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	<title>Sapiens Sapiens &#187; amor</title>
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		<title>De bem com a vida</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 14:26:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
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		<description><![CDATA[“Cuidado, a vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada embaixo: Deus! e com firma reconhecida”.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A frase acima só podia ser de um poeta transgressor como Vinícius de Moraes. É uma das partes faladas do Samba da Benção que ele compôs e Baden Powell musicou. Enaltecendo a beleza do samba e a aventura do amor, ele fala mesmo, em seus versos, da arte de viver. Pede benção aos amigos e diz que já viajou muitas canções, mas que ainda há muitas para viajar.</p>
<p style="text-align: justify;">Os versos de nosso “poetinha” resumem como poucos a dupla função da poesia composta por beleza e verdade: agrada os sentidos e faz pensar. “Cuidado, a vida é pra valer”, não é algo a ser desperdiçado, até porque “Não se engane não, tem uma só”. Por isso temos que estar de bem com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Estar de bem com a vida. Este é um tema que ultrapassa o terreno estéril das frases de efeito e chega ao território fecundo da filosofia. &#8220;Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão”, disse Nietzsche, para depois admitir que invejava a leveza desses seres. “Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arrancam lágrimas e canções”, completou. Pois até o mal humorado filosofo alemão admitiu que há virtude em se buscar a paz com o viver.   </p>
<p style="text-align: justify;">E o que é estar de bem com a vida senão a capacidade de manter um estado de alegria a despeito das vicissitudes da própria? É claro que a vida é dura, injusta e muitas vezes cruel. Todos sofremos com a perdas e com as angústias próprias do viver, mas não é disso que estamos falando. As condições externas influem, sim, mas o tema aqui é o estado da alma.    </p>
<p style="text-align: justify;">Não me agrada o discurso fácil da auto ajuda que insiste que você tem a obrigação de ser feliz. Não, felicidade não é uma obrigação nem uma competência. Não é uma alienação. Felicidade nem sequer é um estado definitivo, e, com certeza não é um lugar onde se pode chegar. Por outro lado, não me agrada também a condição das “vítimas do sistema”, que se orgulham de sua amargura e a exibem como um troféu conquistado.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheço pessoas que souberam lidar bem com as dificuldades naturais de suas existências e conheço outras que se transformaram em vítimas tristes nas mesmas condições. É claro que há situações de extrema dificuldade, e negar a tristeza que vem junto é negar a própria condição humana. Mas esta não é a questão. Não me refiro às tragédias, e sim às dificuldades corriqueiras, que impregnam nosso cotidiano como o musgo na face sul do tronco das árvores, e que podem, com o tempo, apagar o brilho de viver. A menos que não se deixe que isso aconteça.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei pessoas de bem com a vida nas grandes cidades, trabalhando em imensas corporações. Encontrei também em pequenas vilas do interior ou do litoral. Em lugares pobres e em lugares ricos. Em tempos de tranquilidade e em tempos de crise. Ou seja, em todos os lugares. E também encontrei pessoas de mal com a vida. Onde? Exatamente nos mesmos lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Este talvez seja um dos grandes mistérios da psicologia humana. O que faz a diferença entre esses dois tipos de indivíduos? Será sua genética ou terá sido sua educação?       </p>
<p style="text-align: justify;">Lembro de meus colegas de colégio. Estávamos todos naquela fase de definir o futuro, de escolher a faculdade, de sonhar com o sucesso. Eu, por exemplo, já tinha me decidido: queria ser médico. E também queria ser rico, famoso, comprar um carrão, viajar bastante e ter um monte de namoradas, claro. Afinal, éramos todos adolescentes, cheios de espinhas e de sonhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia ali os futuros engenheiros, advogados, empresários, e até um diplomata.  E havia Fabinho. Ele não tinha planos grandiosos, não queria ficar rico nem famoso. Quando alguém lhe perguntava o que queria ser na vida ele respondia com um sorriso: “Eu quero ser feliz”. E eu via sinceridade em sua afirmação.</p>
