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	<title>Sapiens Sapiens &#187; paz</title>
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		<title>De bem com a vida</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 14:26:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
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		<description><![CDATA[“Cuidado, a vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada embaixo: Deus! e com firma reconhecida”.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A frase acima só podia ser de um poeta transgressor como Vinícius de Moraes. É uma das partes faladas do Samba da Benção que ele compôs e Baden Powell musicou. Enaltecendo a beleza do samba e a aventura do amor, ele fala mesmo, em seus versos, da arte de viver. Pede benção aos amigos e diz que já viajou muitas canções, mas que ainda há muitas para viajar.</p>
<p style="text-align: justify;">Os versos de nosso “poetinha” resumem como poucos a dupla função da poesia composta por beleza e verdade: agrada os sentidos e faz pensar. “Cuidado, a vida é pra valer”, não é algo a ser desperdiçado, até porque “Não se engane não, tem uma só”. Por isso temos que estar de bem com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Estar de bem com a vida. Este é um tema que ultrapassa o terreno estéril das frases de efeito e chega ao território fecundo da filosofia. &#8220;Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão”, disse Nietzsche, para depois admitir que invejava a leveza desses seres. “Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arrancam lágrimas e canções”, completou. Pois até o mal humorado filosofo alemão admitiu que há virtude em se buscar a paz com o viver.   </p>
<p style="text-align: justify;">E o que é estar de bem com a vida senão a capacidade de manter um estado de alegria a despeito das vicissitudes da própria? É claro que a vida é dura, injusta e muitas vezes cruel. Todos sofremos com a perdas e com as angústias próprias do viver, mas não é disso que estamos falando. As condições externas influem, sim, mas o tema aqui é o estado da alma.    </p>
<p style="text-align: justify;">Não me agrada o discurso fácil da auto ajuda que insiste que você tem a obrigação de ser feliz. Não, felicidade não é uma obrigação nem uma competência. Não é uma alienação. Felicidade nem sequer é um estado definitivo, e, com certeza não é um lugar onde se pode chegar. Por outro lado, não me agrada também a condição das “vítimas do sistema”, que se orgulham de sua amargura e a exibem como um troféu conquistado.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheço pessoas que souberam lidar bem com as dificuldades naturais de suas existências e conheço outras que se transformaram em vítimas tristes nas mesmas condições. É claro que há situações de extrema dificuldade, e negar a tristeza que vem junto é negar a própria condição humana. Mas esta não é a questão. Não me refiro às tragédias, e sim às dificuldades corriqueiras, que impregnam nosso cotidiano como o musgo na face sul do tronco das árvores, e que podem, com o tempo, apagar o brilho de viver. A menos que não se deixe que isso aconteça.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei pessoas de bem com a vida nas grandes cidades, trabalhando em imensas corporações. Encontrei também em pequenas vilas do interior ou do litoral. Em lugares pobres e em lugares ricos. Em tempos de tranquilidade e em tempos de crise. Ou seja, em todos os lugares. E também encontrei pessoas de mal com a vida. Onde? Exatamente nos mesmos lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Este talvez seja um dos grandes mistérios da psicologia humana. O que faz a diferença entre esses dois tipos de indivíduos? Será sua genética ou terá sido sua educação?       </p>
<p style="text-align: justify;">Lembro de meus colegas de colégio. Estávamos todos naquela fase de definir o futuro, de escolher a faculdade, de sonhar com o sucesso. Eu, por exemplo, já tinha me decidido: queria ser médico. E também queria ser rico, famoso, comprar um carrão, viajar bastante e ter um monte de namoradas, claro. Afinal, éramos todos adolescentes, cheios de espinhas e de sonhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia ali os futuros engenheiros, advogados, empresários, e até um diplomata.  E havia Fabinho. Ele não tinha planos grandiosos, não queria ficar rico nem famoso. Quando alguém lhe perguntava o que queria ser na vida ele respondia com um sorriso: “Eu quero ser feliz”. E eu via sinceridade em sua afirmação.</p>
<p style="text-align: justify;">O Fabinho era desses garotos raros que, ao contrário da maioria, não parecia estar em guerra contra o mundo. Não tinha inimigos, não se “empatotava” para odiar a outra “patota”. Não se queixava das exigências dos professores nem da dureza das provas, que, aliás, ele tirava de letra.</p>
<p style="text-align: justify;">Fabinho não era rico, nem bonito, nem atleta talentoso. Ele era como a maioria, com virtudes e fragilidades. Era como eu, só que ele tinha algo que lhe era singular. Ele parecia estar de bem com a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei, como já disse muitos Fabinhos pela vida afora, como também encontrei seus opostos, os amargurados crônicos. Qual o segredo? Não sei, mas, pra começo de conversa, estou certo de que não existe uma fórmula para ser feliz, e se existir, ainda que seja apenas uma pista, com certeza ela é pessoal e intransferível, pois felicidade é um conceito concebido individualmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto pessoas de bem com a vida têm, sim, algo a nos ensinar. A primeira lição é que elas não caem na armadilha fácil da felicidade imediata, aquela que é confundida com o prazer descartável, nem transformam a felicidade em um eterno projeto futuro. Gente de bem com a vida percebe que felicidade é um estado interior que não precisa ser prejudicado pelo que acontece fora de nós, e também se dá conta que, se a única coisa que existe de fato é o presente, o futuro vai virar presente e, quando isso acontecer, ele será tão melhor ou tão pior dependendo das providências que tomarmos no presente atual.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um quê de sabedoria nessa postura, e um monte de inteligência aplicada ao bem viver, pois, em síntese, quer dizer que temos que viver o presente com um olho posto no futuro, aproveitar cada instante como se fosse único e, ao mesmo tempo, organizar-se para o dia de amanhã para não ser tomado de assalto por notícias ruins nas esquinas da vida. Então é isso, estar de bem com o tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, espere um pouco, tem mais. É necessário equipar-se com alguns artigos de primeira necessidade para alimentar a felicidade, nada muito complicado, acredite. Algumas coisas são óbvias, mas invisíveis como o ar, que só é percebido quando falta. A saúde, por exemplo. Então é melhor cuidar da dita cuja, pois não dá pra ser feliz e doente ao mesmo tempo, e não importa a fase da vida. O mesmo se dá com a grana, a bufunfa, o tal do dinheiro. É parecido com o ar e a saúde, só damos valor quando falta. O ditado popular insiste, há séculos, que dinheiro não traz felicidade. Estou inclinado em acreditar nisso até certo ponto, pois se o dinheiro não te faz feliz, a falta dele, provavelmente, vai te tirar o sono e prejudicar sensivelmente a felicidade interna bruta.</p>
