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	<title>Sapiens Sapiens &#187; harmonia</title>
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		<title>A importância da parceria</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jun 2010 14:51:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Qual o verdadeiro significado de um companheiro? Por que as pessoas valorizam tanto ter alguém ao lado para poder viver mais plenamente? ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Certa vez Tom Jobim escreveu: &#8220;Vou te contar, os olhos já não podem ver, coisas que só o coração pode entender, fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho&#8230;&#8221;. Com todo o respeito pelo maestro, eu acho que ele exagerou um pouquinho na última frase. Nela, ele condiciona a felicidade exclusivamente ao fato de não se estar sozinho. Entretanto, vale lembrar que a recíproca pode ser igualmente verdadeira, ou seja, alguém que irradia felicidade tem mais chance de ter alguém ao lado.</p>
<p>Mas, uma vez posta essa ressalva, vamos dar um crédito ao Tom, e concordar que, quando se tem alguém ao lado, tudo fica mais fácil, mais seguro, mais completo, mais divertido. Só que &#8211; e esta condicional é importantíssima &#8211; não pode ser qualquer alguém, tem de ser um alguém a quem se possa, sem medo de errar, chamar de companheiro ou companheira.</p>
<p>Companheiro é uma palavra que vem do latim cum panis e refere-se a alguém com quem dividimos o pão. Companheiro é uma pessoa em quem confiamos o suficiente para sentar junto à mesa e compartilhar uma refeição, esse momento que não alimenta apenas o corpo, mas também a alma. O simbolismo de se alimentar com alguém é imenso, pois pressupõe que você está em sintonia com essa pessoa e olha junto com ela para o futuro &#8211; afinal, quando nos alimentamos criamos a esperança de continuar vivendo, de não morrer, de termos um amanhã.</p>
<p>Como não nos alimentamos apenas de pão, mas também de ideias, saberes e planos, ter um companheiro significa compartilhar esse conjunto de coisas &#8211; tudo o que nutre nosso corpo, nossas emoções, nossos pensamentos e, principalmente, nossos sonhos. Se essa plenitude é possível com a pessoa que está ao seu lado, acredite, ela pode sim, nesse caso, colaborar &#8211; e muito &#8211; com sua felicidade. E então, parodiando o maestro: enquanto a noite vem nos envolver, é muito bom estar ao lado de um companheiro.</p>
<p><em>Mas será mesmo que uma parceria é assim tão importante?</em></p>
<p>Acompanhe esta história: apesar de ser incrivelmente inteligente, John apresentava grande dificuldade para lidar com os fatos do cotidiano, um dos sintomas da esquizofrenia de que era portador. Ele era considerado uma revelação em matemática, havia concluído sua graduação com louvor na Universidade de Princeton e, com 23 anos, chegava ao prestigioso Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) como professor, apesar de continuar desencaixado do mundo real.</p>
<p>Mas no MIT ele conheceu Alicia, uma jovem estudante de física, e então sua vida começou a mudar. Quando, anos depois, recebeu o prêmio Nobel de Ciências Econômicas por seus trabalhos relacionados à Teoria dos Jogos, John subiu ao pódio para seu breve discurso, e ele o dedicou a uma pessoa: à sua companheira Alicia, sem a qual, segundo ele, nenhuma de suas conquistas teria sido possível. Seu gesto foi justo, pois ela lhe havia dado todo o suporte, emocional e prático, liberando assim sua inteligência para ser adequadamente aplicada à ciência. A história de John Nash, suas teorias matemáticas, sua luta contra a esquizofrenia e a relação com sua mulher foram bem retratados no filme Uma Mente Brilhante, com Russell Crowe no papel de Nash. O filme inclui o discurso, que, aliás, é o momento mais emocionante da fita.</p>
<p>John e Alicia Nash não configuram um caso isolado. Representam apenas uma entre milhares de outras histórias, exploradas pelo cinema e pela literatura, que se referem à força da parceria que um casal pode ter. É sim uma história de amor, mas mostra que este não é um assunto restrito ao romance entre duas pessoas. Ele tem um caráter muito maior, em que os rumos de vida delas são influenciados, para o bem ou para o mal. Pessoalmente, acredito fortemente na influência que um companheiro tem na vida de alguém. E digo isso por experiência própria.</p>
