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	<title>Sapiens Sapiens &#187; mulher</title>
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		<title>Uma experiência sensual</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Aug 2011 16:11:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
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		<description><![CDATA[Vivemos uma era em que a sensualidade é muito valorizada. E isso não significa sexualidade nem tampouco vulgaridade]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Saí da Universidade Federal Fluminense (RJ), após uma palestra com um objetivo: visitar o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. “Nada mais fácil” – disse meu gentil anfitrião.</p>
<p style="text-align: justify;">E lá fomos nós em direção ao Mirante da Boa Viagem, aproveitando a maravilhosa visão que se tem da orla que hoje é chamada de Caminho Niemeyer. Estamos na boca da Baía da Guanabara, uma posição privilegiada voltada para a cidade do Rio de Janeiro, que se exibe faceira com seu relevo fantástico, em que o Pão de Açúcar é a peça de resistência. Aviões mergulham em direção ao mar encontrando o aeroporto Santos Dumont.</p>
<p style="text-align: justify;">E eis que de repente surge à nossa frente aquela obra futurista, um imprevisível disco de concreto que parece flutuar sobre o promontório como se estivesse se preparando para decolar em direção a seu planeta de origem: o incrível cérebro criativo de Oscar Niemeyer. Seu acervo é formado por arte do século 20, e o prédio é, sem dúvida, sua obra mais vistosa. Consta que o arquiteto percebeu que aquela paisagem pedia um prédio assim, e ele o viu imediatamente. Bastou acrescentar uma rampa e o projeto estava pronto.</p>
<p style="text-align: justify;">Se pudéssemos definir o MAC Nit, como é carinhosamente chamado, poderíamos utilizar vários adjetivos, como futurista, surpreendente, arrojado e, sem dúvida, poderíamos conceder a ele a qualidade de ser sensual, uma marca persistente na obra do arquiteto centenário que projetou. Sobre seu estilo, disse Niemeyer:</p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Não é o </em><em>ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o arquiteto define sua obra como sensual, ele quer dizer que deseja que ela agrade aos sentidos, que a beleza das curvas é, naturalmente, mais confortável à observação humana, que o belo atrai, conforta e enleva a alma. A sensualidade da forma é necessária. A obra que parece ter saído de um sonho nos ajuda a viver, pois precisamos do sonho para enfrentar a realidade.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sexo e Sensualidade</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não devemos, então, classificar de sensual algo que não tem uma conotação sexual? O concreto curvo de Niemeyer nos inspira a pensar e a ousar. A sensualidade que ele denota é o que buscamos para completar nossa capacidade de criar e de crescer. Sensualidade é vida, mas não necessariamente sexo.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, quando ouvimos falar em sensualidade, a maioria de nós pensa em sexo, acreditando um ser sinônimo do outro. Não é correto, ainda que haja alguma verdade nesse pensamento, pois a sensualidade certamente pode ser considerada como um ingrediente essencial para uma experiência sexual mais rica. No entanto, enquanto sensualidade parece ser parte essencial do sexo bom, a sexualidade não representa a única esfera da expressão sensual. Sensualidade é muito mais abrangente. Ela começa com a consciência e abarca todos os nossos sentidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ter um <em>approach</em> mais sensual nos leva a ter uma vida mais satisfatória e plena. Se você conseguir canalizar adequadamente seu estado mental, você poderá tornar qualquer experiência em uma experiência sensual. Comer um chocolate, apreciar uma refeição, meditar ou observar a sua própria respiração ou a de alguém. Dançar, sentir o cheiro de flores, olhar para o rosto da pessoa amada. Qualquer coisa!</p>
<p style="text-align: justify;">A sensualidade envolve uso dos sentidos, mas vai além, pois quando você traz a experiência para o nível da consciência e da intuição, aquele momento transcende a sensação. Sensualidade é uma forma de permitir que a paixão e a reverência entrem em sua vida – uma vida que passa a ser mais gratificante e apreciada, até mesmo nos momentos mais difíceis.</p>