<p style="text-align: justify;">Resolvidos os requisitos básicos, que atrapalham a busca da felicidade se estiverem ausentes, é hora de cuidar dos ingredientes da verdadeira felicidade, aquela que dá gosto de sentir. E eles são pelo menos três: o que fazemos para viver, como gastamos nosso tempo livre e, talvez o mais importante, com quem compartilhamos tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;">O que fazemos para viver, evidentemente, é nosso trabalho. Ele nos dá o sustento e a dignidade, mas pode nos dar mais, pode dar o verdadeiro sentido da vida. Todos os trabalhos são dignos, mas temos que ouvir nossa vocação e perceber o significado daquilo que fazemos. Assim teremos, não só um trabalho, mas uma carreira; e não realizaremos apenas tarefas, mas causas. Não acho que alguém, para quem o trabalho seja um peso, possa ser feliz de fato. Você se contentaria em ser feliz só depois do expediente e, ainda por cima, odiar a vinheta do Fantástico, que é o prenúncio da segunda feira?</p>
<p style="text-align: justify;">Cuidar do tempo livre é ter disposição para se divertir. O prazer, a alegria, a diversão são tão importantes quanto seu trabalho ou o estudo. É desse equilíbrio que sai o caldo de cultura que vai alimentar a felicidade. E curtir a vida tem mais uma vantagem: quando você ficar velho terá boas lembranças como lenitivo para a vida mais recolhida.</p>
<p style="text-align: justify;">Por último, mas muito longe de ser menos importante, as relações humanas. Geneticamente não estamos preparados para a solidão, que só é boa quando é por opção, e, ainda assim, por pouco tempo. Ter amigos, curtir a família, cultivar boas relações com seus colegas de trabalhos e vizinhos do condomínio. As boas relações nos fazem felizes sim, alimentam nosso espírito gregário, nos fazem perceber que somos queridos, geram autoestima.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, é bom que se diga, há uma relação humana especial, que tem um imenso poder de agregar felicidade, que transforma silêncio em música, folha em flor, distância em saudades, toque em sedução, sorriso em esperança. Estou falando da pessoa especial que está a seu lado, seu companheiro, sua companheira de jornada. Estou falando do amor verdadeiro, que existe, sim, e é bom, muito bom.</p>
<p style="text-align: justify;">Não conheço os detalhes da vida do Fabinho, mas quem me fala sobre ele relata que ele tem andado por aí com aquela cara que só os apaixonados têm, um misto de paz e entusiasmo, a combinação pra lá de perfeita. No fundo, no fundo, não é difícil ser feliz, mas dá um certo trabalhinho cuidar desses detalhes. E o fator acaso? Existe, afinal? Claro que existe, mas seu potencial para gerar felicidade é diretamente proporcional à atenção e inversamente proporcional ao descaso.</p>
<p style="text-align: justify;">Já se disse que o acaso tem sempre a última palavra. Mas podemos rever esse conceito, afinal, a última palavra pode estar com cada um de nós, e é dita por aquilo que fazemos com o que o acaso fez conosco.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>Meu lugar sagrado</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Mar 2011 18:15:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin2</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há muitos lugares no mundo que são considerados sagrados. O que faz com que um local possa receber essa qualificação?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Saímos de Londres no final da tarde, seguindo para o oeste, em um carro alugado. Dirigir na Inglaterra é fácil e difícil. É fácil porque as estradas são ótimas, a sinalização é competente e o trânsito é civilizado. E é difícil porque precisamos recondicionar os movimentos para dirigir do lado direito do carro e do lado esquerdo da estrada. Lá, o errado é o certo. O pior é trocar a marcha com a mão esquerda, já que praticamente não se encontram carros automáticos na terra da Rainha – acham muito americano, esse conforto.</p>
<p style="text-align: justify;">A bordo, eu e meu filho, em nossa semana anual de colocar as coisas em ordem e a conversa em dia. A seu pedido, optamos por uma viagem <em>easy ride</em>, o que não significa viajar sem destino, e sim ir definindo o destino durante a própria viagem – explicou ele. Em cada etapa se planeja a etapa seguinte, e dessa maneira se pode ter a segurança da viagem programada e o excitante sabor da aventura. Ao anoitecer chegamos a Salisburry, uma pequena vila distante cerca de 80 milhas de Londres, onde havíamos reservado pela Internet um quarto para passar a noite no Grasmere House, um hotelzinho de duzentos anos.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia seguinte visitaríamos Stonehenge, um lugar considerado sagrado. Estávamos excitados com essa expedição, provavelmente por motivos diferentes. Para mim era a oportunidade para vivenciar o mistério que cerca esse conjunto de pedras colocadas em círculo há mais de quarenta séculos. Para o Rodrigo significava conhecer o lugar sagrado dos celtas. Os jovens gostam dos celtas e são atraídos por lugares sagrados. E de nada adiantava lembrar que Stonehenge é pelo menos dois mil anos mais antiga que a cultura celta. O que importa é a mística do local.</p>