<p>Casamentos podem ser com papel ou sem papel, com alguém do outro sexo ou do mesmo, entre pessoas de mesma nacionalidade ou que se criaram em lados opostos do mundo, entre fiéis da mesma ou de outra religião, que têm a mesma cor na pele ou não, que torcem pelo mesmo time ou por times rivais, que têm a mesma idade ou nem são da mesma geração. O que importa não são essas coincidências. O que importa é se são companheiros de verdade.</p>
<p>Nos casamentos que acontecem todos os dias, é possível considerar que estão sendo construídas parcerias de verdade?</p>
<p>Uma parceria é mais que um casamento. Aliás, um pode acontecer sem o outro. Conheço casamentos que não são parcerias e parcerias em que o casamento nem sequer foi cogitado, não está na pauta de prioridades. Em um casamento, considero que haja três possibilidades de parceria. A primeira é quando o casal tem um projeto comum, a segunda é quando um se engaja no projeto do outro e a terceira é quando ambos têm seus projetos próprios, mas um colabora com o projeto do outro. É mais fácil verificar isso no âmbito das carreiras, então vejamos.</p>
<p>Primeiro tipo de parceria: ter um projeto de carreira comum. Isso é maravilhoso, mas é o mais complicado, pois pressupõe mais contato, e, como consequência, maior superfície de atrito. Acontece com os casais que trabalham juntos, o que é mais comum do que se imagina. Vivemos uma época em que os bons empregos não estão caindo das árvores, o que leva as pessoas, especialmente as mais ambiciosas, a empreender seus próprios negócios. Em outras palavras, a criar seus próprios empregos.</p>
<p>E, nesse caso, é comum o casal resolver trabalhar junto, dividindo as tarefas, as responsabilidades e os resultados. O Luiz Felipe e a Gisela são um bom exemplo. Eu os conheci há mais de uma década, quando ainda estavam buscando consolidar sua empresa de cosméticos em Curitiba. Lembro-me de o Luiz Felipe ter-me dito uma vez, com seu jeito brincalhão: &#8220;Fazemos tudo em par. Trabalhamos, sonhamos, viajamos, estudamos, brigamos e até dormimos juntos&#8221;. Hoje sua empresa tem sucesso nacional e eles continuam fazendo tudo juntos.</p>
<p>Segundo tipo de parceria: engajar-se no projeto do outro. Acaba tendo um efeito parecido com o primeiro tipo, pois o projeto que era de um passa a pertencer a ambos. Foi o caso de Yves e Pierre. O jovem Yves tinha recém-voltado a Paris, após servir o exército na guerra da independência da Argélia, e queria retomar a carreira de estilista, que tinha começado anos antes na casa Christian Dior. Só que agora com seu próprio estilo e com seu nome, então criou a marca YSL, ou Yves Saint Laurent. A ideia, o nome e o talento eram seus, mas ele não teria chegado aos tapetes vermelhos da alta costura mundial se não tivesse contado com seu parceiro, Pierre Bergé. Foi ele que deu o apoio financeiro e a estrutura empresarial, foi responsável pela gestão, pela estratégia e pelo marketing. O projeto era de Yves, mas Pierre embarcou nele e o tornou possível.</p>
<p>A relação afetiva entre ambos durou 15 anos, mas a parceria profissional durou 45, até a morte de St. Laurent, em junho de 2008. De certa forma, Yves se referiu à parceria de um casal quando disse: &#8220;Nada é mais belo que um corpo nu. A roupa mais bela que pode vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Mas, para aquelas que não tiveram a sorte de encontrar essa felicidade, eu estou lá&#8221;.</p>
<p>Terceiro tipo de parceria: casais em que um apoia o projeto do outro. Em uma sociedade competitiva, que se constrói pela força do conhecimento, não é incomum o marido e a mulher construírem carreiras brilhantes em áreas diferentes de atividade, mas igualmente exigentes em estudo e preparo. É o caso da Joyce e do Daniel. Ela, dentista conceituada, estudiosa, antenada. Ele, executivo cobiçado pelas empresas de tecnologia, fala vários idiomas, conhece como poucos o mundo high tech e dos negócios que resultam dele. Suas áreas são diferentes; em comum, mesmo, só os gêmeos Pedro e Gustavo, e o projeto para mais um filho. Mas é bonito de ver como um se interessa pela carreira do outro, como estimula, torce, sofre, se orgulha.</p>