<p style="text-align: justify;">O escritor americano James A. Baldwin disse que “<em>ser sensual é respeitar e exultar a força da vida, da vida por si só, e estar presente em tudo o que se faz, desde o esforço do amor até a feitura do pão</em>”. E ele tinha razão, a sensualidade representa e enaltece a força da vida e todas suas dimensões. Há poemas sensuais, músicas sensuais, sorrisos, flores, e animais sensuais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sedução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto sensualidade é a qualidade de agradar aos sentidos, sedução poderia ser definida como a capacidade de atrair, encantar, fascinar o outro com o intuito de alcançar determinados objetivos. Visto desta forma, a sedução faz parte das relações de todos os tipos. Não é só o garoto que deseja seduzir a menina por quem ele está encantado. As pessoas em geral, todos nós, sem exceção, buscamos seduzir nossos interlocutores para que a haja melhoria na convivência e na qualidade de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma, quando produzimos algo, buscamos seduzir. A propaganda utiliza-se da sedução para induzir ao consumo. Os poetas e escritores querem seduzir os seus leitores para que estes não queiram largar seus livros. Os arquitetos, como o “rei das curvas” Niemeyer, buscam projetar prédios que tragam específicas sensações e transformem-se em objetos de desejo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas ciências sociais, sedução é o processo de incitar deliberadamente uma pessoa para atraí-la. A palavra sedução vem do latim e literalmente significa “afastar alguém dos seus votos, da sua lealdade”. Assim, concluímos que o termo possui uma conotação positiva, mas pode ter outra, negativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando vista pelo aspecto negativo, a sedução envolve tentação, normalmente de natureza sexual, para desviar alguém a uma escolha de comportamento que ela não teria não fosse tal estado de evocação sexual. Já vista pelo lado positivo, a sedução é sinônimo para o ato de encantar alguém através do apelo aos sentidos, com o objetivo de reduzir medos infundados.</p>
<p style="text-align: justify;">A moralidade da sedução depende dos impactos que a mesma apresenta sobre os indivíduos envolvidos em longo prazo, e não no ato por si só. A sedução é um assunto recorrente na história e na ficção, como alerta para as conseqüências sociais que o comportamento de seduzir e ser seduzido apresenta, pois se trata de uma poderosa habilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Na B<em>íblia</em>, Eva seduziu Adão oferecendo-lhe o fruto proibido. Eva, por sua vez, fora seduzida verbalmente pela serpente, reconhecida pela cristandade como o demônio. As sereias, na mitologia grega, encantavam os marinheiros e os levavam para a morte. Cleópatra cativou Júlio César e Marco Antônio. A rainha persa Scheherazade se livrou da morte ao contar histórias sensuais. Sem esquecer o lendário libertino Don Juan, cuja história foi contada por diversos autores.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, a sedução é uma alavanca poderosa que usa a sensualidade como seu forte ponto de apoio. Não é boa nem má, essa alavanca. Depende apenas de que objeto está sendo deslocado por ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas cuidado com a linha que separa o sensual do vulgar. Essa linha existe, e é tênue. Com freqüência é ultrapassada e, quando acontece, a mistura desanda totalmente. A vulgaridade é a tentativa de transformar a sensualidade no sujeito e não no predicativo.</p>
<p style="text-align: justify;">Com freqüência associada à imagem feminina, a sensualidade passou a ser explorada como um objeto que pode ter valor comercial. Não creio, sinceramente, que haja muitas distorções de valor maiores do que essa. O vulgar ofende, agride, enfeia. O vulgar não é belo, é desprovido de sensualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A mulher moderna é sensual. Tem sido vista como aquela que conduz sua vida dentro dos parâmetros da estética maior, que tem a sensualidade como uma aliada. A sensual não se expõe, não se oferece, apenas é. A mulher moderna não está esperando ser salva por um príncipe encantado; dispensa, com certo desprezo, o complexo de Cinderela.</p>
<p style="text-align: justify;">A sensualidade da mulher moderna está em sua postura, não nos pedaços expostos de seu corpo; está na convicção sobre seu direito à integridade, ao respeito, à oportunidade. Há sensualidade na firmeza de uma mulher, porque, diferente da atitude masculina, ela é suave, não ofende.    </p>