<p style="text-align: justify;">Acordamos cedo, tomamos o café-da-manhã inglês, composto por ovo frito, salsicha, bacon e feijão doce, servido por um simpático garçom húngaro, e rapidamente estávamos na estrada com destino certo: o passado. Conversávamos animados sobre história, sobre a diversidade de culturas e sobre as surpresas da vida quando, como que do nada, lá estava, bem à nossa frente, o círculo de pedras mais famoso do mundo. Stonehenge fica à margem direita de uma estrada movimentada, e não há como não vê-la, imponente, irradiando sua energia milenar.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente estávamos na mística Stonehenge mas, claro, estávamos também na organizada Inglaterra, portanto, era necessário encontrar o local adequado para estacionar o carro, ler as recomendações e chegar ao circuito pelo qual pode-se caminhar contornando o monumento. Primeira lição de um lugar sagrado: ele deve ser respeitado.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se é possível explicar a sensação de estar em um lugar como esse. Você é naturalmente levado à contemplação. Quer ficar quieto, apenas observando aquelas pedras que são testemunhas de 45 séculos. O mundo evoluiu, fez arte, ciência, guerras, descobrimentos, enquanto as pedras simplesmente ficaram em seu lugar, repousando em seu nicho, como que querendo mostrar que há, sim, valores permanentes. Pode não ser fácil descrever um lugar sagrado, mas percebe-se claramente quando se está em um.</p>
<p style="text-align: justify;">Observei as pessoas ao meu redor e verifiquei comportamentos de todos os tipos. Havia os que, nitidamente, realizavam contidas orações, alguns meditando isolados, e havia os deslumbrados, os japoneses fotografando, os aposentados passando tempo, alguns hippies tardios e até um druida moderno com cartazes anunciando a chegada de uma nova era. Locais sagrados são assim, atraem tribos diversas, todas em busca de algo – que pode ser paz, quietude, cultura, curiosidade ou até, quem sabe, sentido para a vida. </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O sentimento do sagrado deriva do próprio local ou ele deriva uso que se fez desse local?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os locais considerados sagrados exercem uma influência sobre as pessoas, normalmente descrita como um sentimento de paz interior. Eu senti isso em Stonehenge, como já senti em outros locais que tive a oportunidade de conhecer. E nunca procurei –importante esclarecer – teorizar sobre a origem desse sentimento, pois isso poderia estragar a magia da experiência. Não importa o quanto aquele local tem de energia própria e quanto de programação psicológica eu estava providenciando para mim mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Lugares sagrados são aqueles que, de alguma forma, colocam o homem em uma dimensão diferente daquela em que ele trava sua luta diária de sobrevivência. É uma espécie de recarregador de baterias, considerando que a energia que precisamos para viver não vem apenas dos carboidratos, mas também de fontes existenciais. O Homem é o único ser que padece da lógica que o leva a questionar a razão de sua própria existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que estamos aqui, afinal? Seriamos meros entrepostos de gens, destinados a participar do processo de sobrevivência de nossa espécie, e pronto? Não, ninguém gosta de aceitar essa premissa de natureza tão simples. A consciência deu ao Homem duas missões: a de se diferenciar na Natureza e de justificar sua própria existência através de suas ações. Tarefa difícil, essa de ser gente. Não é nada fácil explicar para si mesmo o sentido da vida e dar conta do recado de não ser mero participante da cadeia alimentar, entre o vegetal produtor e a bactéria decompositora.  </p>
<p style="text-align: justify;">Por isso os locais sagrados são importantes, porque eles nos conectam com aquilo que gostamos de chamar dimensão superior, de divino, ou simplesmente de Deus.  Na verdade, todos nós já temos essa dimensão divina no peito, mas sentimos que ela precisa ser plugada, de tempos em tempos, em uma tomada de energia divina externa a nós mesmos. Algo maior que o humano, que materializamos em forma de orações, cultos, ritos e locais sagrados.</p>
<p style="text-align: justify;">Os templos e outros tipos de locais sagrados são, na verdade, obras do homem, mas gostamos de atribuir à sua edificação uma ordem superior, e a seu local algum fato transcendental. Todas as religiões observam os locais de nascimento, de morte ou de pregação de seus profetas. Eles funcionam como portais para a dimensão superior que nos aguarda, e com a qual gostamos de nos conectar desde já com a finalidade de orientar nossa vida terrena.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, locais sagrados são bons, úteis e necessários, e mesmo quem não curte a idéia da eternidade, não consegue se livrar da necessidade de paz interior. O que vai variar imensamente entre as pessoas é a qualidade desse local. Locais sagrados são, comumente, relacionados a locais de práticas religiosas, como igrejas e templos, mas essa ligação, ainda que comum, não é determinante nem definitiva. Em outras palavras, locais religiosos são sempre sagrados, mas locais sagrados não precisam ser necessariamente religiosos.   </p>
<p style="text-align: justify;">Que religião se professa em Stonehenge? Ora, nem sabemos se sua primeira utilidade foi ser um local de cultos. Pode ter sido um local de cura, de estudo ou de decisões políticas. A única coisa que sabemos é que se trata de um local que foi considerado especial ao longo de muito tempo. Pesquisas arqueológicas mostram que sua primeira edificação data de 3100 anos a.C., e que teve muitas outras épocas de reforma, reconstrução e modificação.</p>
<p style="text-align: justify;">E sabemos também que o nascer do sol no dia 21 de junho, o solstício de verão, cria, com a projeção de sua luz, uma avenida central no círculo de pedra. Essa observação dava ao homem a dimensão do tempo, lembrava a finitude da vida, marcava os ciclos de sua existência e o aproximava do divino. E, claro, poderia estar ligada apenas à marcação dos ciclos agrícolas. Transcendental ou pragmático, não importa, um local sagrado é sempre necessário. </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os locais sagrados são sempre locais de peregrinação e busca coletiva?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Local sagrado é aquele que nos conecta com uma dimensão maior do que a da prática cotidiana. Por isso os templos são também obras de arte, em que a arquitetura, a escultura e a pintura estão presentes, às vezes em doses espetaculares (basta entrar em uma igreja medieval), ou locais onde se pratica a música, seja o canto gregoriano ou pop evangélico moderno. A arte precisa estar presente porque ela é uma espécie de símbolo da possibilidade do Homem. O artista é o preposto de Deus tanto quanto o sacerdote. Mas, cuidado, pois há arte sagrada no cotidiano também, e só quem consegue perceber isso muda o patamar de sua vida prática. Nossos locais pessoais podem ser transformados em locais sagrados, e este foi o assunto que dominou a conversa com meu filho depois da visita a Stonehenge. Afinal – ponderamos – não é todo dia que se pode ir a um lugar como aquele para recarregar as baterias; então precisamos de outras fontes mais próximas. E elas existem, estão em nosso país, nossa cidade, em nosso bairro. Aliás, os locais sagrados são principalmente aqueles que nós mesmos construímos e neles colocamos nossa melhor parte.