<p>Não é importante que ambos torçam pelo mesmo time, mas ambos têm que torcer. Parceiros são assim, estão juntos para dar força um ao outro, para compreender, aconselhar, abraçar, alegrar-se, chorar junto. Companheiros compartilham do mesmo pão &#8211; e não importa se o pão é fresco, macio e abundante, ou está duro, passado e é pouco. Companheiros compartilham o que têm: do pão aos sonhos; o presente e o futuro.</p>
<p>Aliás, esse assunto também foi tema da mitologia e da poesia, ou de ambas ao mesmo tempo. Uma das mais belas abordagens é aquela em que um anjo pergunta a Deus por que Ele havia criado os homens com &#8220;aquele defeito&#8221;.</p>
<p>- Que defeito? &#8211; perguntou o criador, com brandura.</p>
<p>- Bem &#8211; disse o anjo -, eu reparei que as pessoas só têm uma asa, e não duas, como nós, e sabemos que são necessárias duas para voar. Então parece que eles nasceram defeituosos.</p>
<p>- Acontece, querido anjo &#8211; explicou Deus -, que cada homem e cada mulher tem, sim, duas asas, só que uma está consigo e a outra está em outra pessoa. Eu os fiz assim para que eles aprendessem a voar em pares e assim conseguissem chegar mais alto.</p>
<p>- Além disso &#8211; continuou o Todo-Poderoso -, dessa maneira eles também aprenderão a respeitar e a cuidar uns dos outros. Qualquer pessoa que magoe outra poderá estar machucando sua outra asa, e assim ficará impedida de voar. Só pelo amor, nunca pelo ódio, se aprenderá a voar pela vida, aproveitando toda a maravilha que ela tem para oferecer.</p>
<h4><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: </em><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></h4>
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		<title>Um animal político</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Feb 2010 13:07:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na empresa, ser político é exercitar o hábito de colaborar]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- fecha foto abre --></p>
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<p style="text-align: justify;">O modo de pensar ocidental foi fundado pelos filósofos gregos nos séculos 5 e 6 a.C. Quando falamos de coisas como liberdade, justiça, democracia, educação, coragem, respeito, ética, estamos, sem saber, nos referindo a temas que começaram a ser analisados com cuidado naqueles anos fantásticos, em que o homem encontrou um jeito de substituir o misticismo pela razão.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi nesse período que surgiu a palavra política, derivada de pólis, que quer dizer cidade. No original, ser político signifi cava demonstrar interesse e preocupação pelo bem-estar da cidade, e é assim que todas as pessoas deveriam se comportar, cuidando de seus interesses particulares sem ofender os coletivos. Os desejos e necessidades de cada um devem estar em harmonia com os da coletividade. Simples essa ideia, não? Empresas são parte integrante da sociedade, estão sujeitas aos mesmos princípios que regem a civilização ocidental, incluindo o da política.</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente, esse conceito sofreu uma mudança de entendimento. Hoje, ser político remete a conchavos, a dar para receber. Confunde-se busca pelo poder com busca pelo bem-estar coletivo. Há empresas que permitem e até estimulam essa política de segunda linha, acreditando que competitividade interna trará maior desempenho. O erro é grosseiro, pois o foco da competitividade foi deslocado do mercado para o interior da empresa, enquanto o concorrente pode estar fazendo sua lição e ocupando os espaços. Na empresa, ser político signifi ca exercitar o hábito da colaboração, da clareza e do entendimento.Ser político não signifi ca concordar com todos, nem procurar a harmonia do grupo por meio de aceitação pacífi ca da opinião dos gestores. Ser político é usar sua inteligência para encontrar a convergência dos interesses apesar da divergência de opiniões. Ser político é exercer a mais nobre das condições humanas, a de comportar-se como cidadão, sabedor de seus direitos e ciente de seus deveres.</p>
<p style="text-align: justify;">A propósito, entre os gregos, aquele que não tivesse um comportamento político, demonstrado pelo interesse no bem-estar geral, e que era centrado apenas em seu umbigo, recebia um nome sugestivo — era chamado de idiota.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: <a href="http://www.vocesa.com.br/" target="_blank">www.vocesa.com.br</a></em></p>