<p style="text-align: justify;">Há o sensual, o sexual e o vulgar. Podem habitar o mesmo continente, mas são separados por barreiras geográficas bem demarcadas. A vulgaridade é burra, a sexualidade é necessária, a sensualidade é divina. Não confundir esses territórios faz com que nossos caminhos pela sejam trilhados com mais segurança e com muito mais alegria.</p>
<p style="text-align: justify;">Sensualidade é saúde, movimento suave, olhar plácido, sorriso sincero, palavra bem colocada. É o senso de beleza precisa, sem artifício, sem exagero, com cuidado, atenção. A sensualidade é a matéria prima do poeta, e há quem o seja sem nunca ter escrito um verso. Sim, pois ser poeta na vida é ter apreciado a beleza do amor, é ter cantado o canto da paixão, é ter explorado o caminho sensual de uma relação sobre a qual se pode dizer que foi inteira.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>A mulher perfeita</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Feb 2010 01:22:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pigmalião conheceu a mulher perfeita. As formas de seu corpo e a suavidade de sua face eram complementares e totalmente harmoniosas. Nenhuma curva era tão pronunciada que a tornasse exagerada, nem tão sutil que a fizesse despercebida. A pele era suave e deixava perceber a vibração de cada músculo que recobria, como se estivesse em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Pigmalião conheceu a mulher perfeita. As formas de seu corpo e a suavidade de sua face eram complementares e totalmente harmoniosas. Nenhuma curva era tão pronunciada que a tornasse exagerada, nem tão sutil que a fizesse despercebida. A pele era suave e deixava perceber a vibração de cada músculo que recobria, como se estivesse em um esforço para conter tanta vida.</p>
<p style="text-align: justify;">A mulher de Pigmalião não tinha defeitos. Ou melhor, quase não tinha. Havia um detalhe que o afastava da felicidade de usufruir de tal companhia: ela não era humana, era uma estátua. Ele mesmo a havia esculpido e acabou por apaixonar-se por aquele ser que possuía toda a perfeição que a arte pode criar.</p>
<p style="text-align: justify;">A estátua de Pigmalião, conhecido mito da história grega, reflete o comportamento humano de imaginar modelos ideais de vida e sofrer por não conseguir transformá-los em realidade. O problema é que esses modelos são emocionais e não são acompanhados pela lógica que seria necessária para lhes dar sustentação. Surge, então, o embate entre o ideal e o real. Entre o desejado e o possível.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a maioria das pessoas, esse <em>gap </em>é absorvido por uma estrutura de personalidade que sabe lidar com a frustração. Para outros, pode virar motivo de sofrimento, às vezes paralisante. Você já ouviu, decerto, que o ótimo é inimigo do bom. Que quem não se contenta em fazer certo, querendo sempre fazer perfeito, não consegue produzir pragmaticamente, que é melhor não tentar ser perfeito, tão exigente consigo mesmo, etc. etc.</p>
<p style="text-align: justify;">O que devemos fazer, então? Aceitar nossos limites e viver em um mundo realista, desprezando os ideais, limitando os sonhos e arquivando os projetos de quebra de paradigmas pessoais?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #800080;">A utopia da perfeição</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #800080;"><span style="color: #000000; font-weight: normal;">A resposta às perguntas acima é um retumbante não! Há saídas, como veremos. Sonhar é preciso. Mudar para melhor permanentemente é a única saída para escapar da mediocridade, que faz com que as pessoas não exerçam função de protagonistas e sejam apenas espectadores de suas próprias vidas. Para evitar tal destino é preciso investir em utopias.</span></span></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mas cuidado, precisamos entender bem esse conceito. Utopia, ao contrário do que sugere o nome, não é um lugar que não existe. É um lugar que não existe ainda. Nesse sentido, é bom viver em uma sociedade, pertencer a uma empresa, que tenha utopias. Um forte desejo de não se contentar com o mínimo, sabendo que pode atingir mais, fazer melhor.