<p style="text-align: justify;">O Fabinho era desses garotos raros que, ao contrário da maioria, não parecia estar em guerra contra o mundo. Não tinha inimigos, não se “empatotava” para odiar a outra “patota”. Não se queixava das exigências dos professores nem da dureza das provas, que, aliás, ele tirava de letra.</p>
<p style="text-align: justify;">Fabinho não era rico, nem bonito, nem atleta talentoso. Ele era como a maioria, com virtudes e fragilidades. Era como eu, só que ele tinha algo que lhe era singular. Ele parecia estar de bem com a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei, como já disse muitos Fabinhos pela vida afora, como também encontrei seus opostos, os amargurados crônicos. Qual o segredo? Não sei, mas, pra começo de conversa, estou certo de que não existe uma fórmula para ser feliz, e se existir, ainda que seja apenas uma pista, com certeza ela é pessoal e intransferível, pois felicidade é um conceito concebido individualmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto pessoas de bem com a vida têm, sim, algo a nos ensinar. A primeira lição é que elas não caem na armadilha fácil da felicidade imediata, aquela que é confundida com o prazer descartável, nem transformam a felicidade em um eterno projeto futuro. Gente de bem com a vida percebe que felicidade é um estado interior que não precisa ser prejudicado pelo que acontece fora de nós, e também se dá conta que, se a única coisa que existe de fato é o presente, o futuro vai virar presente e, quando isso acontecer, ele será tão melhor ou tão pior dependendo das providências que tomarmos no presente atual.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um quê de sabedoria nessa postura, e um monte de inteligência aplicada ao bem viver, pois, em síntese, quer dizer que temos que viver o presente com um olho posto no futuro, aproveitar cada instante como se fosse único e, ao mesmo tempo, organizar-se para o dia de amanhã para não ser tomado de assalto por notícias ruins nas esquinas da vida. Então é isso, estar de bem com o tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, espere um pouco, tem mais. É necessário equipar-se com alguns artigos de primeira necessidade para alimentar a felicidade, nada muito complicado, acredite. Algumas coisas são óbvias, mas invisíveis como o ar, que só é percebido quando falta. A saúde, por exemplo. Então é melhor cuidar da dita cuja, pois não dá pra ser feliz e doente ao mesmo tempo, e não importa a fase da vida. O mesmo se dá com a grana, a bufunfa, o tal do dinheiro. É parecido com o ar e a saúde, só damos valor quando falta. O ditado popular insiste, há séculos, que dinheiro não traz felicidade. Estou inclinado em acreditar nisso até certo ponto, pois se o dinheiro não te faz feliz, a falta dele, provavelmente, vai te tirar o sono e prejudicar sensivelmente a felicidade interna bruta.</p>
<p style="text-align: justify;">Resolvidos os requisitos básicos, que atrapalham a busca da felicidade se estiverem ausentes, é hora de cuidar dos ingredientes da verdadeira felicidade, aquela que dá gosto de sentir. E eles são pelo menos três: o que fazemos para viver, como gastamos nosso tempo livre e, talvez o mais importante, com quem compartilhamos tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;">O que fazemos para viver, evidentemente, é nosso trabalho. Ele nos dá o sustento e a dignidade, mas pode nos dar mais, pode dar o verdadeiro sentido da vida. Todos os trabalhos são dignos, mas temos que ouvir nossa vocação e perceber o significado daquilo que fazemos. Assim teremos, não só um trabalho, mas uma carreira; e não realizaremos apenas tarefas, mas causas. Não acho que alguém, para quem o trabalho seja um peso, possa ser feliz de fato. Você se contentaria em ser feliz só depois do expediente e, ainda por cima, odiar a vinheta do Fantástico, que é o prenúncio da segunda feira?</p>
<p style="text-align: justify;">Cuidar do tempo livre é ter disposição para se divertir. O prazer, a alegria, a diversão são tão importantes quanto seu trabalho ou o estudo. É desse equilíbrio que sai o caldo de cultura que vai alimentar a felicidade. E curtir a vida tem mais uma vantagem: quando você ficar velho terá boas lembranças como lenitivo para a vida mais recolhida.</p>