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha casa é um local sagrado, bem como meu trabalho, o parque onde passeio, a livraria que gosto de freqüentar, a academia onde cuido da saúde. Locais sagrados são aqueles em que trabalhamos, estudamos, produzimos, conversamos, amamos. Se esses lugares não forem sagrados, dificilmente o serão os templos e os sítios históricos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sagrada é a vida que vale a pena, que não compactua com o destrutivo, que não se contenta com o mínimo, que busca o excelente, que distribui compaixão, afeto livre, amor verdadeiro. Lugar sagrado é o próprio corpo, que merece cuidado; é a mente, que precisa do conhecimento; é a emoção, que precisa do belo. Lugar sagrado é o espaço ao nosso redor, que conquistamos com nossa própria energia, e que será tão maior quanto for nossa intensidade de viver. E Stonehenge é sagrado, sim, porque me ajudou a perceber tudo isso.</p>
<p style="text-align: left;"><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>As mágoas vão rolar</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Feb 2010 02:22:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A não ser que você seja um anjo imaculado e habite uma dimensão celestial, longe das imperfeições e das mazelas humanas, você já teve que perdoar alguém e também já precisou ser perdoado. Eu diria que é improvável cruzar a vida sem prejudicar e ser prejudicado, magoar e ser magoado, decepcionar e ser decepcionado. Com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A não ser que você seja um anjo imaculado e habite uma dimensão celestial, longe das imperfeições e das mazelas humanas, você já teve que perdoar alguém e também já precisou ser perdoado.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu diria que é improvável cruzar a vida sem prejudicar e ser prejudicado, magoar e ser magoado, decepcionar e ser decepcionado. Com ou sem intenção, nas relações humanas, esses verbos malquistos algum dia acabam sendo conjugados. E, nesses casos, o substantivo perdão tem de ser chamado a compor o texto, senão a vida não completa sua sintaxe.</p>
<p style="text-align: justify;">O perdão é, sim, um importante meio de obter paz de espírito, ainda que não seja o único. Mas, como todos os outros recursos que pavimentam o caminho que leva ao estado de graça interior que, por sua vez permite ao humano usufruir da tranquilidade de conviver consigo mesmo, o perdão verdadeiro é difícil de ser praticado.</p>
<p style="text-align: justify;">Perdoar é o ato de libertar o outro da culpa, mas é mais que isso. Em sua função libertária, o perdão liberta quem o pratica. É um ato de grandeza de espírito, que representa, acima de tudo, uma doação.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>For-give, vor-geben, per-dón</em>, perdão. Praticamente em todos os idiomas a palavra perdoar obedece a sua origem do latim vulgar perdonare, que é formada pela junção do prefixo per (através de) com a palavra <em>donare</em>, que representa o ato de doar ou, melhor ainda, dar-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Através do perdão a pessoa doa o que há de melhor em si mesma – a compreensão, a compaixão e a esperança. Você me ofendeu e me magoou, e eu compreendo que você falhou porque é humano, compadeço-me por seu arrependimento e tenho a esperança de que tal não se repetirá. Por isso o perdoo. Simples e belo. Mas&#8230; sempre possível? Essa é a verdadeira questão existencial do perdão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #993300;">Qual o melhor caminho para compreender o perdão? </span></strong></p>
<p style="text-align: justify;">“Errar é humano, perdoar é divino”, diz o ditado. Mas ele está um pouco ultrapassado. Há tempos que o conceito de perdão abandonou o céu angelical para vagar em terra mundana. O principal motivo é que sem ele a vida em comunidade não seria possível, pois cada ofensa geraria uma inimizade. O perdão não é apenas uma atitude, é uma qualidade necessária à elevação dos espíritos, como demonstram várias áreas do pensamento humano que já se debruçaram sobre ele, como a filosofia, a psicologia e a religião.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Bíblia o perdão é tema recorrente. No Velho Testamento, em Levítico (16:29-31), encontramos que Moisés institui um dia dedicado à purificação dos pecados. Considerado como um “estatuto perpétuo”, tal data é respeitada pelos judeus, que a chamam de Yom Kippur – o dia do perdão. A importante ocasião ocorre logo após o Rosh Hashanah – o ano-novo judeu. Pedagógica correlação, pois esclarece que não se deve iniciar um novo ciclo sem perdoar e obter perdão.</p>
<p style="text-align: justify;">Moisés havia subido o monte Sinai para ter um encontro com o Divino, de quem recebeu as tábuas com os Dez Mandamentos. Ao descer, a decepção. Encontrou os hebreus adorando uma imagem, uma estátua de bezerro, ignorando seus conselhos de que só devemos adorar a Deus. Em sua revolta, atirou as tábuas ao chão, quebrando-as, e não lhe restou saída senão voltar à montanha e pedir novas tábuas a Deus, implorando-lhe, também, o perdão. Ele então instituiu aquele dia para marcar o perdão concedido pelo Senhor à iniquidade de seu povo e a sua própria ira.</p>
<p style="text-align: justify;">As orações e o jejum praticados no dia do perdão, além do compromisso de o ofensor não mais cometer as transgressões novamente, são alguns dos passos seguidos por aquele que quer limpar suas mágoas para começar purificado o novo ano.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi nesse dia, em que a noção de perdão foi pela primeira vez esboçada como um importante valor humano, e também foi ali, dentro dessas mesmas raízes judaicas, que o cristianismo brotou.</p>
<p style="text-align: justify;">O Pai-nosso, a oração mais importante entre os cristãos – que teria sido ensinada pelo próprio Cristo –, considera o perdão uma forma de estabelecer uma relação com Deus e com os homens. “Perdoai nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tenha ofendido”, diz uma passagem, antes de pedir força para evitar as tentações e proteção contra os infortúnios da vida. Sim, o perdão precede o poder e a segurança.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #993300;">Por que o perdão faz bem a quem perdoa e beneficia quem é perdoado? </span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong></strong>Entre os filósofos, o perdão também é tema ancestral. Foi, só para ilustrar, assunto de simpósios, os encontros em que, entre um gole e outro de vinho, os antigos gregos se punham a discutir as grandes questões que inquietam o espírito humano, como a morte, a coragem e o amor. “Só quem tem a capacidade de perdoar conquista o direito de julgar”, disse Sócrates num desses momentos de sabedoria e embriaguez em que a civilização ocidental foi gestada.</p>