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma qualidade exclusiva da espécie humana é a consciência de um amanhã. Devemos isso ao nosso cérebro temporal. Portanto, tentar imaginar esse amanhã, ou melhor, propor a sua forma, é criar uma utopia. Um futuro idealizado. Ideal. Fazer um projeto, descrever um amanhã de acordo com nossas ambições, é exercer influência sobre a passagem do dia de hoje para o de amanhã. Fazer o contrário disso, abandonar-se à fatalidade, proceder como se o futuro estivesse já escrito é o que mais se aproxima da morte em vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma sociedade sem utopias não é verdadeiramente humana. Não conhece o tempo. Não tem pelo que lutar. Lembremos que uma sociedade é o conjunto de seus membros, que são capazes de construir utopias. Pessoais e coletivas. Todas úteis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #800080;">O que dá para fazer</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nietzsche considerava filósofo todo aquele que imagina o amanhã e que tenta imaginá-lo da melhor maneira possível – ou seja, aquele que cultiva utopias, que recusa as coisas como são, que questiona, duvida, inventa, tenta, corre riscos, que faz perguntas incômodas.  Aquele que ousa criar o seu amanhã, que aceita como seu algo que ainda não existe. E que se organiza, planeja, põe-se a trabalhar, para transformar pensamentos em realizações, sonhos em felicidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é o homem, ou a mulher, que busca em seu sistema de crenças a energia necessária para essa metamorfose. Acreditando em seus objetivos, em si mesmo, em seus semelhantes, em forças outras tantas. Esse é dono de seu destino.</p>
<p style="text-align: justify;">O método de gestão chamado <em>kaizen</em> pode ser um excelente exemplo de utopia saudável. Trata-se de um dos princípios da administração japonesa e quer dizer, literalmente, “aprimoramento contínuo”. A idéia é manter na empresa uma filosofia de vigilância da qualidade com o propósito de buscar a perfeição – ainda que sabendo que ela jamais será atingida.</p>
<p style="text-align: justify;">O princípio de “hoje melhor que ontem e amanhã melhor que hoje” pode ser uma idéia interessante, desde que não seja transformada em uma obsessão ou aventura em busca do inalcançável. Todos nós podemos adotar o kaizen pessoal, tendo em mente duas regras básicas: a) melhorar continuamente; b) melhorar lentamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando tentamos implementar modificações muito velozes ou muito radicais, acabamos por ter de confrontar o fracasso. O ser humano não muda rapidamente. Ou, se o faz, é à custa de muito sofrimento. Mas, mudar um pouco de cada vez, incorporando as mudanças que, por serem pequenas, são facilmente assimiladas, e transformando o hábito de mudar para melhor em uma rotina diária, não só é possível, como é a única maneira de lidar com algo próximo ao que poderíamos chamar de perfeição.</p>
<p style="text-align: justify;">Lembra da história de Pigmalião do começo do artigo? Pois ela ainda não terminou. Ele se negou a se conformar, e foi à luta. Procurou uma alternativa e encontrou a solução em Afrodite, que concordou em dar vida à escultura, transformado-a em uma mulher de verdade. Foi humilde e fez a aliança certa.</p>
<p style="text-align: justify;">Devemos lembrar que Afrodite era a deusa da beleza e do amor, o que nos deixa com a lição de que, quando fazemos algo com paixão, temos mais chance de dar vida a nossos ideais.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Texto publicado sob licença da revista Conexão Direta com Você, da Nextel.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
<a href="http://www.nextel.com.br/" target="_blank">www.nextel.com.br</a></em></p>
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		<title>Hora certa para ter filhos</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2010 02:27:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há como saber qual é o momento mais apropriado de ter filhos? O que é preciso levar em conta para tomar essa decisão com responsabilidade]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Essa é uma grande questão da pós-modernidade. Hoje em dia, vivemos mais tempo e melhor, temos a ciência, a informação e o conhecimento a nosso favor. Há liberdade na maior parte do mundo. Em compensação, surgiu um fato novo para o qual não estávamos preparados: temos que fazer muitas escolhas, e isso nos angustia. Ter filhos, por exemplo, antes era destino, agora é escolha.</p>
