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	<title>Sapiens Sapiens &#187; alma</title>
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		<title>De bem com a vida</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 14:26:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
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		<description><![CDATA[“Cuidado, a vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada embaixo: Deus! e com firma reconhecida”.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A frase acima só podia ser de um poeta transgressor como Vinícius de Moraes. É uma das partes faladas do Samba da Benção que ele compôs e Baden Powell musicou. Enaltecendo a beleza do samba e a aventura do amor, ele fala mesmo, em seus versos, da arte de viver. Pede benção aos amigos e diz que já viajou muitas canções, mas que ainda há muitas para viajar.</p>
<p style="text-align: justify;">Os versos de nosso “poetinha” resumem como poucos a dupla função da poesia composta por beleza e verdade: agrada os sentidos e faz pensar. “Cuidado, a vida é pra valer”, não é algo a ser desperdiçado, até porque “Não se engane não, tem uma só”. Por isso temos que estar de bem com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Estar de bem com a vida. Este é um tema que ultrapassa o terreno estéril das frases de efeito e chega ao território fecundo da filosofia. &#8220;Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão”, disse Nietzsche, para depois admitir que invejava a leveza desses seres. “Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arrancam lágrimas e canções”, completou. Pois até o mal humorado filosofo alemão admitiu que há virtude em se buscar a paz com o viver.   </p>
<p style="text-align: justify;">E o que é estar de bem com a vida senão a capacidade de manter um estado de alegria a despeito das vicissitudes da própria? É claro que a vida é dura, injusta e muitas vezes cruel. Todos sofremos com a perdas e com as angústias próprias do viver, mas não é disso que estamos falando. As condições externas influem, sim, mas o tema aqui é o estado da alma.    </p>
<p style="text-align: justify;">Não me agrada o discurso fácil da auto ajuda que insiste que você tem a obrigação de ser feliz. Não, felicidade não é uma obrigação nem uma competência. Não é uma alienação. Felicidade nem sequer é um estado definitivo, e, com certeza não é um lugar onde se pode chegar. Por outro lado, não me agrada também a condição das “vítimas do sistema”, que se orgulham de sua amargura e a exibem como um troféu conquistado.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheço pessoas que souberam lidar bem com as dificuldades naturais de suas existências e conheço outras que se transformaram em vítimas tristes nas mesmas condições. É claro que há situações de extrema dificuldade, e negar a tristeza que vem junto é negar a própria condição humana. Mas esta não é a questão. Não me refiro às tragédias, e sim às dificuldades corriqueiras, que impregnam nosso cotidiano como o musgo na face sul do tronco das árvores, e que podem, com o tempo, apagar o brilho de viver. A menos que não se deixe que isso aconteça.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei pessoas de bem com a vida nas grandes cidades, trabalhando em imensas corporações. Encontrei também em pequenas vilas do interior ou do litoral. Em lugares pobres e em lugares ricos. Em tempos de tranquilidade e em tempos de crise. Ou seja, em todos os lugares. E também encontrei pessoas de mal com a vida. Onde? Exatamente nos mesmos lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Este talvez seja um dos grandes mistérios da psicologia humana. O que faz a diferença entre esses dois tipos de indivíduos? Será sua genética ou terá sido sua educação?       </p>
<p style="text-align: justify;">Lembro de meus colegas de colégio. Estávamos todos naquela fase de definir o futuro, de escolher a faculdade, de sonhar com o sucesso. Eu, por exemplo, já tinha me decidido: queria ser médico. E também queria ser rico, famoso, comprar um carrão, viajar bastante e ter um monte de namoradas, claro. Afinal, éramos todos adolescentes, cheios de espinhas e de sonhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia ali os futuros engenheiros, advogados, empresários, e até um diplomata.  E havia Fabinho. Ele não tinha planos grandiosos, não queria ficar rico nem famoso. Quando alguém lhe perguntava o que queria ser na vida ele respondia com um sorriso: “Eu quero ser feliz”. E eu via sinceridade em sua afirmação.</p>