<p style="text-align: justify;">Contemporâneo de Cristo, o romano Sêneca introduziu o perdão na esfera do estado. Em sua obra, Tratado sobre a Clemência, o tutor de Nero apresentou a arte de perdoar como a principal arma para o governante lidar com a justiça e firmar-se como estadista. Segundo o filósofo, praticar atos clementes seria exercitar a temperança do gênio, a tranquilidade do espírito e a virtude do erudito. O perdão real possibilitaria a coesão do estado na sociedade, atendendo às diferentes vontades das classes, ao mesmo tempo que serviria como excelente instrumento jurídico, permitindo a aplicação da pretensa justiça com moderação. Apesar disso, ele mesmo foi vítima da falta de perdão. Desconfiado de sua traição, Nero o condenou à morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de muitos séculos e de muitas reflexões e textos sobre o assunto, a filósofa alemã Hannah Arendt, que migrou para os Estados Unidos com a ascensão do nazismo, escreveu, em seu livro <em>A Condição Humana</em>, que o perdão é uma resposta libertária: “[o perdão] é a única forma de reação que não ‘re-age’ apenas, mas age de novo e inesperadamente, sem ser condicionada pelo ato que provocou e de cujas consequências liberta tanto quem perdoa quanto o que é perdoado [...] é a liberação dos grilhões da vingança”.</p>
<p style="text-align: justify;">Com essas palavras ela faz uma conexão com a psicologia, que busca a qualidade do pensamento e a calma das emoções, e diz que perdoar faz bem porque livra a pessoa das amarras do ódio e da injustiça. Perdoar beneficia quem é perdoado, mas favorece principalmente quem perdoa. Acontece que perdoar é uma atitude, mas primeiro é um sentimento. Antes de perdoar com as palavras, é necessário perdoar com a mente e com o coração, senão o efeito não é o mesmo, fica pela metade, vira falsidade. É preciso coragem para perdoar de verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">É de autoria de Freud o notável texto “Repetição, lembrança, translaboração”. Nele, o pai da psicanálise propõe que o inconsciente, que aprisiona a pessoa no passado e não permite que ela conviva em harmonia com o presente nem consiga ver esperança no futuro, seja examinado com coragem e grandeza suficiente para produzir o mais importante dos perdões: o perdão a si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="color: #993300;"><strong>E quando a pessoa não merece perdão?</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;">A verdadeira questão filosófica do perdão é a opção de aplicá-lo. Mais importante que perdoar é decidir perdoar com convicção, o que implica visitar os princípios da justiça.</p>
<p style="text-align: justify;">No casamento de sua filha, meu amigo José Ernesto protagonizou um dos mais comoventes momentos que eu já tive a oportunidade de presenciar. Ao dizer aos noivos o que ele lhes desejava, aconselhou: “Sempre que possível escolham o perdão. Sempre que necessário escolham a justiça”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em duas frases ele sintetizou a essência das relações humanas que valem a pena. As relações devem ser dotadas de valores, não apenas de objetivos comuns. Quando as pessoas se juntam apenas por motivos utilitários, remetem sua relação à época dura das cavernas, em que tudo era permitido em nome da sobrevivência. Casamentos, amizades, empresas, agremiações políticas – qualquer tipo de encontro entre pessoas tem um objetivo que as mantenha unidas, mas, se for apenas isso a uni-las – objetivos, metas, destinos –, pessoas não serão pessoas, mas meros componentes de uma engrenagem mecânica. Ao humano, competências conferem utilidade, valores providenciam dignidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há vida digna sem justiça, e o perdão é parte dela. Parte. Perdão não é justiça. Perdão é decorrente da justiça. E praticar justiça remete a pessoa à tarefa de julgar, provavelmente a mais ingrata das missões humanas, pois significa entender os motivos de quem fez o que fez, considerar os efeitos do que foi feito e decidir sobre a pena justa e conveniente, que pode ser, entre outras, o perdão.</p>
<p style="text-align: justify;">É possível perdoar o assassino frio, o estuprador impiedoso, o corrupto contumaz? É justo perdoar o juiz da Inquisição, o patrocinador do Holocausto, o instaurador do <em>Apartheid</em>? Ora, sem considerar a justiça, o perdão é obsceno; sem contemplar o perdão, a justiça é malévola; afinal, a justiça é uma necessidade, o perdão, uma possibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda assim, mesmo considerando que seja pesado julgar, difícil ponderar os fatos envolvidos, doloroso relevar mágoas, impossível esquecer ofensas, o ato de perdoar é grande, digno e belo. Até porque, ao julgar alguém, é conveniente fazer algum julgamento de si mesmo, para, ao perdoar o outro, guardar para uso próprio um pouco do perdão. Porque você, eu, qualquer um, se viveu uma vida, precisará ser perdoado por não tê-la aproveitado melhor.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: <a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank">www.revistavidasimples.com.br</a></em></p>
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		<title>Generosidade</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Feb 2010 03:21:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
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		<description><![CDATA[Qual a importância da generosidade num mundo cada vez mais individualista?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há muitas histórias de famílias que encontraram escritos em velhos baús que só foram abertos após a morte de seus pais ou avós. No filme As Pontes de Madison, os filhos descobrem a grande história de amor vivida por sua mãe, e que não contava com a participação do pai. Tal história durou apenas alguns dias, mas tinha justificado a existência daquela mulher, representada pela Meryl Streep, a dona de casa interiorana que se apaixona pelo fotógrafo vivido por Clint Eastwood. Eles, contrariando a torcida da plateia, não ficam juntos, porque ela decide não magoar sua família, sufoca seu amor e passa a viver alimentada apenas pela lembrança muda daquela história romântica.</p>
