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	<title>Sapiens Sapiens &#187; aventura</title>
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		<title>Quando eu quase desisti</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Oct 2011 16:10:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Antes de abandonar um desafio, faça uma pausa para refletir e converse com um amigo que saiba te escutar]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Recentemente fiz uma viagem aventura. Com meus amigos Júlio e Décio fui de moto até Cuzco, no Peru, onde encontramos nossas mulheres para visitar Machu Picchu. Percorremos mais de 5000 quilômetros em sete dias. Foi uma das experiências mais emocionantes, e duras, que tive em toda a vida. Houve momentos mágicos, como a entrada na região amazônica e a travessia dos Andes. Houve um momento difícil, em que quase desisti. Em mato Grosso, já com algumas dores no corpo, comecei uma manhã enfrentando um infernal trânsito de caminhões, com a meta de viajar mais de 900 quilômetros naquele dia, sob um sol de 40 graus. Para piorar, perdi uma das malas, que, com um pequeno defeito na presilha, saiu quicando pelo asfalto quase provocando um acidente. Assustado, na primeira parada informei a meus amigos que iria só até Cuiabá, despacharia a moto para São Paulo e voltaria de avião. Era meu limite e, para mim, já tinha sido uma vitória.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi quando senti o valor da equipe. “Vamos respeitar sua escolha”, disse Julio. “Mas primeiro vamos almoçar, depois você decide.” E durante o almoço, um pouco mais relaxado, a conversa foi sobre o valor do companheirismo, a força que o grupo emana, a coesão proporcionada pelos objetivos comuns, tudo isso fluindo naturalmente das histórias de vida de cada um. Ao fim da refeição, respondendo ao olhar interessado de meus amigos, eu disse: “Vamos em frente pessoal”. A viagem foi maravilhosa, principalmente pelo prazer de aventura associado às dificuldades, mas confesso que aquele episódio ajudou a tornar a experiência ainda mais rica. Se eu não passasse por um momento tão duro, acho que não teria valido tanto a pena. Isso me fez recordar vários momentos da vida, igualmente difíceis, que exigiram doses extras de energia, e que, por isso mesmo, foram marcantes e colaboraram para a construção de meu caráter. Você fez vestibular? Batalhou para conseguir um emprego? Abriu seu próprio negócio? Faliu? Casou? Montou sua primeira casa? Em todos esses eventos com certeza há momentos de dúvida e pensamentos de desistência. Mas não dá para desistir de viver. Em todos esses momentos ter uma equipe de verdade a seu lado pode ser determinante.</p>
<p style="text-align: justify;">Que equipe? Ora, a que você constrói enquanto caminha pela longa estrada da vida – família, amigos, companheiro (a). Não desista de nada já. Primeiro tenha um almoço descontraído e troque uma idéia com alguém que saiba ouvir.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: www.vocesa.com.br</em></p>
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		<title>Meu lugar sagrado</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Mar 2011 18:15:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin2</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há muitos lugares no mundo que são considerados sagrados. O que faz com que um local possa receber essa qualificação?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Saímos de Londres no final da tarde, seguindo para o oeste, em um carro alugado. Dirigir na Inglaterra é fácil e difícil. É fácil porque as estradas são ótimas, a sinalização é competente e o trânsito é civilizado. E é difícil porque precisamos recondicionar os movimentos para dirigir do lado direito do carro e do lado esquerdo da estrada. Lá, o errado é o certo. O pior é trocar a marcha com a mão esquerda, já que praticamente não se encontram carros automáticos na terra da Rainha – acham muito americano, esse conforto.</p>
<p style="text-align: justify;">A bordo, eu e meu filho, em nossa semana anual de colocar as coisas em ordem e a conversa em dia. A seu pedido, optamos por uma viagem <em>easy ride</em>, o que não significa viajar sem destino, e sim ir definindo o destino durante a própria viagem – explicou ele. Em cada etapa se planeja a etapa seguinte, e dessa maneira se pode ter a segurança da viagem programada e o excitante sabor da aventura. Ao anoitecer chegamos a Salisburry, uma pequena vila distante cerca de 80 milhas de Londres, onde havíamos reservado pela Internet um quarto para passar a noite no Grasmere House, um hotelzinho de duzentos anos.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia seguinte visitaríamos Stonehenge, um lugar considerado sagrado. Estávamos excitados com essa expedição, provavelmente por motivos diferentes. Para mim era a oportunidade para vivenciar o mistério que cerca esse conjunto de pedras colocadas em círculo há mais de quarenta séculos. Para o Rodrigo significava conhecer o lugar sagrado dos celtas. Os jovens gostam dos celtas e são atraídos por lugares sagrados. E de nada adiantava lembrar que Stonehenge é pelo menos dois mil anos mais antiga que a cultura celta. O que importa é a mística do local.</p>