<p style="text-align: justify;">O Fabinho era desses garotos raros que, ao contrário da maioria, não parecia estar em guerra contra o mundo. Não tinha inimigos, não se “empatotava” para odiar a outra “patota”. Não se queixava das exigências dos professores nem da dureza das provas, que, aliás, ele tirava de letra.</p>
<p style="text-align: justify;">Fabinho não era rico, nem bonito, nem atleta talentoso. Ele era como a maioria, com virtudes e fragilidades. Era como eu, só que ele tinha algo que lhe era singular. Ele parecia estar de bem com a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei, como já disse muitos Fabinhos pela vida afora, como também encontrei seus opostos, os amargurados crônicos. Qual o segredo? Não sei, mas, pra começo de conversa, estou certo de que não existe uma fórmula para ser feliz, e se existir, ainda que seja apenas uma pista, com certeza ela é pessoal e intransferível, pois felicidade é um conceito concebido individualmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto pessoas de bem com a vida têm, sim, algo a nos ensinar. A primeira lição é que elas não caem na armadilha fácil da felicidade imediata, aquela que é confundida com o prazer descartável, nem transformam a felicidade em um eterno projeto futuro. Gente de bem com a vida percebe que felicidade é um estado interior que não precisa ser prejudicado pelo que acontece fora de nós, e também se dá conta que, se a única coisa que existe de fato é o presente, o futuro vai virar presente e, quando isso acontecer, ele será tão melhor ou tão pior dependendo das providências que tomarmos no presente atual.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um quê de sabedoria nessa postura, e um monte de inteligência aplicada ao bem viver, pois, em síntese, quer dizer que temos que viver o presente com um olho posto no futuro, aproveitar cada instante como se fosse único e, ao mesmo tempo, organizar-se para o dia de amanhã para não ser tomado de assalto por notícias ruins nas esquinas da vida. Então é isso, estar de bem com o tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, espere um pouco, tem mais. É necessário equipar-se com alguns artigos de primeira necessidade para alimentar a felicidade, nada muito complicado, acredite. Algumas coisas são óbvias, mas invisíveis como o ar, que só é percebido quando falta. A saúde, por exemplo. Então é melhor cuidar da dita cuja, pois não dá pra ser feliz e doente ao mesmo tempo, e não importa a fase da vida. O mesmo se dá com a grana, a bufunfa, o tal do dinheiro. É parecido com o ar e a saúde, só damos valor quando falta. O ditado popular insiste, há séculos, que dinheiro não traz felicidade. Estou inclinado em acreditar nisso até certo ponto, pois se o dinheiro não te faz feliz, a falta dele, provavelmente, vai te tirar o sono e prejudicar sensivelmente a felicidade interna bruta.</p>
<p style="text-align: justify;">Resolvidos os requisitos básicos, que atrapalham a busca da felicidade se estiverem ausentes, é hora de cuidar dos ingredientes da verdadeira felicidade, aquela que dá gosto de sentir. E eles são pelo menos três: o que fazemos para viver, como gastamos nosso tempo livre e, talvez o mais importante, com quem compartilhamos tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;">O que fazemos para viver, evidentemente, é nosso trabalho. Ele nos dá o sustento e a dignidade, mas pode nos dar mais, pode dar o verdadeiro sentido da vida. Todos os trabalhos são dignos, mas temos que ouvir nossa vocação e perceber o significado daquilo que fazemos. Assim teremos, não só um trabalho, mas uma carreira; e não realizaremos apenas tarefas, mas causas. Não acho que alguém, para quem o trabalho seja um peso, possa ser feliz de fato. Você se contentaria em ser feliz só depois do expediente e, ainda por cima, odiar a vinheta do Fantástico, que é o prenúncio da segunda feira?</p>
<p style="text-align: justify;">Cuidar do tempo livre é ter disposição para se divertir. O prazer, a alegria, a diversão são tão importantes quanto seu trabalho ou o estudo. É desse equilíbrio que sai o caldo de cultura que vai alimentar a felicidade. E curtir a vida tem mais uma vantagem: quando você ficar velho terá boas lembranças como lenitivo para a vida mais recolhida.</p>