<p style="text-align: justify;">Por último, mas muito longe de ser menos importante, as relações humanas. Geneticamente não estamos preparados para a solidão, que só é boa quando é por opção, e, ainda assim, por pouco tempo. Ter amigos, curtir a família, cultivar boas relações com seus colegas de trabalhos e vizinhos do condomínio. As boas relações nos fazem felizes sim, alimentam nosso espírito gregário, nos fazem perceber que somos queridos, geram autoestima.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, é bom que se diga, há uma relação humana especial, que tem um imenso poder de agregar felicidade, que transforma silêncio em música, folha em flor, distância em saudades, toque em sedução, sorriso em esperança. Estou falando da pessoa especial que está a seu lado, seu companheiro, sua companheira de jornada. Estou falando do amor verdadeiro, que existe, sim, e é bom, muito bom.</p>
<p style="text-align: justify;">Não conheço os detalhes da vida do Fabinho, mas quem me fala sobre ele relata que ele tem andado por aí com aquela cara que só os apaixonados têm, um misto de paz e entusiasmo, a combinação pra lá de perfeita. No fundo, no fundo, não é difícil ser feliz, mas dá um certo trabalhinho cuidar desses detalhes. E o fator acaso? Existe, afinal? Claro que existe, mas seu potencial para gerar felicidade é diretamente proporcional à atenção e inversamente proporcional ao descaso.</p>
<p style="text-align: justify;">Já se disse que o acaso tem sempre a última palavra. Mas podemos rever esse conceito, afinal, a última palavra pode estar com cada um de nós, e é dita por aquilo que fazemos com o que o acaso fez conosco.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>Amorosidade</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Jun 2010 17:58:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Dizem que falta amorosidade entre as pessoas nos dias de hoje. O que exatamente significa isso? Não seria o mesmo que sentir amor pelo próximo? ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Há dois tipos de pessoas no mundo. As que vivem em estado de egoísmo e as que vivem em estado de amor.</p>
<p>Faz muito tempo que eu escutei esta ponderação de uma pessoa muito amorosa, inteligente e uma pianista excepcional: a professora Adelaide Moritz, minha mestra na música e na vida. Nunca me esqueci de sua análise por dois motivos: porque ao colocar “estado de” antes dos substantivos egoísmo e amor, ela criou uma nova classificação da condição humana; e porque ela qualificou o egoísmo como o antônimo de amor, e não o ódio, como seria de esperar.</p>
<p>E ela fez isso porque não se referia ao amor em si, e sim à condição de amar como um jeito de ser. É quase uma filosofia viver em estado de amor, o mesmo que estar conectado com o mundo por um cordão de luz, que ilumina as relações e as torna sempre agradáveis, independente de serem afetivas, familiares, profissionais ou circunstanciais.</p>
<p>Por outro lado, viver em estado de egoísmo seria o mesmo que criar um cordão de isolamento que afasta as pessoas e condena seu “usuário” a uma vida pobre de espírito e curta de esperança. Viver em egoísmo significa querer só para si, não compartilhar, desconsiderar as necessidades e os sentimentos alheios. Ser um habitante do estado de egoísmo é o mesmo que declarar guerra ao mundo, usando como armas as palavras duras, a desconfiança permanente, o desrespeito latente.</p>
<p>Todos conhecemos pessoas dos dois tipos, mas vou falar aqui do primeiro jeito de ser, claro. Das pessoas que, por índole e por opção vivem em amorosidade, o que não significa que não possam ser duras se isso for necessário para reinstalar a ordem no mundo ao seu redor. Lembro que a professora Adelaide era amada por seus alunos até quando, exigente, mostrava que não estava satisfeita com o desempenho deles. Pessoas amorosas são assim, são amadas porque são amorosas e são amorosas porque não têm medo de ser amadas. Há quem diga que amar é fácil e que ser amado é difícil. Os verdadeiramente amorosos deixam aberto o caminho nos dois sentidos.</p>