<p style="text-align: justify;">Acordamos cedo, tomamos o café-da-manhã inglês, composto por ovo frito, salsicha, bacon e feijão doce, servido por um simpático garçom húngaro, e rapidamente estávamos na estrada com destino certo: o passado. Conversávamos animados sobre história, sobre a diversidade de culturas e sobre as surpresas da vida quando, como que do nada, lá estava, bem à nossa frente, o círculo de pedras mais famoso do mundo. Stonehenge fica à margem direita de uma estrada movimentada, e não há como não vê-la, imponente, irradiando sua energia milenar.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente estávamos na mística Stonehenge mas, claro, estávamos também na organizada Inglaterra, portanto, era necessário encontrar o local adequado para estacionar o carro, ler as recomendações e chegar ao circuito pelo qual pode-se caminhar contornando o monumento. Primeira lição de um lugar sagrado: ele deve ser respeitado.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se é possível explicar a sensação de estar em um lugar como esse. Você é naturalmente levado à contemplação. Quer ficar quieto, apenas observando aquelas pedras que são testemunhas de 45 séculos. O mundo evoluiu, fez arte, ciência, guerras, descobrimentos, enquanto as pedras simplesmente ficaram em seu lugar, repousando em seu nicho, como que querendo mostrar que há, sim, valores permanentes. Pode não ser fácil descrever um lugar sagrado, mas percebe-se claramente quando se está em um.</p>
<p style="text-align: justify;">Observei as pessoas ao meu redor e verifiquei comportamentos de todos os tipos. Havia os que, nitidamente, realizavam contidas orações, alguns meditando isolados, e havia os deslumbrados, os japoneses fotografando, os aposentados passando tempo, alguns hippies tardios e até um druida moderno com cartazes anunciando a chegada de uma nova era. Locais sagrados são assim, atraem tribos diversas, todas em busca de algo – que pode ser paz, quietude, cultura, curiosidade ou até, quem sabe, sentido para a vida. </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O sentimento do sagrado deriva do próprio local ou ele deriva uso que se fez desse local?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os locais considerados sagrados exercem uma influência sobre as pessoas, normalmente descrita como um sentimento de paz interior. Eu senti isso em Stonehenge, como já senti em outros locais que tive a oportunidade de conhecer. E nunca procurei –importante esclarecer – teorizar sobre a origem desse sentimento, pois isso poderia estragar a magia da experiência. Não importa o quanto aquele local tem de energia própria e quanto de programação psicológica eu estava providenciando para mim mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Lugares sagrados são aqueles que, de alguma forma, colocam o homem em uma dimensão diferente daquela em que ele trava sua luta diária de sobrevivência. É uma espécie de recarregador de baterias, considerando que a energia que precisamos para viver não vem apenas dos carboidratos, mas também de fontes existenciais. O Homem é o único ser que padece da lógica que o leva a questionar a razão de sua própria existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Para que estamos aqui, afinal? Seriamos meros entrepostos de gens, destinados a participar do processo de sobrevivência de nossa espécie, e pronto? Não, ninguém gosta de aceitar essa premissa de natureza tão simples. A consciência deu ao Homem duas missões: a de se diferenciar na Natureza e de justificar sua própria existência através de suas ações. Tarefa difícil, essa de ser gente. Não é nada fácil explicar para si mesmo o sentido da vida e dar conta do recado de não ser mero participante da cadeia alimentar, entre o vegetal produtor e a bactéria decompositora.  </p>
<p style="text-align: justify;">Por isso os locais sagrados são importantes, porque eles nos conectam com aquilo que gostamos de chamar dimensão superior, de divino, ou simplesmente de Deus.  Na verdade, todos nós já temos essa dimensão divina no peito, mas sentimos que ela precisa ser plugada, de tempos em tempos, em uma tomada de energia divina externa a nós mesmos. Algo maior que o humano, que materializamos em forma de orações, cultos, ritos e locais sagrados.</p>