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		<title>Consciência Corporal</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Feb 2010 02:23:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No tempo que passou em Milão, Leonardo da Vinci aproveitou para, além de produzir arte e artefatos de engenharia, estudar anatomia. Como era protegido pelo príncipe Sforza, espécie de dono da cidade, tinha alguns privilégios, entre eles o de dissecar cadáveres, para o desespero da Igreja medieval. Seus milhares de desenhos do corpo humano se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No tempo que passou em Milão, Leonardo da Vinci aproveitou para, além de produzir arte e artefatos de engenharia, estudar anatomia. Como era protegido pelo príncipe Sforza, espécie de dono da cidade, tinha alguns privilégios, entre eles o de dissecar cadáveres, para o desespero da Igreja medieval. Seus milhares de desenhos do corpo humano se transformaram no primeiro tratado de anatomia.</p>
<p style="text-align: justify;">Leonardo tinha especial atração pelos músculos e sua relação com os ossos e órgãos dos sentidos. Uma de suas observações, genial para a época, é que o cérebro percebe o exterior através de órgãos especiais que permitem a visão, a audição, a olfação, a gustação e o tato, mas também é capaz de perceber o interior, o próprio corpo, através de uma espécie de “sentido para dentro”. O gênio da Renascença tinha razão. Hoje sabemos que os músculos, as articulações e os órgãos internos informam o cérebro sobre suas condições através de corpúsculos e nervos, como se houvesse um sentido especial, só que voltado para o interior do corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">Graças a isso, somos avisados de alguma dor ou desconforto. Claro, o corpo dá seus alertas, defende-se. E, da mesma forma, nos passa sensações de prazer, de bem-estar. Você nunca sentiu uma sensação de cansaço, como se seu corpo estivesse de mal com você? Claro que sim, mas, em compensação, também experimentou aquele estado de prazer proporcionado por um corpo harmônico e saudável. Coloque a revista no colo um instante, jogue seus braços para cima, agarre o pulso esquerdo com a outra mão e curve seu tronco ligeiramente para a direita. Segure- se nessa posição por apenas um instante e depois repita do outro lado. Pronto. Agora desça seus braços devagar, sentindo a sensação maravilhosa provocada pela circulação sanguínea, que se refaz após o alongamento.</p>
<p style="text-align: justify;">A consciência corporal nos dá um controle maior sobre nossas possibilidades e, claro, nossos limites. O corpo humano é uma maravilhosa estrutura em que tudo tem sentido. O complexo sistema de feixes musculares que permitem os movimentos fez Leonardo da Vinci acreditar na perfeição. Ele era tão entusiasta das potencialidades da musculatura humana que chegou a imaginar uma máquina de voar que se compunha simplesmente de asas iguais às das aves, que ele também estudou a esmero, como tudo o que fazia. Ele acreditava que seria suficiente dotar um homem dos apêndices que lhe faltavam para poder decolar, pois os músculos fariam o resto do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Estava enganado, é claro, e abandonou o projeto quando percebeu a especificidade muscular das aves. Elas evoluíram para poder voar, nós não, simples assim. Leonardo aceitou as limitações quando aumentou a consciência sobre o próprio corpo e disse, depois, que a consciência serve exatamente para isto: dar a conhecer os alcances e os limites.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem consciência corporal não sabemos nem o que podemos nem o que devemos fazer. Deixamos de aproveitar o potencial do movimento, o prazer do alongamento, a sensação do relaxamento, o poder da força.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #800000;">Como aumentar a sensação agradável que a consciência do corpo pode dar?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong></strong> Não podemos esquecer nossas origens. Somos o resultado de um longo e lento processo de evolução, e ela se baseia no princípio da seleção natural. O que isso significa? Que somos descendentes dos mais aptos, daqueles que, de alguma forma, sobreviveram aos duros tempos da pré-história. E isso, acredite, não se fez apenas com boa intenção, e sim com competência orgânica. Sobreviveram os mais ágeis, rápidos, fortes. Nossos ancestrais foram verdadeiros atletas da modalidade “sobrevivência”.