<p>Mas é importante esclarecer que ser digno de amor não é ser bonzinho, certinho, modesto e gentil para fazer amigos e influenciar pessoas. Isso é ser polido, amável. “A polidez, é um simu­lacro da moral”, explica o filosofo André Comte-Sponville, que se deu ao trabalho de escrever o <em>Pequeno Tratado das Grandes Virtudes</em>. Ele afirma que agir de modo amável não é ser amoroso, mas é um bom começo. A esperança é que da polidez surja o nobre sentimento, mas nada é certo. Ao preencher o amor que lhe falta, por hábito ou por educação, a moralidade pode virar amorosidade, o seu estado mais alto. Ao atingir esse auge as virtudes se dissolvem e viram uma só, passando a ser praticadas sem artifício, ao natural, <em>com açúcar, com afeto</em>, com amor verdadeiro.</p>
<p>Segundo esta visão, viver em estado de amor pode ser uma opção, algo que pode ser desenvolvido conscientemente, uma atitude que começa na mente e acaba instalando no coração um novo jeito de ser. E o mundo agradece por isso.</p>
<p><strong>A amorosidade seria uma das manifestações da capacidade humana de amar?</strong></p>
<p>Amorosidade não é amor, é um hábito de quem é capaz de amar. Mas, para isso, é necessário viver o amor em si, o que dá mais trabalho do que parece, pois há mais de um tipo de amor, e só seremos completos quando visitarmos a todos. Para melhor entendimento sempre podemos beber da fonte segura do mundo grego antigo, simples e coerente, e reduzir a es­sência do amor a três tons primários: E<em>ros, Philia </em>e<em> Ágape. </em></p>
<p>O mais primitivo tipo de amor seria erótico. Egoísta, incompleto, é uma espécie de desejo pela falta. A palavra vem de <em>Eros</em>, deus do amor, fruto da união de Pênia, a penúria, com Poros, o faustoso. Filho pobre, sujo, sem sapato, sem teto e sempre faminto, herda do pai a atração pelo belo e pelo bom; é sagaz, caçador, e está sempre a maquinar planos e a desejar mais e mais. <em></em></p>
<p>Eros nasceu de um golpe de Pênia, dado enquanto Poros dormia embriagado após a festa de nas­cimento da deusa Afrodite. A deusa da penúria quis aliviar sua condição miserável tendo um filho com o senhor da riqueza, e assim concebeu <em>Eros</em>. Desde cedo ele viveu sob intensa atração ao belo, mas oscilando entre os extremos, pois era pobre porque não possuía nada e era rico porque guardava recur­sos potenciais para gerar novas vidas. <em>Eros </em>quer sempre mais, cobiça sair de si mesmo, corre sempre atrás do saber, da beleza, da fertilidade. É angustiado e insaciável.</p>
<p>Sendo a forma mais embusteira dentre todos os amores, o amor erótico geralmente consuma-se pelo contato sexual. “Na verdade, o amor delas [pessoas apaixona­das] é um egoísmo a dois; elas são duas pessoas que se identificam uma com a outra e resolvem o problema do estado de separação pelo encontro erótico”, diz o psicanalista Erich Fromm. Amor sedento que busca embriagar-se mesmo quando já saciado, ele é feito ausência cheia de vácuo; está sempre à es­preita de alguma completude inacabada, vazia. Assim é <em>Eros</em>.</p>
<p>Apesar de necessário e próprio de nossa condição de humanos incompletos, Eros não representa a amorosidade, apesar de poder ser parte dela como gerador de vida. Este estado começa – sim, apenas começa – a se manifestar através do segundo modelo, o amor <em>Philia</em>, que é fraternal, companheiro. Menos estimulado pela posse, este tipo de sentimento cristaliza-se pela amizade, e seu prazer deriva do simples ato de estar junto, de compartilhar momentos. <em>Philia </em>se alimenta da conversa, do cuidado, da alegria, do compartilhamento. É generoso, mas tem lá seu lado egoísta, apesar de se manifestar como altruísta, uma vez que se coloca sempre a serviço do outro. Seu egoísmo deriva do fato de que ao servir ao amigo sente prazer, por isso serve.</p>
<p>De Philia surgiram nomes, como filosofia, que significa o amor à sabedoria, ao conhecimento, e em zoologia, o estudo dos animais, usa-se a palavra filo para designar grandes grupos de espécies que têm afinidades entre si. Nós humanos, por exemplo, pertencemos ao filo dos vertebrados, porque, assim como os peixes, as aves, os répteis e os outros mamíferos, temos uma coluna vertebral. Pois é, até a ciência foi buscar inspiração nos mitos gregos para explicar suas conclusões.</p>
<p>Bem acima dessas coisas mundanas, como erotismo e amizade, encontramos o amor <em>Ágape</em>, que eleva ao amor a um estado divino, imaculado. Na verdade, ele vai além do amor, é universal, sem predileção nem eleição, é inteiramente desinteressado. Não é paixão nem amizade, mas divino, criador. É ele que dá valor ao que não tem nen­hum valor em si mesmo. Ele não precifica capacidades, concede-as. É a aceit­ação invariável do outro, seja ele quem for, amigo, inimigo ou indiferente.</p>