<p style="text-align: justify;">Os templos e outros tipos de locais sagrados são, na verdade, obras do homem, mas gostamos de atribuir à sua edificação uma ordem superior, e a seu local algum fato transcendental. Todas as religiões observam os locais de nascimento, de morte ou de pregação de seus profetas. Eles funcionam como portais para a dimensão superior que nos aguarda, e com a qual gostamos de nos conectar desde já com a finalidade de orientar nossa vida terrena.</p>
<p style="text-align: justify;">Portanto, locais sagrados são bons, úteis e necessários, e mesmo quem não curte a idéia da eternidade, não consegue se livrar da necessidade de paz interior. O que vai variar imensamente entre as pessoas é a qualidade desse local. Locais sagrados são, comumente, relacionados a locais de práticas religiosas, como igrejas e templos, mas essa ligação, ainda que comum, não é determinante nem definitiva. Em outras palavras, locais religiosos são sempre sagrados, mas locais sagrados não precisam ser necessariamente religiosos.   </p>
<p style="text-align: justify;">Que religião se professa em Stonehenge? Ora, nem sabemos se sua primeira utilidade foi ser um local de cultos. Pode ter sido um local de cura, de estudo ou de decisões políticas. A única coisa que sabemos é que se trata de um local que foi considerado especial ao longo de muito tempo. Pesquisas arqueológicas mostram que sua primeira edificação data de 3100 anos a.C., e que teve muitas outras épocas de reforma, reconstrução e modificação.</p>
<p style="text-align: justify;">E sabemos também que o nascer do sol no dia 21 de junho, o solstício de verão, cria, com a projeção de sua luz, uma avenida central no círculo de pedra. Essa observação dava ao homem a dimensão do tempo, lembrava a finitude da vida, marcava os ciclos de sua existência e o aproximava do divino. E, claro, poderia estar ligada apenas à marcação dos ciclos agrícolas. Transcendental ou pragmático, não importa, um local sagrado é sempre necessário. </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os locais sagrados são sempre locais de peregrinação e busca coletiva?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Local sagrado é aquele que nos conecta com uma dimensão maior do que a da prática cotidiana. Por isso os templos são também obras de arte, em que a arquitetura, a escultura e a pintura estão presentes, às vezes em doses espetaculares (basta entrar em uma igreja medieval), ou locais onde se pratica a música, seja o canto gregoriano ou pop evangélico moderno. A arte precisa estar presente porque ela é uma espécie de símbolo da possibilidade do Homem. O artista é o preposto de Deus tanto quanto o sacerdote. Mas, cuidado, pois há arte sagrada no cotidiano também, e só quem consegue perceber isso muda o patamar de sua vida prática. Nossos locais pessoais podem ser transformados em locais sagrados, e este foi o assunto que dominou a conversa com meu filho depois da visita a Stonehenge. Afinal – ponderamos – não é todo dia que se pode ir a um lugar como aquele para recarregar as baterias; então precisamos de outras fontes mais próximas. E elas existem, estão em nosso país, nossa cidade, em nosso bairro. Aliás, os locais sagrados são principalmente aqueles que nós mesmos construímos e neles colocamos nossa melhor parte.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha casa é um local sagrado, bem como meu trabalho, o parque onde passeio, a livraria que gosto de freqüentar, a academia onde cuido da saúde. Locais sagrados são aqueles em que trabalhamos, estudamos, produzimos, conversamos, amamos. Se esses lugares não forem sagrados, dificilmente o serão os templos e os sítios históricos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sagrada é a vida que vale a pena, que não compactua com o destrutivo, que não se contenta com o mínimo, que busca o excelente, que distribui compaixão, afeto livre, amor verdadeiro. Lugar sagrado é o próprio corpo, que merece cuidado; é a mente, que precisa do conhecimento; é a emoção, que precisa do belo. Lugar sagrado é o espaço ao nosso redor, que conquistamos com nossa própria energia, e que será tão maior quanto for nossa intensidade de viver. E Stonehenge é sagrado, sim, porque me ajudou a perceber tudo isso.</p>