<p style="text-align: justify;">Por último, mas muito longe de ser menos importante, as relações humanas. Geneticamente não estamos preparados para a solidão, que só é boa quando é por opção, e, ainda assim, por pouco tempo. Ter amigos, curtir a família, cultivar boas relações com seus colegas de trabalhos e vizinhos do condomínio. As boas relações nos fazem felizes sim, alimentam nosso espírito gregário, nos fazem perceber que somos queridos, geram autoestima.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, é bom que se diga, há uma relação humana especial, que tem um imenso poder de agregar felicidade, que transforma silêncio em música, folha em flor, distância em saudades, toque em sedução, sorriso em esperança. Estou falando da pessoa especial que está a seu lado, seu companheiro, sua companheira de jornada. Estou falando do amor verdadeiro, que existe, sim, e é bom, muito bom.</p>
<p style="text-align: justify;">Não conheço os detalhes da vida do Fabinho, mas quem me fala sobre ele relata que ele tem andado por aí com aquela cara que só os apaixonados têm, um misto de paz e entusiasmo, a combinação pra lá de perfeita. No fundo, no fundo, não é difícil ser feliz, mas dá um certo trabalhinho cuidar desses detalhes. E o fator acaso? Existe, afinal? Claro que existe, mas seu potencial para gerar felicidade é diretamente proporcional à atenção e inversamente proporcional ao descaso.</p>
<p style="text-align: justify;">Já se disse que o acaso tem sempre a última palavra. Mas podemos rever esse conceito, afinal, a última palavra pode estar com cada um de nós, e é dita por aquilo que fazemos com o que o acaso fez conosco.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>A morte em nossa vida</title>
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		<pubDate>Tue, 11 May 2010 12:00:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Todo mundo sabe que a única coisa verdadeiramente certa na vida é que vamos morrer. Então por que temos imensa dificuldade em lidar com esse tema tão humano? ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align: justify;"><span style="font-weight: normal;">– Você está com medo? – perguntou a jovem Caroline a sua mãe, que se encontrava no leito de morte.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">– Não, estou curiosa – respondeu Daisy Fuller, que então sorriu e, como que para fazer as pazes com a vida, começou a contar à filha um segredo do passado: sua relação com um tal Benjamin Button, homem que nasceu velho e foi rejuvenescendo até morrer como um bebê. O relato era um desabafo e Caroline termina por descobrir que o fantástico homem era seu próprio pai.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">A passagem acima foi retirada de um conto do escritor americano F. Scott Fitzgerald, que foi publicado em 1921 e em 2008 virou o filme <em>O Curioso Caso de Benjamin Button</em>, dirigido por David Fincher e interpretado por Brad Pitt e Cate Blanchett. Conta a história de um homem que tem uma trajetória de vida oposta à natureza humana: ao invés de envelhecer, ele rejuvenesce. Quando escreveu o bizarro conto, Fitzgerald estava subvertendo a maior das angústias humanas: a percepção do envelhecimento e a certeza de seu epílogo, a morte.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Se pudéssemos escolher, preferiríamos ver nosso corpo melhorar com o tempo, não deteriorar-se inexoravelmente como um prenúncio do fim. Como não temos esse poder, só nos resta a imaginação, com a ajuda da literatura e do cinema.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Mas Benjamin Button não é Connor MacLeod, o Highlander, o imortal guerreiro escocês nascido no século 16. Benjamin vive o tempo de uma vida, e mostra que ainda que tentemos – e até certo ponto consigamos – segurar o tempo, não teremos como vencer a morte. A anciã Daisy conhece essa verdade e lida com ela com a sabedoria de quem viveu intensamente. Por isso não teme, apenas está curiosa.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Este é um tema campeão na literatura universal, empatando, talvez, com o amor. E ambos estão, comumente, ligados, como em um Romeu e Julieta em distintas versões. É possível que amemos tanto a vida porque temamos tanto a morte. Mas devemos então evitar a vida para ter a ilusão de não morrer, como alguém que não quer um cãozinho porque sabe que vai sofrer quando ele morrer? Não, pois o mistério da morte não é maior que o mistério da vida, uma categoria pertence à outra. Perceba que viver pressupõe morrer, e morrer significa ter vivido. São indissociáveis. Estamos diante de um mistério único que, por escapar à nossa compreensão e ao nosso controle, nos angustia e infelicita.