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, quando negamos a atividade física e adotamos o sedentarismo como uma opção de vida, estamos contrariando nossa genética. O corpo em movimento é natural, assim como o repouso é importante. O coração agradece o exercício aeróbio, dos quais o simples caminhar é o melhor. As articulações precisam da mobilidade, senão começam a travar. Os músculos pedem para fazer força, pois para isso foram criados. Aliás, com relação a estes, há uma regra simples: o que está tenso, relaxe; o que está encurtado, alongue; o que está flácido, fortaleça.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha amiga Luca é especialista nesse assunto, pois ela é uma osteopata – especialista no estudo dos músculos, dos ossos e da relação entre eles. O que ela faz exatamente? Ora, ela coloca o paciente no prumo. Acerta as equações entre os músculos, os ossos e as articulações, põe uma vértebra em cima da outra, devolvendo à coluna vertebral sua verdadeira função, a de dar equilíbrio e harmonia ao corpo, e dota seu paciente de uma postura elegante e movimentos fáceis e equilibrados.</p>
<p style="text-align: justify;">Seus dedos parecem ter pequenos tubos de raios X nas pontas e suas mãos são como pinças e alavancas que levantam, alongam, puxam, repuxam, acertam e harmonizam nosso aparelho locomotor. Ela toca os grandes e os pequenos músculos, mexe nos adutores, abdutores, pronadores, supinadores e tantos outros com nomes engraçados, que ela vai falando às vezes em português, às vezes em inglês e às vezes em latim. “Agora teu latissimus dorsis está descolado”, diz com naturalidade. Pode ser que você nem sempre entenda o que ela diz, mas sai de sua maca sentindo-se mais reto, mais alto e com uma amplitude de movimentos que não se lembrava que tinha.</p>
<p style="text-align: justify;">Luca é uma entusiasta da consciência corporal. Sua consulta é cheia de conselhos. “Sinta o giro de sua cabeça”, diz ela. “Perceba como seus ombros se projetam para a frente”, continua. “Diga- me o que você sente ao tentar alcançar seu pé”, ordena. Em uma hora de sessão, você migra da gratidão pela sensação de ter um corpo vivo ao ódio pela dor quase insuportável provocada por suas manobras firmes.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela é uma profissional que acredita que seu trabalho é uma missão e faz mais do que devolver ao paciente equilíbrio e movimentos. Aumenta a consciência corporal, a autoestima e a alegria de viver. Sobre essa missão complementar, certa vez ela me disse: “Como pode alguém ignorar seu próprio corpo? Viver sem se sentir é comer sem saber o sabor da comida”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #800000;">A ideia de cuidar do corpo não pode se transformar em uma ditadura da perfeição?</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Muito cuidado nessa hora para não confundir o compromisso com a saúde com a obsessão com o corpo perfeito. Os veículos de comunicação, como as revistas de moda e de esporte, são frequentemente acusados de criar estereótipos e modelos inalcançáveis, mas eles são, na visão da professora Maria Teresa Santoro, da Universidade São Judas Tadeu e conhecedora da relação entre mídia e corpo, uma extensão do ser humano, no sentido em que recolhem informações do mundo social e as remodelam para transformar em linguagem de comunicação.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outras palavras, se, por um lado, as revistas criam modelos, por outro são “tradutores sociais” responsáveis por fazer uma releitura de conceitos, emoções e aspirações que estão implícitos na sociedade. Assim, não é a mídia a responsável pelos padrões estéticos, mas o próprio público, que acata com agrado consumir esses conceitos que circulam em mão dupla.