<p style="text-align: left;"><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>Plano B, a missão</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Feb 2010 03:25:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Resolvemos passar o fim de semana acampando na serra do Mar, mais exatamente no pico do Marumbi. Éramos uma dezena de garotos, escoteiros do grupo Jorge Frassati em Curitiba. Todos já tínhamos dormido no mato muitas vezes, pois o acampamento é uma das principais atividades do escotismo, uma aventura que serve de metáfora da vida, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Resolvemos passar o fim de semana acampando na serra do Mar, mais exatamente no pico do Marumbi. Éramos uma dezena de garotos, escoteiros do grupo Jorge Frassati em Curitiba. Todos já tínhamos dormido no mato muitas vezes, pois o acampamento é uma das principais atividades do escotismo, uma aventura que serve de metáfora da vida, com seus dilemas e responsabilidades. Mas o acampamento era diferente: estávamos sem os uniformes, sem o lenço vermelho e branco no pescoço e, a melhor parte, sem o chefe. Era um acampamento “extraoficial”.</p>
<p>Chegamos ao pé da montanha levados pelo trem que liga Curitiba a Paranaguá, uma obra espetacular de engenharia que atrai turistas, curiosos e especialistas. Iniciamos a aventura da montanha em direção ao local de acampamento, que fica num platô a cerca de dois terços da subida. No dia seguinte chegaríamos ao topo, escalando um paredão de baixa dificuldade. Só que havia chovido e a caminhada era penosa, entremeada por escorregões e quedas. Nós estávamos acostumados a caminhar na mata, só que naquele dia foi diferente.</p>
<p>Alguém havia tido a brilhante ideia de reunir todos os mantimentos e colocá-los na mesma mochila. O José Carlos (acho que esse era seu nome) ficou responsável por transportá-la, e ele simplesmente escorregou nas folhas molhadas do caminho e perdeu a mochila cheia de macarrão, comida enlatada, pão, linguiça, leite, café e a única caixa de fósforos que tínhamos. “Vamos encontrá-la”, disse alguém, e iniciamos uma missão malsucedida de resgate da mochila, até que percebemos que estava anoitecendo.</p>
<p>A solução foi continuar a subida antes que nos perdêssemos na densa noite. Na manhã seguinte, uma patrulha de três ou quatro desceu ao ponto do acidente, só para concluir que a mochila havia caído em uma fenda e se perdido para todo o sempre. Recebemos a notícia com o estômago roncando. O mais prudente era cancelar a escalada até o topo e iniciar a descida em direção à estação de trem. Foi o que fizemos, mas, quando lá chegamos, descobrimos que o comboio só passaria por ali no fim da tarde. Tudo que conseguimos comer naquele dia foi palmito encontrado na mata. Mastigávamos o miolo até que ficasse pastoso, então engolíamos. Até hoje lembro seu sabor sem graça, e essa lembrança me estimula a pensar sobre a importância de se ter uma boa estratégia antes de embarcar em uma aventura qualquer.</p>
<p>Se a estratégia falha A estratégia é o conjunto de medidas necessárias para conciliar a situação presente com o futuro desejado. Vários especialistas discutem esse assunto. Um deles é Henry Mintzberg, professor e autor de textos sobre gestão. Em seu livro Safári de Estratégia, Mintzberg faz uma revisão de todas as escolas de estratégia que existem e analisa suas melhores aplicações. Logo no começo, após dar as principais definições, ele deixa claro que não há estratégias perfeitas e que, com muita frequência, é necessário comparar a estratégia pretendida com a estratégia realizada. A rigor, a realizada é a pretendida após as correções necessárias, efetuadas durante sua aplicação. A melhor estratégia, de acordo com essa visão, é aquela que permite modificações durante o trajeto. Isso significa que um bom plano deve permitir a criação de tantos planos acessórios e complementares quantos forem necessários para que o objetivo seja atingido. Na vida prática, não dá para a gente ficar fazendo coisas sem ter planejado. Não importa se você está montando uma empresa, planejando as férias, elaborando sua pesquisa de mestrado ou organizando um churrasco para seus amigos. Sem planejar os passos, você vai gastar mais energia que o necessário, além de ter uma grande chance de não conseguir realizar seus propósitos. E, mesmo planejando, muita coisa vai dar errado, pois o número de variáveis envolvidas em uma atividade humana é imenso.</p>
<p>Aquela aventura na montanha foi um bom exemplo disso. Na semana seguinte, em reunião com o chefe do grupo escoteiro, após relatarmos o episódio, ele nos olhou com firmeza e perguntou: “Por que vocês não acionaram o plano B?” Hein?! Que plano B? Do que é que ele estava falando, afinal de contas?</p>
<p>Então o chefe iniciou uma detalhada preleção sobre organização de acampamentos e expedições. Ele nos fez lembrar que, em outras ocasiões sob seu comando, quando alguma coisa não dava certo, ele sempre tinha uma alternativa na manga. Olhando no fundo do olho de cada um de nós, adolescentes sabidos, ele ensinou: “Você não pode entrar em uma aventura sem considerar que alguma coisa pode dar errado, e, acredite, alguma coisa vai dar errado. Se você não tiver uma coleção de planos B, vai acabar se machucando”.</p>