<p>Quem vive em estado de amor e tem amorosidade como filosofia, experimenta o amor Ágape todos os dias. Este é um tema que não escapou aos filósofos, o que se explica por sua importância. “Na essência, todos os seres humanos são idênticos. Na verdade, somos todos parte do Um”, conclui Erich Fromm, para explicar a amorosidade. “Ser amado precede a graça de amar e prepara o estado de amor” pensa Comte para explicar a origem de tudo.</p>
<p>Platão, em <em>Banquete</em>, põe à mesa duas soluções para explicar a amorosidade: como não podemos fugir de nossa incompletude, temos que direcionar o nosso amor para outros corpos e gerar filhos; ou então ex­pressá-lo por meio da arte, política, poética, ciências, filosofias ou o que for, sempre dando prioridade especial ao belo. “Seguir o amor sem nele se perder, obedecer a ele sem nele se encerrar é transpor umas depois das outras as gradações do amor: amar primeiro um só corpo, por sua beleza, depois todos os corpos belos, depois a beleza lhes é comum, depois a beleza das almas, que é superior à dos corpos, depois a beleza que está nas ações e nas leis, depois a beleza que está nas ciências, enfim, a beleza absoluta, eterna, sobrenatural, a do Belo em si, que existe em si mesmo, de todas as belas coisas que participam, de que proce­dem e recebem sua beleza&#8230;”.</p>
<p><strong>Então ser amoroso é ter capacidade de amar pelo amor em si, sem contrapartida, sem interesse, sem posse, assim como uma mãe ama seu filho?</strong></p>
<p>A amorosidade está presente nas relações familiares, mas extrapola este limite e transborda para o mundo humano melhorando as relações. Entre os membros da família, notadamente entre a mãe e o filho a amorosidade ganha profundos contornos de Ágape, mas muitas vezes se perde nesse caminho, pois Ágape pressupõe a não posse, e este é um sentimento que a mãe tem que se esforçar muito para não desenvolver.</p>
<p>Todas as mães amam, mas há mães amorosas e mães possessivas. A amorosa sabe que seu filho nasceu dela, mas não lhe pertence de verdade, prepara o filho para a vida e prepara-se pela deixá-lo partir e viver sua condição de indivíduo, com suas virtudes e defeitos, conhecendo conquistas e riscos. A mãe possessiva é egoísta e controladora. Ela exige amor e entrega porque ama e se entrega. Mas amorosidade não é isso, não é moeda de troca nem objeto a ser compartilhado. O amoroso, ao contrário, é libertário, não retém, não exige, não controla.</p>
<p>Amorosidade é uma condição humana elevada, aproxima as pessoas do conjunto de virtudes, pois nela estão incluídos o cuidado, o respeito, a confiança. A amorosidade é bela, boa e verdadeira. Se Eros, Philia e Ágape são deuses que personificam o amor, a amorosidade é a qualidade que eleva os humanos à condição de deuses. E o amor da mãe é o começo desse treino para sermos divindades, pois é o primeiro, o maior, o mais puro e completo. Só não pode ser egoísta, pois assim perderia a qualidade de produzir amorosidade, uma vez que nesta, encontramos também a liberdade, valor maior e insubstituível.</p>
<p>Assim, concluímos, se amorosidade não é amor, é por ele fertilizada e, ao fazer isso, gera uma sublime possibilidade humana: a de construir a paz, esta insubstituível condição para a felicidade.</p>
<h4><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: </em><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></h4>
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		<title>Atenção aos Filhos</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Feb 2010 03:35:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O educador Paulo Freire dizia que tinha aprendido a ler antes de aprender a ler. É que, antes de “ler as letras”, ele já sabia “ler o mundo”. “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, e a posterior leitura desta não pode prescindir da continuidade da leitura daquele”, escreveu. Na visão do mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O educador Paulo Freire dizia que tinha aprendido a ler antes de aprender a ler. É que, antes de “ler as letras”, ele já sabia “ler o mundo”. “A leitura do mundo precede a leitura da palavra, e a posterior leitura desta não pode prescindir da continuidade da leitura daquele”, escreveu. Na visão do mais importante educador brasileiro, quem não aprende a interpretar o que o mundo ao seu redor tem a dizer terá muita dificuldade em compreender o que as palavras impressas em um livro querem transmitir.</p>