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais um motivo para se investir de consciência corporal. Para não ser uma presa fácil de modismos e estereótipos, mas usá-los como base no que deve e no que não deve ser feito. Mas, mesmo com a diversidade de estudos e estudiosos sobre o caso, a problemática do corpo está longe de acabar – essa é só a ponta do mindinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Também é importante lembrar que grande parte desse conflito se dá pelo próprio ambiente em que vivemos, portanto temos que cuidar dele. O lugar pode não ter estímulos para a livre vazão de energia criada pela tensão e, com base nisso, gerar uma série de reações adversas: músculos crispados, respiração acelerada e uma paciência prestes a “furar o saco”. Esses são sintomas comuns de nosso organismo querendo nos alertar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="color: #800000;">Desenvolver a consciência corporal ajudaria então a desenvolver as relações humanas? </span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong></strong>Sem dúvida. Essa é a área de trabalho escolhida pelo médico ucraniano Wilhelm Reich, conhecido como o grande pai das terapias corporais no Ocidente. Reich teve uma vida conturbadíssima e polêmica. Foi fazendeiro, estudou direito antes de se formar em medicina, era judeu, negava o judaísmo e, mesmo assim, foi perseguido pelo nazismo. Foi discípulo de Freud, mas se afastou dele. Mudou para os Estados Unidos, onde divulgou suas idéias e acabou morrendo na prisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Vida conturbada à parte, Reich teve o mérito de colocar o corpo nas discussões sobre a psicologia humana. Ele acreditava que o homem teria costurado para si uma “capa invisível” e inconsciente para se proteger dos males externos, tornando o corpo um refletor direto da mente. Os músculos tensos, a boca retraída, a postura inclinada, o queixo projetado e os movimentos rijos, todo esse conjunto de aparências presumia o que ele chamou de “couraça muscular” e serviria para proteger o indivíduo portador de uma personalidade fragilizada.</p>
<p style="text-align: justify;">Reich supôs que o ser humano tinha uma série de camadas, como as da Terra, que serviam para proteger seu “núcleo” de possíveis ameaças. Segundo ele, o indivíduo sedimentava crostas de vivências que se sobrepunham umas às outras com o decorrer do tempo. Esse envoltório ia se enrijecendo à medida que era necessário experienciar sensações desagradáveis, servindo também para acobertar sentimentos prazerosos que poderiam torná-lo presa fácil dentro do mato urbano.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele ainda considerava que toda a energia circulante do corpo passava obrigatoriamente por certos segmentos chamados de “anéis”, concentrados em sete regiões: pelve, abdômen, diafragma, tórax, pescoço, boca e olhos. Aliás, essas bolinhas cristalinas são os maiores receptores e irradiadores de energia do organismo – e não é à toa que os olhos são vistos até hoje como o grande reflexo da alma.</p>
<p style="text-align: justify;">É, sim, possível se livrar das couraças reichianas e um dos caminhos é, como vimos, a ampliação da “consciência corporal”. Pode levar algum tempo, mas é muito bom fazer as pazes com o corpo e usá-lo como um belo caminho para a alma. Enquanto isso, use como inspiração estas palavras do escritor uruguaio Eduardo Galeano: “A Igreja diz: o corpo é uma culpa. A Ciência diz: o corpo é uma máquina. A publicidade diz: o corpo é um negócio. E o corpo diz: eu sou uma festa”.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: <a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank">www.revistavidasimples.com.br</a></em></p>
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		<title>Misturando as estações</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Feb 2010 03:34:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“Gosto muito do que faco, mas quero saber o que fazer para não trazer os problemas de casa para o trabalho e vice-versa”]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gregório respondia pelo setor comercial da empresa. Sua função, além de liderar a equipe de vendas, era visitar os clientes para estreitar os laços com a companhia, demonstrando interesse sobre seus desejos e suas necessidades, ouvindo opiniões, queixas e eventuais elogios. A verdade é que não era assim tão importante ouvir os clientes, e sim fazê- los acreditar que estavam sendo ouvidos. Isso aumentava a fidelização, acreditava seu chefe. Ele até gostava do trabalho, pois tinha a oportunidade de conhecer pessoas, aprender coisas novas, viajar. Só que sua função o impedia de manter uma vida doméstica e, quando estava em casa, não conseguia se desligar dos compromissos, da agenda, das metas a serem atingidas.</p>