<p>O chefe escoteiro tinha razão. Por que concentramos toda a comida em uma só mochila? Por que só tínhamos uma caixa de fósforos? Por que havia só um responsável pelos suprimentos? Pois é, a imprudência nos custou fome e medo. Pelo menos, nos valeu aprendizado. Até hoje eu lembro aquele dia, pois aprendi que viver nada mais é que uma grande aventura – e que as coisas podem dar errado. Nós sempre precisamos de planos B. E o problema de muita gente é que eles não têm sequer um plano A.</p>
<p>Contra o insucesso Na vida prática também temos que aplicar inteligência estratégica. Às vezes fazemos isso intuitivamente, outras vezes percebemos que falhamos, ainda que tenhamos tendência em negar o fato. Sim, é mais fácil transferir a responsabilidade dos insucessos para outros, para o mau tempo, para a crise, para o azar, e por aí vai. Na maiorias das vezes, o que faltou foi uma boa estratégia. E, mesmo quando temos a melhor estratégia, corremos o risco de precisar de outra, pois um pequeno detalhe pode pôr tudo a perder. Um bom exemplo disso foi a expedição da nave Apollo 13. O dia era 11 de abril de 1970. Três pilotos experimentados da Força Aérea americana estavam a bordo da nave com um objetivo bem definido: chegar à Lua. Era a terceira missão tripulada em direção a nosso satélite, e os astronautas James, Fred e John estavam confiantes, até porque contavam com a experiência das missões anteriores. A Nasa tinha obsessão por segurança e, claro, concentrava seus esforços nas etapas mais complexas da viagem, como o lançamento da Terra, a entrada na órbita lunar, a nova decolagem e a entrada na atmosfera terrestre. Esses eram os momentos críticos, mas – sempre tem um “mas” – o irônico dessa história é que foi durante a travessia, fase considerada tranquila e mais segura, que algo de errado aconteceu. Uma mudança quase insignificante no projeto do tanque de oxigênio do módulo de serviço provocou um superaquecimento que resultou em explosão. Logo depois, o comandante James Lovell pronunciou por rádio a frase que iria entrar para a história do século 20: “Houston, temos um problema”.</p>
<p>Esse acidente não comprometeu a sobrevivência imediata dos astronautas, mas estava claro que o pouso na Lua deveria ser cancelado. Iniciaram-se as providências de trazer a nave de volta, e isso significou um imenso exercício de revisão de todas as variáveis que estão envolvidas em uma aventura tão complexa. Foi necessário o desenho imediato de um plano B, e este só foi possível porque a nave contava com bons suprimentos e porque o acidente aconteceu na ida, sem as rochas que eles trariam na volta. O esforço, entretanto, não foi pequeno, e mobilizou um pequeno exército de técnicos e cientistas em Cabo Canaveral. Gene Kranz, o chefe das operações, deu a sua equipe sua visão dos fatos, e acabou cunhando outra frase memorável: “Fracassar não é uma opção”, disse, definindo o espírito da equipe. Após chegar à Lua e dar uma volta nela a fim de usar sua gravidade para colocá-los no rumo certo, os três homens voltaram para casa, economizando água, oxigênio e energia, com muitos quilos a menos, desidratados, quase congelados, porém vivos.</p>
<p>A Lei de Murphy Aliás, foi exatamente um engenheiro do Instituto de Tecnologia da Força Aérea dos Estados Unidos que emitiu a sentença final sobre a importância dos planos B. Seu nome era Edward Murphy e ele coordenava os estudos sobre os efeitos da desaceleração sobre o corpo dos pilotos de caças. Em uma das experiências, um de seus auxiliares cometeu um erro que prejudicou o registro das reações do piloto testado, o que quase o matou. Mas Murphy intuiu o erro e interrompeu o teste, depois dizendo, referindo-se a seu auxiliar: “Se existe uma maneira de fazer errado, ele certamente a fará”. A frase depois foi generalizada por: “Se existe alguma chance de algo dar errado, dará”. Ganhou o mundo e hoje é conhecida pelo nome de “Lei de Murphy”.</p>
<p>Já se disse que viver é uma aventura, e a vida é bela justamente por seu caráter imprevisível. Viver intensamente é retirar da vida tudo o que ela tem para oferecer, o que não é pouco, mas sem um bom plano é melhor nem sair de casa. E, como já vimos, um bom plano é aquele que considera a possibilidade de uma alteração, ou mais de uma. Sim, a vida é imprevisível, e é cada vez mais. E é bom que estejamos preparados para isso. Sempre.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: <a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank">www.revistavidasimples.com.br</a></em></p>
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