ela acabou cobrando um preço muito alto. Estou falando da vida de muitas pessoas, de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ultimamente tenho prestado muita atenção à palavra cuidar. Tenho encontrado referências a ela em muitos livros bons e isso me estimulou a analisar o quanto ela foi determinante para que coisas boas acontecessem, além de perceber que o descaso com ela acabou cobrando um preço muito alto. Estou falando da vida de muitas pessoas, de empresas e de mim mesmo.  Conclui que cuidar é um verbo que deveria ser bem mais conjugado do que freqüentemente o fazemos. Possuir é bom, mas é o cuidar que garante a posse.</p>
<p style="text-align: justify;">Lembrando um pouco da gramática, cuidar é um verbo transitivo, ou seja, não se esgota em si mesmo. Precisa estar ligado a um objeto. E é transitivo indireto porque pede um objeto indireto, pois, quem cuida, cuida de alguma coisa. Essa é uma boa lembrança, pois nos leva a pensar: “Afinal de que mesmo eu ando cuidando ultimamente?”.  Há três esferas do cuidar que merecem imensa atenção: cuidar da carreira, das relações e de nós mesmos.</p>
<p style="text-align: justify;">Cuidar da carreira significa estar em permanente processo de aprimoramento, olhando para frente, se não você não tem uma carreira, tem apenas um trabalho.  Sem esquecer que inovação, responsabilidade e ética são componentes que merecem toda atenção, sempre. Representam o intelecto, a personalidade e o caráter. Carreiras bem cuidadas não dão sobressaltos, não oferecem surpresas. Carreiras bem cuidadas mostram a coerência entre os cuidados e os resultados, e estes são representados por promoções, novas oportunidades, crescimento profissional.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao cuidar das relações percebemos que elas têm círculos concêntricos, e todos merecem atenção. Comece pela pessoa que está ao seu lado, seu companheiro ou companheira, que deve estar acima de todos. Você sabe que tem um companheiro quando tem certeza que essa pessoa estará ao seu lado se tudo o mais falhar em sua vida. Cuide dela, é um bem que não tem preço. Há, depois, os círculos da família, dos amigos, dos colegas e de seu networking. Todos importantes, em momentos diferentes. Pessoas precisam de atenção, gostam de quem se lembra de seu aniversário, de quem liga às vezes sem outro motivo a não ser para perguntar “Como está você?”. Gosto daquela passagem da música Amigos para sempre, que foi cantada nas Olimpíadas de Barcelona em 1992, que diz “Amigos são como as estrelas. Nem sempre as vemos, mas sabemos que estão aí”.</p>
<p style="text-align: justify;">E, não menos importante, cuide de você mesmo, de sua saúde, de sua vida espiritual, de sua aparência, de seu conhecimento técnico, de sua cultura geral, de suas roupas, livros, CDs, casa, carro. As pessoas que cuidam de suas coisas são reconhecidas, merecem mais respeito, inspiram mais confiança. Cuide dos recursos que estão à sua disposição para trabalhar, viver, aprender, locomover-se, divertir-se. Só quem cuida, tem quando precisa.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #99cc00;"><strong>Cuidando dos recursos no seu trabalho</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">Falando em recursos, vivemos um tempo em que cuidar bem deles é sinal de inteligência, pois sabemos que eles – não importa quais sejam –são limitados. O planeta que o diga! Gerenciar os recursos no trabalho não só merece atenção mas, o mais importante, pode receber inovação. Sim, é possível inovar no dia a dia nas organizações, e não apenas nos grandes lançamentos propostos pelo departamento de P&amp;D.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o Taylor, no início do século passado, propôs aumentar a produtividade nas fábricas, diminuindo o tempo de produção ao mesmo tempo em que reduzia o esforço dos operários, estava, na prática inovando a gestão dos recursos de produção. Essa inovação foi tão significativa que acabou por dar à luz uma nova ciência, chamada Administração. Na prática, o que ele propôs não foi que as pessoas fizessem coisas novas, e sim que fizessem de um modo diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Gerenciar recursos com cuidado pode significar a diferença entre o sucesso ou o insucesso de uma empreitada qualquer. Não é só o resultado que conta, e sim sua relação com os recursos utilizados para alcançá-lo, e podemos estar falando de dinheiro, equipamentos, pessoas, tempo. “Mais uma vitória como esta e estaremos derrotados”, disse o general romano Scipio Africanus aos comandantes de seu exército, que lhe haviam trazido a notícia de mais uma batalha vencida contra os exércitos do cartaginês Aníbal. Eles estavam felizes e orgulhosos e não entenderam bem a resposta de seu líder, que parecia não valorizar o trabalho deles.</p>
<p style="text-align: justify;">É que havia uma diferença de percepção entre o general e seus homens. Eles olhavam para cada uma das batalhas, e ele tinha uma visão abrangente da guerra, no caso a Segunda Guerra Púnica. Ele tinha que cuidar do exercito para vencer a guerra, e a batalha que havia sido ganha tinha mobilizado cerca de dez por cento de todos os soldados de infantaria, com baixas consideráveis. O inimigo fora derrotado, mas o preço pago por essa vitória havia sido alto demais. Este é apenas um exemplo da preocupação que deve haver entre os recursos empregados e os resultados obtidos.</p>
<p style="text-align: justify;">De lá para cá, claro, tratamos de sofisticar os modelos, e a administração não só confirmou seu<em> status</em> de ciência, como acabou sendo a grande invenção do século, pois foi sua aplicação que permitiu que todas as outras invenções ganhassem vida. Só que temos que considerar algo importantíssimo: ainda que a administração lide com fatos, números, índices, e sempre procure a exatidão, consideramos que ela pertence à área das ciências humanas, e não das ciências exatas. E é assim porque o fator humano é fundamental para que os modelos de gestão tragam o resultado esperado.</p>
<p style="text-align: justify;">O guru Ram Charam, por exemplo, costuma dizer que “O elo perdido entre a estratégia e o resultado é a atitude” e, ao dizer isso, coloca o fator humano no jogo da gestão. Sim, de nada adianta a melhor estratégia do mundo se as pessoas que a executarem não estiverem comprometidas com o resultado, não cuidarem dos recursos necessários à sua implementação e não prestarem atenção aos detalhes. Não esqueça que estratégia é técnica, atitude é vontade. E que um não vive sem outro. Cuide de ambos, e, claro, cuide-se.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Texto publicado sob licença da revista Conexão Direta com Você, da Nextel.<br />
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