<p>Gregório sentia que estava perdendo o controle de sua própria vida, adiando os sonhos, estagnando seu desenvolvimento pessoal. Seu trabalho não combinava com sua vida. Ou seria o contrário? Ele já não sabia e, finalmente, sentiu que estava se transformando num ser de que ele não gostava. Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório deu por si na cama, transformado em um ser repugnante. Exatamente o que ele sempre abominara e não se cansava de criticar. Um indivíduo que vivia apenas por viver, engolido pela rotina monótona, digerido pelas metas impossíveis e metabolizado pelo sistema impiedoso que classifica as pessoas de acordo com seu potencial produtivo. Ao olharse no espelho, Gregório não gostou do que viu. Sua aparência estava entristecida. Como foi que o tempo passou tão depressa sem que ele se desse conta? Onde foi parar a alegria natural, juvenil, alimentada pelo prazer das coisas pequenas e pelo entusiasmo dos sonhos grandes? Agora, homem feito, lidava com negócios grandes, mas seus sonhos haviam fi cado pequenos. Em que bicho se transformara, afinal?</p>
<p>Este pequeno ensaio é inspirado no livro A Metamorfose , de Franz Kafka, publicado em 1915. Kafka inaugurou com ele o estilo do realismo mágico na literatura, ao contar a história do caixeiro-viajante Gregor Samsa, que um dia acorda e nota que havia se transformado em um inseto, presumivelmente uma barata. O enredo é absurdo, mas é exatamente essa a mensagem de seu autor, que deseja denunciar o absurdo da vida. A metamorfose de Gregor não é só física. É também psicológica e termina por provocar outras metamorfoses ao seu redor, especialmente em seus pais e sua irmã, que antes eram sustentados por ele.</p>
<p>O livro de Kafka, que antes de ser escritor trabalhou como advogado em uma seguradora, coincide com um período de grandes transformações na sociedade, com o surgimento de uma onda de industrialização, a criação de novas castas e de novas relações de poder. Aproximadamente na mesma época, o Henry, fundador da Ford, reclamando de um operário que não apresentava o resultado que ele desejava porque dizia que andava triste, disse: “Você não está aqui para ser feliz. Está aqui para trabalhar. Seja feliz depois do expediente”.</p>
<p>O.k., estávamos em plena Revolução Industrial, em que as pessoas eram tratadas como peças de uma grande engrenagem produtiva. O capitalismo estava se firmando como uma espécie de religião, e seus sacerdotes eram os pensadores que pregavam a produtividade, como o Taylor, o Fayol e o próprio Ford. A idéia de aumentar a produção otimizando os recursos não era ruim, aliás, esse é o principio da efi ciência – fazer mais com menos. Até aí tudo bem. O problema foi a massificação da classe trabalhadora, a exploração do homem pelo homem. Quem melhor explicou o que acontecia foi o Chaplin em seu genial Tempos Modernos, filmado em 1936, em que ele fez o papel de um operário que aperta porcas e de repente é “engolido” pela máquina, confundindo- se com as engrenagens.</p>
<p>Equilíbrio desejado</p>
<p>Levou algum tempo para que os operários começassem a ser respeitados como seres humanos. Na mesma época do fi lme do Carlitos, surgiram estudiosos da sociologia do trabalho, entre eles uma mulher chamada Mary Parker Follet, uma “profetiza do gerenciamento”, cujas ideias ainda hoje são consideradas avançadas – imagine na época. Ela gostava de estudar. Formou- se em administração, economia, direito e filosofi a. Escreveu apenas três livros, mas por meio deles, e de suas aulas e conferências, revolucionou o pensamento relativo à gestão de pessoas e deu origem à chamada Escola das Relações Humanas, que tratou de devolver ao trabalhador sua dignidade de ser humano. Foi depois dos “puxões de orelha” dados por Mary e Chaplin que o mundo do trabalho começou a pensar diferente seus “recursos humanos”.</p>
<p>Em uma sociedade que valoriza a efi cácia e o resultado, as pessoas excessivamente dedicadas ao trabalho, comprometidas até o tutano com seu ofício, ganham status, são admiradas e apontadas como referência. Nada contra, mas cuidado com os exageros. A expressão workaholic surgiu para designar quem é viciado em trabalho e não consegue se desligar dele em momento algum. Isso vira uma espécie de doença, algo que termina por prejudicar, pois um tipo assim sacrifi ca a vida em família, descuida da saúde, não curte hobbies, só cultiva relações ligadas ao ambiente profi ssional, e esse desequilíbrio acaba se voltando contra a própria carreira.</p>