<p>Portanto, primeiro aprendemos várias outras linguagens antes de nos aventurarmos na linguagem escrita. E essa primeira leitura quem nos ensina é a família, o lar a que nos foi dado pertencer. Há imensa beleza na descrição que o velho mestre faz de sua infância e do convívio familiar: “Me vejo na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para os riscos e aventuras maiores da vida que eu iria viver”. E continua: “A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão – o sítio de avencas de minha mãe –, o quintal amplo em que se achava, tudo isso foi meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus em pé, andei, falei. De todas essas coisas eu tirava a compreensão e eu ia aprendendo no meu trato com elas, e nas minhas relações com meus irmãos mais velhos, com minha mãe e meu pai, e até com os gatos da família – a sua maneira manhosa de enroscarem- se nas pernas da gente, com seus miados de súplica ou de raiva”.</p>
<p>Essas frases foram retiradas de um texto do Paulo Freire em que ele se refere à importância da família na formação do caráter e da competência social e produtiva dos jovens. Para muitos, a família é a célula principal que forma o tecido social, e seu grau de organização e saúde irá determinar o grau de organização e saúde da sociedade como um todo. Para alguns, a família é apenas uma idéia burguesa do núcleo conjugal que visa apenas a continuidade dos negócios e do patrimônio através da herança. Para Paulo Freire, é o lugar onde começamos a fazer a leitura do mundo, e o ambiente que irá contribuir decisivamente no nosso caráter e no nosso destino. Prefiro Paulo Freire.</p>
<p>A família-equipe</p>
<p>A reflexão à qual o texto do educador nos leva é sobre o fato de que a responsabilidade dos pais vai muito além de prover alimentação, segurança, educação, saúde. Os pais ensinam seus filhos a ler o mundo. E a dúvida que nos atinge com a força de um cruzado de direita é: afinal, como é mesmo que se faz isso?</p>
<p>A sociedade pós-guerra, e a contemporânea em particular, desenvolveu características novas, nunca antes presenciadas pela humanidade, em toda sua história, e que nos mostram que a família já não é mais o que era. A mãe está trabalhando, virou profi ssional, tem projetos próprios. O pai trabalha muito, não pode parar de estudar, fica muito tempo fora de casa. Os filhos têm de cumprir uma agenda que inclui muitas coisas além do colégio. Está armado o cenário para a proliferação da angústia do “será que estou fazendo a coisa certa?”, que assola o coração dos pais de hoje.</p>
<p>Eu, pessoalmente, me identifico com quem confessa essa angústia por não ter mais tempo de ficar com os filhos pequenos, ouvinvida do suas dúvidas, lendo histórias, apoiando as primeiras iniciativas, entendendo seus dilemas. Eu vivi esse capítulo intensamente. E aprendi a duras penas – pai inexperiente que era – que o lar é o primeiro mundo em que uma criança vive, e o que irá encontrar depois lá fora pode significar um grande perigo se, em seu primeiro ambiente, ela não recebeu sinais da realidade, ainda que atenuados.</p>
<p>É em casa que as crianças começam a formar seu sistema imunológico contra as frustrações da vida. A escola é a segunda instância, a família é a primeira. Coisas como autoestima, autoconfiança, responsabilidade, respeito, curiosidade, determinação e autonomia não se aprendem nos livros – se desenvolvem na prática, através de estímulos e exemplos. E são justamente essas coisas que definem a qualidade de uma pessoa, mais do que seu conhecimento teórico. Estudar é bom, aprender é melhor. E o aprender ultrapassa o estudar porque inclui o vivenciar.</p>
<p>Se a família é uma espécie de equipe, cada um tem suas tarefas, suas responsabilidades, papéis a representar. E isso exige, sim, atenção, preparo e organização dos pais, os líderes naturais. Definir horários para o convívio familiar não desmerece a relação, como se pensa, antes a engrandece, pois demonstra a importância que se dá à família. O trabalho é importante, claro, mas a família é fundamental. Por que destinar à família as sobras do tempo? Terá o convívio com os seus menos valor do que com os outros?</p>