<p>Coisa parecida aconteceu com minha amiga Ruth, que com sua mãe assumiu a tarefa de dar destino aos pertences da avó após sua morte. E foi em uma caixinha de madeira que elas encontraram um caderno com anotações sobre suas atividades, um registro de como ela ocupava seu dia.</p>
<p>As duas ficaram sabendo que as tardes em que a avó dizia dirigir-se a um centro de terceira idade para se divertir, na verdade, eram ocupadas por um trabalho voluntário em um asilo para idosos, alguns mais jovens que ela, mas com menos saúde e mais tristeza. Ela registrava fatos, incluindo os momentos alegres, como as festas que comemoravam datas ou apenas &#8220;celebravam a vida&#8221;, para usar suas palavras, e também os tristes, como as mortes frequentes e as crises próprias da sensação de abandono.</p>
<p>Entre os escritos, um depoimento as tocou profundamente, aqui reproduzido: &#8220;Eu me doo porque me perdoo. Quando era jovem e tola, eu queria tudo para mim, achava que o mundo era meu e que eu podia usufruir dele sem pedir nem agradecer. Agora, que sou muito mais velha e um pouco mais sábia, entendi que nada me pertence de verdade, nem a vida, que passa em um instante, nem meus filhos, que apenas vieram através de mim, e muito menos as coisas, que são apenas matéria, e continuarão sendo, mesmo quando eu deixar de ser. Depois de uma vida dedicada às tolices, decidi perdoar-me por ser tola e dar-me a chance de ser generosa, assim eu terei a única coisa que pode me pertencer: minha própria paz&#8221;.</p>
<p>A descoberta e o texto mexeram profundamente com os sentimentos da filha e da neta. Não era para menos. Elas começaram, então, a lembrar os detalhes da vida da avó, que realmente havia mudado de um comportamento superficial e mundano para outro, mas profundo e espiritualizado, ao longo dos anos, especialmente após ter enviuvado. Ela havia sido uma mulher rica que não conhecera o sofrimento da escassez ou do desamor. Mas, quando amadureceu, fez uma escolha que definiu como sendo a troca da &#8220;tolice pela generosidade&#8221;.</p>
<p>Caminho para a paz</p>
<p>A avó de minha amiga criou, sem querer, o que talvez seja a melhor definição de generosidade que já vi, pois a coloca como o caminho para a paz, e que considera o tolo como sendo o contrário do generoso. O dicionário diz que generosidade é a disposição de dar, de atender, de se preocupar com o bem-estar do outro. Está certo, sem dúvida, mas a velha senhora foi além, mostrou a face de paz dos generosos e o lado tolo dos egoístas.</p>
<p>Desde sempre, mas principalmente depois que comecei a escrever, tenho me dedicado a observar comportamentos. Pessoas, famílias, empresas, todas são entidades comportamentais que revelam seu caráter através do que fazem e, mais importante, de como fazem o que fazem. Acabei por criar, para meu próprio uso, a ideia de que nosso planeta não é composto por apenas um mundo, mas por vários, que compartilham o mesmo espaço, em diferentes dimensões.</p>
<p>Gosto, por exemplo, de usar as expressões &#8220;mundo do mais&#8221; e &#8220;mundo do menos&#8221; para diferenciar as pessoas, não por sua raça ou posição social nem por sua cultura ou seu dinheiro, e sim por sua generosidade, ou falta dela, claro.</p>
<p>O mundo do mais é o mundo que tem uma propriedade que dignifica o ser humano, e essa é, exatamente, a marca da generosidade, do compartilhamento, da disponibilidade. O mundo do menos é mesquinho, isolacionista, egoísta. Conheço pessoas do mundo do mais e do mundo do menos em todas as classes e profissões, e elas são facilmente reconhecíveis &#8211; não pelo figurino, pois a roupa não significa nada.</p>
<p>Pessoas generosas costumam ter uma expressão mais leve, sempre pronta para demonstrar ao outro sua disponibilidade. Certamente você conhece pessoas disponíveis e pessoas não disponíveis. Se você estiver em dificuldade, em qualquer lugar, a qualquer hora, você sabe com quem pode contar? Pense um pouco. Certamente você fará uma lista mental das pessoas que não hesitariam em largar o que estão fazendo para socorrer um amigo e das que é melhor nem pensar em chamar, pois além da frustração irão provocar mal-estar.</p>
<p>Ser generoso é estar disponível. Ter disposição para dar de si para quem não tem e está precisando mais do que ele. O generoso não compartilha o que está sobrando, reparte o que tem, sua melhor parte. Tira de si para dar ao outro, e por isso às vezes é acusado de ser bobo ou imprevidente. Mas não é, acredite. Ele age assim porque é de sua natureza.</p>
<p>Um instinto da alma</p>
<p>Sim, somos controlados por nossos instintos. São eles que nos mantêm vivos, providenciam reação de defesa, proteção, sobrevivência. Afinal, somos animais também, e herdamos instintos de nossos ancestrais, sem os quais eles não teriam resistido às dificuldades de sua época e nós não estaríamos aqui. Os instintos são fortíssimos e definem a natureza de todas as espécies.</p>
<p>É famosa a história do escorpião que pede ajuda a um sapo para atravessar um lago. O sapo, desconfiado, pergunta: &#8220;Mas você não vai me picar as costas?&#8221; O escorpião pondera: &#8220;Claro que não, pois se eu picar você também morrerei afogado&#8221;. Movido pela lógica do argumento, o sapo resolve ajudar o outro. Bem no meio da travessia, contudo, sente a ferroada do peçonhento carona e, surpreso, ouve a nova explicação, igualmente lógica: &#8220;Desculpe, sapo, mas não consegui controlar minha natureza, afinal eu sou um escorpião&#8221;. Assim é o instinto. Serve para garantir a vida do indivíduo, e não considera, nem por um instante, o bem-estar do outro. Instintos são necessários, claro, mas nós evoluímos. Humanos têm consciência, e isso nos torna diferentes de um escorpião ou de um sapo. Humanos são coletivos, se aglutinaram pela necessidade de sobrevivência, e isso foi facilitado por sua capacidade de amar, respeitar, acolher, proteger seu semelhante. Tudo bem, os animais são movidos pelos instintos, mas eventualmente identificamos traços de generosidade também neles. Cães abrem mão de sua segurança para acudir o dono em perigo. Quando chego em casa, a Preta, minha adorâvel cachorrinha shi-tzu, corre para buscar um brinquedo que quer compartilhar comigo, como símbolo de sua fidelidade.</p>
<p>Se a fome e o medo são instintos do corpo, a generosidade é um instinto da alma. É através dela que providenciamos a sobrevivência do que há de mais belo em nossa natureza humana: a dignidade. Mas somos uma espécie nova, em pleno processo de evolução, por isso precisamos fazer correções de rumo.</p>