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Certo esteve Epicuro ao dizer que não temia a morte pelo simples fato de que jamais a encontraria, pois enquanto ele estivesse vivo a morte não estaria presente, e quando ela aqui estivesse ele não estaria mais. O argumento do filósofo tem uma lógica perfeita. O problema é que nós não encaramos a morte com a lógica e sim com a emoção.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Como seres pensantes que somos, tentamos racionalizar repetindo aquelas verdades que no fim não consolam, como “Para morrer basta estar vivo” ou “Começamos a morrer quando nascemos”. São frases epicuristas, todas encerram uma verdade, só que, quando o assunto é a morte, preferiríamos a mentira, a ilusão da imortalidade, o engano de que só existe vida.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">“Eu não quero ser imortal por minha obra. Quero ser imortal não morrendo”, desabafou Woody Allen, em um de seus momentos geniais. Lamento, Woody, mas não será possível. O que nos resta é viver como se não fossemos morrer, pensando e glorificando o milagre da vida, senão morreremos antes de morrer, como explicou Freud em seu <em>O Mal-estar na Civilização</em>, onde coloca a perspectiva da morte como uma das principais causas da infelicidade humana. Morrer antes de morrer significa não viver apesar de estar vivo.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">A lógica de Epicuro, a ciência de Freud e o humor de Woody Allen estão todos certos, errados estamos nós que sofremos pelo que não controlamos porque nos acostumamos a pensar que somos deuses, que a razão nos dá o controle, que a vontade é infinita. De repente descobrimos nossas limitações e nos desesperamos. Eu e você morreremos, sim, e isso está certo. O errado é morrer antes de morrer, é não encarar a vida com humor e gratidão, é perder a oportunidade de deixar este mundo melhor com a própria presença.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Expirando em seu leito, o imperador Augusto, por exemplo, pediu um espelho para ajeitar as madeixas e disse aos que o amparavam: “Se vocês gostaram da encenação, aplaudam, para que eu possa sair de cena feliz”. Certo o romano. Morrer é sair de cena, e só nos resta aceitar que a peça terá um fim e que devemos interpretar nosso papel como virtuoses deste teatro fantástico.</span></p>
<p><span style="color: #00ccff;">O segredo para não sofrer com a morte não seria acreditar que ela é apenas uma fase da vida eterna?</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">O segredo para mitigar o sofrimento está, sim, em acreditar em algo, pois o que nos mortifica é a dúvida. O homem é feito de razão, emoção e crença, e esta última é construída a partir da matéria que compõe as duas primeiras. Crenças são criadas a partir de valores e desejos, existem para tornar nossa vida melhor e só podem ser questionadas por quem as possui. Epicuro, por exemplo, antecipou a teoria atômica dizendo que tudo é formado por minúsculas partículas em movimento, e acreditava que isso valia para nosso corpo e também para nossa alma. Dizia que o homem e sua alma nada mais são que matéria em movimento, e que quando esse movimento fosse interrompido não restaria mais nada, seria nosso fim. Essa era sua crença, o que lhe deu tranquilidade até para brincar com esse destino.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Já para os budistas, a morte é uma ilusão, pois nada morre de verdade, muito menos a alma, nossa verdadeira essência. O que importa é alcançar o nirvana, o paraíso. Este seria um estado psicológico elevado, amoroso e sem ansiedade, o que só pode ser alcançado com desapego e meditação. Em outras palavras, para alcançar o nirvana do céu e virar eterno, o homem precisa construir seu próprio nirvana na terra, a partir de suas atitudes.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Aparentemente opostos, os pensamentos epicurista e budista têm algo em comum. Ambos creditam à vida como a conhecemos todo o mérito. Para o epicurismo esta é a única vida, portanto merece ser vivida plenamente; para o budismo o nirvana final, espiritual, só será alcançado através do nirvana terrestre, psicológico. Ambas as teorias propõem que se dê valor à vida, procurando fazer o bem e transformando- a em algo que valha a pena.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Já que não podemos fingir que a morte não existe, só nos resta criar a crença mais confortável. A morte é um mistério, mas a vida também é. Só que temos a ilusão de entender a vida porque ela pode ser percebida pelos órgãos dos sentidos. Medimos, pesamos, tocamos a vida. A morte não, ela é metafísica, está além de qualquer interpretação lógica. Sabemos o que é o fim da vida, mas não sabemos o que é a morte.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Como não sabemos, só nos resta acreditar. E crença é imaginação, não certeza, mas seu poder é irrefutável, pois é capaz de usar os pensamentos para acalmar os sentimentos. No fim é isto que importa, pensar e sentir para poder viver. Há apenas dois modos de abordar a morte enquanto existe vida: ignorá-la ou pensá-la. A primeira de nada adianta, enquanto a segunda ao menos traz mais cartas para o jogo da vida, criando novas perspectivas.</span></p>