<p>Pessoas produtivas são aquelas que aproveitam bem seu tempo, gerenciam com competência seus horários e dessa forma conseguem atender a mais compromissos do que os “perdidos no tempo”, que são, infelizmente, muitos.</p>
<p>E há mais uma premissa básica: podemos avaliar as relações levando em conta o critério de quantidade, mas também podemos fazê-lo baseados na qualidade. Em outras palavras, mais importante do que dedicar muito tempo aos filhos, é dar-lhes um convívio bom, intenso, belo. Em uma escola infantil, a professora provocou seu aluninhos com a seguinte questão: “Quando é que você gosta mais de seu pai?” A maioria das crianças respondeu algo como “Quando ele me leva para passear”. Um garoto, entretanto, disse: “Gosto mais dele quando está inteiro ao meu lado”. Esse garoto sabia o que estava dizendo.</p>
<p>Estar inteiro ao seu lado significa, para a criança, que o pai não está, ao mesmo tempo, lendo o jornal, assistindo a televisão ou conversando com mais alguém. Nesses casos, ela passa a representar um mero papel de coadjuvante, ela sente que não tem importância e pode até ser um estorvo. Estar inteiro significa olhar nos olhos, escutar de verdade suas palavras, responder com cuidado a suas indagações. Estar inteiro significa ser honesto, verdadeiro, coerente. É melhor ser um pai inteiro por uma hora do que um pai parcial por dez.</p>
<p>Lições da natureza</p>
<p>Vem dos biólogos uma informação muito interessante: a espécie humana é a mais frágil entre todas as de nosso planeta. Nós não somos fortes nem velozes e também não dispomos de equipamentos de ataque e defesa, como garras aguçadas e caninos salientes. Não somos numerosos se comparados com os insetos, por exemplo, nem temos carapaças de proteção como os caranguejos e os caracóis.</p>
<p>Mesmo assim, conseguimos o domínio sobre as outras espécies e o controle da natureza (melhor seria dizer descontrole, eu sei). O que nos permitiu essa proeza, mesmo sendo uma espécie desprovida de equipamentos anatômicos de sobrevivência? O cérebro, claro – além do polegar opositor, que nos permite manipular objetos. Um cérebro altamente desenvolvido, como o nosso, possibilitou a confecção de ferramentas e o desenvolvimento de estratégias de sobrevivência e domínio. O resto é história.</p>
<p>Mas não foi só pela parte lógica que o cérebro nos ajudou. Também pelo sistema límbico, o componente neurológico pelo qual nós experimentamos sentimentos e emoções, somos capazes de amar, sentir saudades, ciúme, raiva, medo, prazer, inveja, ambição. E essa parte foi a responsável pela forte tendência humana de formar grupos, de se aglutinar e, dessa maneira, aumentar sua chance de sobrevivência e controle do meio ambiente. E o primeiro desses grupos foi a família.</p>
<p>Os humanos formam a espécie em que os filhos ficam mais tempo em contato com seus pais, o que, aliado à capacidade de pensar, ter memória e dominar o conceito do tempo, criou um sistema em que uma geração passa à próxima todo o seu conhecimento. Uma tartaruga quando nasce é igual a outra que nasceu milhões de anos atrás, pois a tartaruga mãe e a tartaruga pai só passam para seus rebentos uma carga genética. Em nosso caso, além da carga genética, os pais entregam para seus filhos a carga cultural que eles aprenderam com a geração dos avós, que, por sua vez, aprenderam com seus pais, e assim por diante. A essa linha criada pelas gerações encadeadas damos o nome de civilização. Que dependeu da capacidade que o ser humano tem de amar e cuidar dos filhos e ensinar-lhes coisas.</p>
<p>Sim, ter filhos é um projeto da natureza, mas é também um projeto da sociedade e de cada um de nós. E projetos requerem atenção, lógica, inteligência, amor. Ensinar nossos filhos a “ler o mundo” é o que eles esperam de nós, além de se sentirem amados, claro. Somos diferentes das outras espécies. Somos provedores de sentimentos e conhecimentos. Somos responsáveis por aqueles que conquistamos, como disse Saint-Exupéry, mas somos ainda mais responsáveis por aqueles que geramos. Kahlil Gibran nos alertou sobre isso em seu belo poema sobre filhos: “A vida não recua e não se retarda no ontem/ Tu és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas, são disparados/ Que a tua inclinação, na mão do arqueiro, seja para a alegria”.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
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