<p>Por ter percepção do tempo, o ser humano preocupa-se com o futuro e insiste em acumular. Estoca comida, guarda coisas, economiza dinheiro, sonega até afeto, como se este fosse fazer falta mais tarde. Prevenir o amanhã está certo, mas depende do grau, pois haverá um momento em que a virtude da previsão começa a transformar-se no pecado da avareza. O instinto físico da sobrevivência precisa ser equilibrado com o instinto maior da generosidade, pois este vai além do individual, abrange o coletivo, potencializa ainda mais a sobrevivência &#8211; não apenas do corpo, mas também da alma.</p>
<p>Pessoas generosas fazem bem ao planeta, pois têm a consciência holística, de que tudo está ligado a tudo e que todas nossas ações repercutem no mundo, nas pessoas e em nós mesmos. Pessoas generosas são altamente necessárias ao equilíbrio da natureza e da humanidade. As pessoas generosas seguram o pau da barraca da humanidade, que abriga inclusive aquelas que tentam atear fogo na lona.</p>
<p>Em companhia do físico e escritor Fritjof Capra visitei, em Berkeley, uma escola que trabalha com o conceito da sustentabilidade, uma ideia que representa a generosidade com o planeta. Foi quando vi uma menina carregando um balde de cascas de legumes em direção a um lugar de compostagem, onde restos de comida são transformados em adubo. Perguntei por que ela estava fazendo aquilo, esperando uma resposta mecânica. Entretanto, ela me brindou com um quase poema, dizendo: &#8220;Estou levando comida para a Terra&#8221;. Generosidade explícita.</p>
<p>Viver ao lado de pessoas generosas é muito bom. Aumenta não só a sensação de segurança, mas também o sentimento de solidariedade, de amorosidade e de alegria. Eu tenho a sorte de conviver com pessoas generosas. Tenho uma companheira generosa, colegas de trabalho generosos, amigos generosos. Acredito que os diferentes se atraem, mas só nas leis físicas. Nas leis mentais os iguais se atraem, assim, os egoístas também formam seus clubinhos, que podem ser casamentos, empresas, grupos políticos.</p>
<p>Minha grande amiga Regina costuma separar as pessoas em dois tipos: &#8220;pessoas-pão&#8221; e &#8220;pessoas-boca&#8221;. Ela diz que as pessoas-pão têm prazer em alimentar, em doar-se, são generosas e cuidadosas com os outros e com o planeta, e habitam, com certeza, o mundo do mais. E que as pessoas-boca querem apenas ser alimentadas, existem só para receber e pronto, não querem saber o que podem fazer pelo mundo, mas o que o mundo pode fazer por elas. Perigoso, esse pensamento. Ainda bem que a humanidade conta com uma rede de proteção, que se chama generosidade.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
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		<title>Perdon</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jan 2010 22:34:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artículos en Español]]></category>
		<category><![CDATA[ofensa]]></category>
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		<category><![CDATA[perdón]]></category>

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		<description><![CDATA[¿Cómo manejar la ofensa y el perdón? ¿Perdonar a quien nos hizo daño es el mejor camino para la paz interior? Salvo que seas un ángel inmaculado y habites una dimensión celestial, distante de las imperfecciones y de las ambigüedades humanas, ya tuviste que perdonar a alguien y ya fuiste perdonado. Yo diría que es [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><span style="color: #888888;">¿Cómo manejar la ofensa y el perdón? ¿Perdonar a quien nos hizo daño es el mejor camino para la paz interior?</span></em><br />
Salvo que seas un ángel inmaculado y habites una dimensión celestial, distante de las imperfecciones y de las ambigüedades humanas, ya tuviste que perdonar a alguien y ya fuiste perdonado.<br />
Yo diría que es improbable pasar por la vida sin perjudicar y ser perjudicado, lastimar y ser lastimado, decepcionar y ser decepcionado. Con o sin intención, en las relaciones humanas, estos malqueridos verbos terminan por ser conjugados algún día. Y, en estos casos, el sustantivo perdón debe de ser llamado a componer el texto, o la vida no completará su sintaxis.<br />
Aunque no sea el único, el perdón es un importante medio de obtener la paz de espíritu. Pero, como todos los demás recursos que forman el camino que nos conduce al estado de gracia interior, que permite al ser humano gozar la tranquilidad de convivir consigo mismo, el verdadero perdón es difícil de ser practicado.<br />
Perdonar es el acto de liberar al otro de la culpa, y más que eso. En su función libertaria, el perdón libera a quien lo practica. Es un acto de grandeza de espíritu, que representa, sobre todo, una donación.<br />
For-give, ver-geben, per-dón, per-dón. Prácticamente en todos los idiomas la palabra perdonar obedece su origen del latín vulgar “perdonare”, compuesta por la unión del prefijo “per” (a través de) y la palabra “donare”, que representa el acto de donar o, más que eso, donarse.<br />
Con el perdón la persona dona lo que tiene de mejor – la comprensión, la compasión y la esperanza. Me ofendiste, me lastimaste, comprendo que fallaste porque eres humano, me compadezco de tu arrepentimiento y tengo la esperanza de que no vuelva a repetirse. Por eso te perdono. Hermoso y sencillo. Pero… ¿posible? Esta es la verdadera cuestión existencial del perdón.<br />
¿Cuál el mejor camino para comprender el perdón?<br />
“Errar es humano, perdonar es divino”, dice el refrán ya un poco superado. Hace ya mucho tiempo que el concepto de perdón abandonó el cielo angelical para andar por tierras mundanas. El motivo principal es que sin él la vida en comunidad no sería posible, pues cada ofensa generaría una enemistad. El perdón no es solamente una actitud, es un atributo necesario para la elevación del espíritu, como lo demuestran varias áreas del pensamiento humano que se dedican al tema, como la filosofía, la psicología y la religión.<br />
Perdonar nos hace sentir bien porque nos libera de las ataduras del odio y de la injusticia<br />
En la Biblia el perdón es tema constante. En el Antiguo Testamento, Levítico (16:29-31), vemos como Moisés instituye un día dedicado a la purificación de los pecados. Considerado “estatuto perpetuo”, esta fecha es respetada por los judíos, que la denominan Yom Kippur – el día del perdón. Esta importante ocasión ocurre después del Rosh Hashanah – el año nuevo judaico. Pedagógica correlación, una vez que impone que no se debe iniciar un nuevo ciclo sin perdonar y obtener el perdón.<br />