<p>Jack Welch, o festejado ex-presidente da General Eletrics, diz que, “basicamente, o equilíbrio trabalho/vida pessoal converteu-se em debate sobre até que ponto deixamos que o trabalho absorva toda a nossa vida”. E ele diz isso batendo com o punho no peito, fazendo seu mea-culpa por não ter, ele mesmo, conseguido tal desejado equilíbrio. Ele foi absorvido por sua carreira, mas, em nenhum ponto de sua biografi a, ele credita a isso o sucesso que teve, e sim a traços de sua personalidade, como o espírito de liderança, a disposição para correr riscos e a criatividade. Claro, ele também adorava o que fazia, o que o coloca na categoria dos worklovers os apaixonados pelo trabalho. Estes, ao contrário dos workaholics , não sentem que estão passando do limite, pois seu trabalho é uma espécie de diversão. Outro conselho do Welch: “Assuma uma atitude positiva e espalhe-a ao seu redor, nunca se deixe transformar em vítima e, pelo amor de Deus, divirta-se!” Ótima frase, mas, veja, ela se aplica à vida, e não ao trabalho apenas. Aliás, o trabalho é parte da vida, e não deve ser confundido com ela.</p>
<p>Ócio que não é ócio</p>
<p>Quem insiste nessa idéia é o professor Domenico de Masi, titular de sociologia do trabalho da Universidade Sapienza de Roma. Ele se tornou conhecido por ter publicado, em 1995, um livro que trouxe um novo conceito para a questão da relação do homem com seu trabalho: O Ócio Criativo , um conceito que está longe de propor uma atitude passiva ou contemplativa. Tratase de uma postura das pessoas frente às três maiores necessidades sociais: trabalho, estudo e diversão. De Masi apresenta sua versão, dizendo que o mundo pós-industrial privilegia as pessoas e as empresas que criam condições para que haja um encontro entre as três necessidades. Diz ele que, quando conseguimos trabalhar em um lugar em que estamos aprendendo e também nos divertindo, liberamos nossa mente para criar mais, produzir novas idéias.</p>
<p>A proposta é a da recuperação do homem integral, que a Revolução Industrial destruiu, quando separava o homem em partes: o profissional na empresa, o pessoal em casa. Como se isso fosse possível. A grande inspiração para o conceito do ócio criativo foi retirada de observações históricas, especialmente três. Primeiro dos gregos, que costumavam promover uma reunião, chamada simpósio, em que, após o jantar, cada participante, enquanto segurava a taça de vinho nas mãos, apresentava suas idéias a respeito do tema em discussão, e, quando concluía, entregava a taça, junto com a palavra, a outro participante. Uma reunião que era, ao mesmo tempo, prazerosa, produtiva e criativa.</p>
<p>A segunda inspiração vem dos romanos, que se tornaram famosos por construírem termas, as casas de banho espalhadas por todo o império, servidas pelos aquedutos. Nesses locais, os cidadãos romanos se juntavam para banhar-se, receber massagens, fazer ginástica, mas também para conversar sobre política, filosofia, problemas da cidade e negócios. Ali passavam todo o dia, e produziam muito. Outro modelo são os encontros promovidos pelas principais figuras do Iluminismo francês, especialmente Diderot, Rousseau e D’Alembert, os autores da Enciclopédia, o conjunto de obras que marca uma nova era para a humanidade, impulsionando a disseminação do saber e o interesse pela ciência. Esses homens se recolhiam em uma casa de campo, onde trabalhavam em equipe, aprendiam uns com os outros e se dedicavam, também, à musica e ao entretenimento. Exemplos de grande criatividade e contribuição à humanidade</p>
<p>Não há solução para o equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho a não ser pela construção de uma vida harmônica. A tentativa de separar o mundo em duas ou mais partes acaba criando uma espécie de paranoia que não resolve. Gostar do que se faz é fundamental. Ter uma vida pessoal saudável, com família, amigos, hobbies e interesses variados também. Ser responsável no trabalho não implica em colocar a família em segundo plano. Talvez seja a hora de rever os valores e, claro, fazer um bom exercício de organização da vida.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
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