<p><span style="color: #00ccff;">A morte também está presente nos fatos do cotidiano, nas separações, nos fins de ciclo. Não deveríamos estar mais acostumados a ela?</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">No fundo, o que assusta na morte são três fatores: o desconhecido, que é sempre amedrontador; a resistência a abandonar a vida, o que é próprio dos instintos; e, digamos, a passagem, que pode estar carregada de sofrimento. Como diz um amigo meu, com seu humor peculiar: “Acredito que a vida e a morte sejam, ambas, boas. O problema é a transição”.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Estamos, sim, acostumados com a ideia da morte. Nós provavelmente nunca nos acostumaremos é com a presença da morte em nossas vidas. Aceitamos a morte, pois somos racionais, mas reagimos fortemente a ela em duas circunstâncias: quando é prematura ou quando é próxima.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Não gostamos de saber que gente jovem morre, não parece natural. Há um quê de injustiça nos soldados que não voltam da guerra, nos rapazes e moças que se misturam às ferragens de seus carros nas noites de fim de semana, nas crianças com leucemia nos hospitais ou com fome nos países miseráveis. Ninguém deveria morrer sem ter tido a chance de viver bastante, pensamos.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Como também não gostamos da morte por perto, ceifando alguns dos nossos, levando nossos avós, convocando nossos pais. É quando a morte é má de verdade, porque nos priva de nossos entes queridos e porque se faz lembrar, se mostra com força e faz questão de deixar claro que vai voltar, é apenas uma questão de tempo.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Pelo menos a maioria de nós tem motivos para se alegrar por ter vivido. Seja qual for o mistério, a aventura de viver é muito boa, apesar dos percalços, claro. Não é possível não conhecer o sofrimento, pertence à nossa condição de viventes. E entre eles, às vezes camuflada pelo cotidiano, está a morte, espreitando.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">A fé, a psicologia, a filosofia, a literatura, o misticismo, todos são pródigos em abordar o tema da morte, mas nunca um desses construtores do pensamento humano teve coragem para negar dois fatos: que todos teremos de lidar com a morte, nossa e de outros – e que nós sofreremos inevitavelmente com isso.</span></p>
<p><span style="font-weight: normal;">Provavelmente não seria inteligente não morrer, a vida eterna seria muito cansativa. Mas, com certeza, não é inteligente morrer antes de morrer. Por isso, um texto sobre a morte é inócuo, a não ser que seja uma conclamação à vida. Viver de verdade é a única garantia de que, quando chegar a hora, tenhamos mais curiosidade que medo, como aconteceu com Daisy Fuller.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-weight: normal;"><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: </em></span><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><span style="font-weight: normal;"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></span></a></p>
</h4>
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		<title>Generosidade</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Feb 2010 03:21:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Qual a importância da generosidade num mundo cada vez mais individualista?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há muitas histórias de famílias que encontraram escritos em velhos baús que só foram abertos após a morte de seus pais ou avós. No filme As Pontes de Madison, os filhos descobrem a grande história de amor vivida por sua mãe, e que não contava com a participação do pai. Tal história durou apenas alguns dias, mas tinha justificado a existência daquela mulher, representada pela Meryl Streep, a dona de casa interiorana que se apaixona pelo fotógrafo vivido por Clint Eastwood. Eles, contrariando a torcida da plateia, não ficam juntos, porque ela decide não magoar sua família, sufoca seu amor e passa a viver alimentada apenas pela lembrança muda daquela história romântica.</p>