Moisés había subido al Monte Sinaí para encontrarse con el Divino, de quien recibió las tablas con los Diez Mandamientos. Al bajar, la decepción. Encontró los hebreos adorando una imagen, la estatua de un ternero, ignorando sus consejos de que sólo deberían adorar a Dios. En su indignación, tiró las tablas al suelo, rompiéndolas, y no le restó otra opción que volver a la montaña y pedir nuevas tablas a Dios, implorándole, también, Su perdón. Moisés instituye entonces aquel día para marcar el perdón concedido por el Señor a la iniquidad de su pueblo y de su propia ira.<br />
Las oraciones y el ayuno practicados en el día del perdón, además del compromiso del ofensor de no cometer nuevamente las transgresiones, son algunos de los pasos seguidos por aquel que quiere limpiar sus ofensas para empezar un nuevo año purificado.<br />
En este día, la noción de perdón fue presentada como importante valor humano. También fue en este momento, dentro de estas mismas raíces judaicas, que nació el cristianismo.<br />
El Padre-nuestro, la oración más importante entre los cristianos – que habría sido enseñada por el propio Cristo &#8211; considera el perdón como un medio de establecer una relación con Dios y con los hombres. “Perdona nuestras ofensas, como también nosotros perdonamos a los que nos ofenden”, se dice, antes de pedir fuerza para evitar las tentaciones y la protección contra los infortunios de la vida. De hecho, el perdón precede el poder y la seguridad.<br />
¿Por qué el perdón es bueno para quien perdona y beneficia a quien es perdonado?<br />
El perdón también es un tema ancestral entre los filósofos. Fue, y lo decimos a modo de ilustración, tema de simposios, los encuentros en que, entre un trago y otro de vino, los griegos antiguos discutían las grandes cuestiones que inquietan al espíritu humano, como la muerte, el valor y el amor. “Sólo el que tiene la capacidad de perdonar conquista el derecho de juzgar”, dice Sócrates en uno de esos momentos de sabiduría y embriaguez en que la civilización occidental fue gestada.<br />
Contemporáneo de Cristo, el romano Séneca introdujo el perdón en la esfera del Estado. En su obra, Sobre la Clemencia, el tutor de Nerón presenta el arte de perdonar como la principal arma para que el gobernante actúe con justicia y se firme como estadista. Según el filósofo, practicar actos clementes sería ejercitar la templanza del genio, la tranquilidad del espíritu y la virtud del erudito. El verdadero perdón posibilitaría la cohesión del estado en la sociedad, atendiendo a las diferentes necesidades de las clases, al mismo tiempo que serviría como excelente instrumento jurídico, permitiendo la moderada aplicación de la justicia pretendida. Pese a sus pensamientos, Séneca fue víctima de la falta de perdón. Desconfiado de su traición, Nerón le condenó a muerte.<br />
Tras muchos ciclos y muchas reflexiones sobre el tema, la filósofa alemana Hannah Arendt que emigró a los Estados Unidos con la ascensión del nazismo, escribió, en su libro  La condición humana, que el perdón es una respuesta libertaria: “[el perdón] es el único modo de reacción que no ´re-acciona´ simplemente, sino que acciona de nuevo e inesperadamente, sin ser condicionado por el acto que lo provocó y de cuyas consecuencias libera tanto quien perdona como quien es perdonado […] es la liberación de las cadenas de la venganza”.<br />
Con estas palabras Arendt realiza una conexión con la psicología, que busca la calidad del pensamiento y la calma de las emociones, y dice que perdonar es bueno porque libera a la persona de las ataduras del odio y de la injusticia. Perdonar beneficia a quien es perdonado, y favorece principalmente a quien perdona. Sucede que perdonar es una actitud, pero antes, un sentimiento. Antes de perdonar con palabras, es necesario perdonar con la mente y con el corazón, sino el efecto no es el mismo, permanece por la mitad, es falsedad. Para perdonar verdaderamente es necesario valor.<br />
Freud, el padre del psicoanálisis, en su notable texto “Repetición, recuerdo, translaboración”, propone que el inconsciente, que aprisiona la persona en el pasado y no permite que conviva en armonía con el presente ni logre ver esperanza en el futuro, sea examinado con valor y grandeza suficientes para producir el más importante de los perdones: el perdón a sí mismo.<br />
¿Y cuando la persona no merece perdón?<br />
La verdadera cuestión filosófica del perdón es la opción de aplicarlo. Más importante que perdonar es decidir perdonar con convicción, lo que implica visitar los principios de la justicia.<br />
En las bodas de su hija, mi amigo José Ernesto protagonizó uno de los momentos más conmovedores que he tenido la oportunidad de presenciar. Al decir a los novios lo que les deseaba, aconsejó: “Siempre que sea posible, elijan el perdón. Siempre que necesario, elijan la justicia”.<br />
En estas dos frases sintetizó la esencia de las relaciones humanas que valen la pena. Las relaciones deben estar dotadas de valores, no sólo de objetivos comunes. Cuando las personas se unen exclusivamente por motivos prácticos, remiten su relación a la época de las cavernas, en la que, en nombre de la supervivencia, todo era permitido. Matrimonios, amistades, empresas, partidos políticos – cualquier reunión entre personas tiene un objetivo común que las mantiene unidas, pero, si esto es lo único que las une – objetivos, metas, destinos -, personas no serán personas, sino meros componentes de un engranaje mecánico. Al humano, aptitudes le confieren utilidad, valores le dan dignidad.<br />
No hay una vida digna sin justicia, y el perdón forma parte de ella.  Forma parte. Perdón no significa justicia. Perdón es derivado de la justicia. Y practicar justicia remite la persona a la tarea de juzgar, probablemente la más difícil de las misiones humanas, una vez que significa entender los motivos de quien hizo lo que hizo, considerar los efectos de su actitud y decidir sobre la pena justa y conveniente, que puede ser, entre otras, el perdón.<br />
¿Es posible perdonar al asesino frío, al violador impiadoso, al corrupto contumaz? ¿Es justo perdonar el juez de la Inquisición, los creadores del Holocausto, los iniciadores del Apartheid? Sin considerar la justicia, el perdón es obsceno; sin contemplar el perdón, la justicia es malévola; al fin y al cabo, la justicia es una necesidad, el perdón, una posibilidad.<br />
Aún así, aunque considerando que es duro juzgar, difícil ponderar los hechos, doloroso relevar las lastimas, imposible olvidar las ofensas, el acto de perdonar es grande, digno y bello. Incluso porque, al juzgar a alguien, es conveniente hacer un juzgamiento de sí mismo, para, al perdonar el otro, guardar para uso propio un poco del perdón. Porque tú, yo, cualquiera, si vivió una vida, necesitará ser perdonado por no haberla vivido mejor.</p>
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