<p>Veja a Natália e o Eduardo, um casal típico da atualidade. São belos, cultos, profissionais, se dão muito bem, têm amigos, praticam esportes, viajam bastante, moram em um lindo apartamento recheado de conforto, arte e tecnologia. Têm um negócio próprio, trabalham juntos porque suas competências são complementares e são muito admirados por isso. Não dá para dizer que falte alguma coisa para esse casal. Mas falta. Eles não têm filhos.</p>
<p>Enquanto estavam ocupados construindo a vida que têm, a questão filhos não estava na pauta, até que o assunto começou a ganhar relevância. Como não sabiam como lidar com ele, fizeram o que os casais pós-modernos fazem: terapia. Mas, claro, a terapeuta não disse o que eles deveriam fazer, só os ajudou a pensar, a considerar todas as variáveis, as perdas e os ganhos.</p>
<p>Natália já vai fazer 35 anos e sabe que está chegando ao limite da idade ideal para ser mãe – do ponto de vista biológico. A natureza é cruel. O homem pode procriar sem problema até depois dos 70, a mulher mal passa da metade disso. A natureza tem lá suas explicações, mas não convence muito os pós-modernos, que se acostumaram a mantê-la sob controle e nesse assunto sentem-se meio impotentes. Para piorar, o Eduardo, que é mais velho, apesar de não aparentar, já tem filhos de uma relação anterior. Ele está, digamos, realizado nessa área, mas, como ele ama Natália, considera ter um filho com ela, até para dar continuidade ao amor deles. Ambos têm consciência de que a vida deles vai sofrer uma mudança radical, mas a hora da decisão chegou, não dá mais para esperar.</p>
<p>Então como decidir com propriedade se este é o melhor momento?</p>
<p>A decisão de ter um filho obedece aos princípios clássicos da tomada de decisões. Quanto mais variáveis forem consideradas, maior a chance de a decisão ser acertada. Nesse caso, há três áreas que devem ser consultadas: a idade reprodutiva, a estabilidade da relação e o equilíbrio profissional e financeiro. Em síntese, dessa decisão tão importante participam os três elementos que constroem nosso ser: a biologia, a emoção e a razão.</p>
<p>Quanto à biologia, sabemos que a mulher tem uma idade reprodutiva ideal, que vai dos 18 aos 35 anos, com alguma variação de mulher para mulher. Antes ou após essa faixa aumentam os casos de infertilidade e de distúrbios genéticos. Ainda que haja inúmeros casos de mulheres que se tornaram mães após os 40, tiveram gravidez tranquila e filhos saudáveis, os especialistas recomendam engravidar antes, para ter a estatística a seu favor.</p>
<p>No que diz respeito ao lado emocional, é necessário dizer uma coisa dura: provavelmente, o maior dos erros que um casal pode cometer é o de achar que um filho vai trazer felicidade. O certo é trazer um filho para compartilhar a felicidade que já se tem. Até porque seria muito cruel e egoísta dar essa responsabilidade para o pequeno ser.</p>
<p>Concordo que um filho dá a sensação de plenitude, de continuidade, de imortalidade. Mas é necessário que ele encontre um mundo pronto para recebê- lo, estruturado o suficiente para lhe dar a chance de crescer de modo saudável. E disso faz parte uma estrutura emocional equilibrada. O melhor que um pai pode fazer por seu filho é amar a mãe dele. Crescer em um ambiente de amorosidade, em que a paz é parte da família, com pais que conversam e trocam carinhos, em que o beijo é democrático e a preocupação de um com o outro é genuína, acredite, é o melhor substrato para a construção de uma personalidade estruturada.</p>
<p>Quanto à lógica, esta se refere ao lado prático da vida. Um filho dá despesa, exige espaço, tempo, atenção. A questão financeira talvez seja a mais relevante, há muitos estudos sobre o assunto. Um dos últimos mostra que, quanto mais os pais ganham, mais gastam, e que o investimento em um filho até que ele complete a faculdade pode chegar à casa de 1,5 milhão de reais. Não pensar no aspecto financeiro seria irresponsável, pois seu filho precisa frequentar locais que colaborem com seu desenvolvimento, estudar línguas, viajar, praticar esportes, ter saúde, acesso a livros, comprar roupas. A lista não tem fim.</p>
<p>Planejamento familiar pode parecer diferente de outros planejamentos porque tem um fortíssimo componente emocional. Sim, tem amor envolvido na questão, mas continua sendo um planejamento.</p>
<p>Apesar do trabalho e da despesa, um filho é motivo de felicidade para o casal</p>