<p>Coisa parecida aconteceu com minha amiga Ruth, que com sua mãe assumiu a tarefa de dar destino aos pertences da avó após sua morte. E foi em uma caixinha de madeira que elas encontraram um caderno com anotações sobre suas atividades, um registro de como ela ocupava seu dia.</p>
<p>As duas ficaram sabendo que as tardes em que a avó dizia dirigir-se a um centro de terceira idade para se divertir, na verdade, eram ocupadas por um trabalho voluntário em um asilo para idosos, alguns mais jovens que ela, mas com menos saúde e mais tristeza. Ela registrava fatos, incluindo os momentos alegres, como as festas que comemoravam datas ou apenas &#8220;celebravam a vida&#8221;, para usar suas palavras, e também os tristes, como as mortes frequentes e as crises próprias da sensação de abandono.</p>
<p>Entre os escritos, um depoimento as tocou profundamente, aqui reproduzido: &#8220;Eu me doo porque me perdoo. Quando era jovem e tola, eu queria tudo para mim, achava que o mundo era meu e que eu podia usufruir dele sem pedir nem agradecer. Agora, que sou muito mais velha e um pouco mais sábia, entendi que nada me pertence de verdade, nem a vida, que passa em um instante, nem meus filhos, que apenas vieram através de mim, e muito menos as coisas, que são apenas matéria, e continuarão sendo, mesmo quando eu deixar de ser. Depois de uma vida dedicada às tolices, decidi perdoar-me por ser tola e dar-me a chance de ser generosa, assim eu terei a única coisa que pode me pertencer: minha própria paz&#8221;.</p>
<p>A descoberta e o texto mexeram profundamente com os sentimentos da filha e da neta. Não era para menos. Elas começaram, então, a lembrar os detalhes da vida da avó, que realmente havia mudado de um comportamento superficial e mundano para outro, mas profundo e espiritualizado, ao longo dos anos, especialmente após ter enviuvado. Ela havia sido uma mulher rica que não conhecera o sofrimento da escassez ou do desamor. Mas, quando amadureceu, fez uma escolha que definiu como sendo a troca da &#8220;tolice pela generosidade&#8221;.</p>
<p>Caminho para a paz</p>
<p>A avó de minha amiga criou, sem querer, o que talvez seja a melhor definição de generosidade que já vi, pois a coloca como o caminho para a paz, e que considera o tolo como sendo o contrário do generoso. O dicionário diz que generosidade é a disposição de dar, de atender, de se preocupar com o bem-estar do outro. Está certo, sem dúvida, mas a velha senhora foi além, mostrou a face de paz dos generosos e o lado tolo dos egoístas.</p>
<p>Desde sempre, mas principalmente depois que comecei a escrever, tenho me dedicado a observar comportamentos. Pessoas, famílias, empresas, todas são entidades comportamentais que revelam seu caráter através do que fazem e, mais importante, de como fazem o que fazem. Acabei por criar, para meu próprio uso, a ideia de que nosso planeta não é composto por apenas um mundo, mas por vários, que compartilham o mesmo espaço, em diferentes dimensões.</p>
<p>Gosto, por exemplo, de usar as expressões &#8220;mundo do mais&#8221; e &#8220;mundo do menos&#8221; para diferenciar as pessoas, não por sua raça ou posição social nem por sua cultura ou seu dinheiro, e sim por sua generosidade, ou falta dela, claro.</p>
<p>O mundo do mais é o mundo que tem uma propriedade que dignifica o ser humano, e essa é, exatamente, a marca da generosidade, do compartilhamento, da disponibilidade. O mundo do menos é mesquinho, isolacionista, egoísta. Conheço pessoas do mundo do mais e do mundo do menos em todas as classes e profissões, e elas são facilmente reconhecíveis &#8211; não pelo figurino, pois a roupa não significa nada.</p>
<p>Pessoas generosas costumam ter uma expressão mais leve, sempre pronta para demonstrar ao outro sua disponibilidade. Certamente você conhece pessoas disponíveis e pessoas não disponíveis. Se você estiver em dificuldade, em qualquer lugar, a qualquer hora, você sabe com quem pode contar? Pense um pouco. Certamente você fará uma lista mental das pessoas que não hesitariam em largar o que estão fazendo para socorrer um amigo e das que é melhor nem pensar em chamar, pois além da frustração irão provocar mal-estar.</p>