<p>Sem dúvida é a maior felicidade que se pode experimentar, mas estamos diante de duas questões bem diferentes: a maternidade e a tomada de decisões. São dois assuntos que pertencem, em parte, a áreas diferentes da mente humana. A maternidade é uma força própria da condição de ser mulher, e a ela concorrem o instinto e a emoção, com a mesma força. O instinto da perpetuação, com o qual não dá para discutir. E a emoção de ser mãe, de amar da forma mais intensa possível, de se sentir amada, de ver nos olhinhos do filho o verdadeiro sentido da vida. A maternidade está, sim, entre as maravilhas de uma existência. Trata-se de uma experiência que nem sequer pode ser explicada, só pode ser vivenciada.</p>
<p>Como pai que foi meio mãe, posso afirmar que vale a pena experimentar a sensação de gerar, de sentir o sabor da continuidade, da perpetuidade; de participar, através de um ato extremamente amoroso, do enriquecimento deste mundo. A emoção é imensa, sem dúvida. Ter um filho, vê-lo crescer, sorrir, aprender, errar, dar os primeiros passos em direção ao controle de sua vida. Eu experimentei tudo isso e posso afirmar que meus filhos me tornaram melhor. Ensinaram-me mais do que aprenderam de mim. Deram significado a meu trabalho, aos cuidados com minha saúde e até ao amor que sentia pela mãe deles. Sim, é maravilhoso ter um filho, mas&#8230;</p>
<p>Mas há a decisão, e esta pertence ao círculo da lógica, ainda que faça parte das funções dela consultar as emoções, sem as quais as decisões se tornariam frias e estéreis. Decidimos o tempo todo, em praticamente todas as nossas atividades, e é possível que seja exatamente nessa obrigação diária que se esconda a grande causa da ansiedade humana. Sim, pois a escolha pressupõe, em geral, várias renúncias, o que nos leva a crer que a escolha nos dá menos do que o que perdemos, e isso gera um desconforto interno chamado ansiedade.</p>
<p>Começamos o dia fazendo escolhas, e continuamos assim pela vida afora. Decisões, decisões. Ansiedade constante. Pense um pouco: se decidir qual sapato comprar já causa uma revoada de borboletas no estômago, imagine o borboletário ao ter que decidir se está, ou não, na hora de ter um filho. Trata-se de uma decisão que irá mudar sua vida, não duvide disso. Aquele pequeno ser assume o comando de tudo à sua volta. Os horários da casa, a estrutura do quarto, os móveis da sala, tudo passa a girar em torno das necessidades e dos desejos do pequeno.</p>
<p>Não que ele não faça sua parte. Quando resolve brincar às 4 da manhã, tira você da cama de mau humor, mas este se desvanece na primeira risadinha que faz aparecer aquelas covinhas na bochecha. Ele tem tudo sob controle. Suas armas são a alegria, o riso, os pequenos movimentos, a descoberta de que tem mãozinhas, o aperto que dá em seu polegar demonstrando dependência e confiança.</p>
<p>Não basta o desejo de ter filhos? O que mais é preciso? É maravilhoso ter um filho, e será tão mais quanto mais agregar valor a nossa vida. A questão é que ele também tira algo, pois é um sugador insaciável de atenção, cuidados, tempo, dinheiro. Há um preço a pagar, e temos que estar preparados para isso. Se assim não for, a maravilha da maternidade, ou da paternidade, perde pontos para a aridez da vida prática. Duas publicações recentes me disseram muito a respeito deste tema.</p>
<p>A psicóloga Vera Maluf, que apoia casais que enfrentam alguma dificuldade nessa área, publicou o livro Fertilidade &amp; Maternidade – O Desejo de um Filho (Atheneu), no qual aborda, principalmente, as possibilidades da reprodução assistida e suas consequências psicológicas. No capítulo chamado “O desejo em nossas vidas”, ela diz que o desejo de ter um filho não é tudo, que precisamos também ter vontade. E explica: “O desejo é dado pela psique, libido, biologia – é um fato natural. A vontade é construída pela consciência, disciplina, interação – é um fato social. Educação é a arte de construir vontades”. Uma visão cristalina.</p>
<p>E o psiquiatra Içami Tiba acaba de acrescentar mais uma publicação a sua lista de livros dedicados às questões familiares e educacionais, Família de Alta Performance – Conceitos Contemporâneos na Educação (Integrare). Nele encontrei uma pequena frase em forma de agradecimento feito por um filho: “Agradeço a meus pais pela ‘predisposição genética’ a ser feliz. E a Deus por ter sido tão ‘mimado’ por Ele”. Que bom se todos os filhos se sentissem estimulados a fazer esse agradecimento. Ele tem um profundo significado: esse filho foi bem esperado e bem recebido, e teve todas as oportunidades da vida. Os pais estavam prontos para recebê-lo e ele respondeu ao amor de ter sido criado com o brilho de existir em plenitude.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
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