<p>Ser generoso é estar disponível. Ter disposição para dar de si para quem não tem e está precisando mais do que ele. O generoso não compartilha o que está sobrando, reparte o que tem, sua melhor parte. Tira de si para dar ao outro, e por isso às vezes é acusado de ser bobo ou imprevidente. Mas não é, acredite. Ele age assim porque é de sua natureza.</p>
<p>Um instinto da alma</p>
<p>Sim, somos controlados por nossos instintos. São eles que nos mantêm vivos, providenciam reação de defesa, proteção, sobrevivência. Afinal, somos animais também, e herdamos instintos de nossos ancestrais, sem os quais eles não teriam resistido às dificuldades de sua época e nós não estaríamos aqui. Os instintos são fortíssimos e definem a natureza de todas as espécies.</p>
<p>É famosa a história do escorpião que pede ajuda a um sapo para atravessar um lago. O sapo, desconfiado, pergunta: &#8220;Mas você não vai me picar as costas?&#8221; O escorpião pondera: &#8220;Claro que não, pois se eu picar você também morrerei afogado&#8221;. Movido pela lógica do argumento, o sapo resolve ajudar o outro. Bem no meio da travessia, contudo, sente a ferroada do peçonhento carona e, surpreso, ouve a nova explicação, igualmente lógica: &#8220;Desculpe, sapo, mas não consegui controlar minha natureza, afinal eu sou um escorpião&#8221;. Assim é o instinto. Serve para garantir a vida do indivíduo, e não considera, nem por um instante, o bem-estar do outro. Instintos são necessários, claro, mas nós evoluímos. Humanos têm consciência, e isso nos torna diferentes de um escorpião ou de um sapo. Humanos são coletivos, se aglutinaram pela necessidade de sobrevivência, e isso foi facilitado por sua capacidade de amar, respeitar, acolher, proteger seu semelhante. Tudo bem, os animais são movidos pelos instintos, mas eventualmente identificamos traços de generosidade também neles. Cães abrem mão de sua segurança para acudir o dono em perigo. Quando chego em casa, a Preta, minha adorâvel cachorrinha shi-tzu, corre para buscar um brinquedo que quer compartilhar comigo, como símbolo de sua fidelidade.</p>
<p>Se a fome e o medo são instintos do corpo, a generosidade é um instinto da alma. É através dela que providenciamos a sobrevivência do que há de mais belo em nossa natureza humana: a dignidade. Mas somos uma espécie nova, em pleno processo de evolução, por isso precisamos fazer correções de rumo.</p>
<p>Por ter percepção do tempo, o ser humano preocupa-se com o futuro e insiste em acumular. Estoca comida, guarda coisas, economiza dinheiro, sonega até afeto, como se este fosse fazer falta mais tarde. Prevenir o amanhã está certo, mas depende do grau, pois haverá um momento em que a virtude da previsão começa a transformar-se no pecado da avareza. O instinto físico da sobrevivência precisa ser equilibrado com o instinto maior da generosidade, pois este vai além do individual, abrange o coletivo, potencializa ainda mais a sobrevivência &#8211; não apenas do corpo, mas também da alma.</p>
<p>Pessoas generosas fazem bem ao planeta, pois têm a consciência holística, de que tudo está ligado a tudo e que todas nossas ações repercutem no mundo, nas pessoas e em nós mesmos. Pessoas generosas são altamente necessárias ao equilíbrio da natureza e da humanidade. As pessoas generosas seguram o pau da barraca da humanidade, que abriga inclusive aquelas que tentam atear fogo na lona.</p>
<p>Em companhia do físico e escritor Fritjof Capra visitei, em Berkeley, uma escola que trabalha com o conceito da sustentabilidade, uma ideia que representa a generosidade com o planeta. Foi quando vi uma menina carregando um balde de cascas de legumes em direção a um lugar de compostagem, onde restos de comida são transformados em adubo. Perguntei por que ela estava fazendo aquilo, esperando uma resposta mecânica. Entretanto, ela me brindou com um quase poema, dizendo: &#8220;Estou levando comida para a Terra&#8221;. Generosidade explícita.</p>
<p>Viver ao lado de pessoas generosas é muito bom. Aumenta não só a sensação de segurança, mas também o sentimento de solidariedade, de amorosidade e de alegria. Eu tenho a sorte de conviver com pessoas generosas. Tenho uma companheira generosa, colegas de trabalho generosos, amigos generosos. Acredito que os diferentes se atraem, mas só nas leis físicas. Nas leis mentais os iguais se atraem, assim, os egoístas também formam seus clubinhos, que podem ser casamentos, empresas, grupos políticos.</p>
<p>Minha grande amiga Regina costuma separar as pessoas em dois tipos: &#8220;pessoas-pão&#8221; e &#8220;pessoas-boca&#8221;. Ela diz que as pessoas-pão têm prazer em alimentar, em doar-se, são generosas e cuidadosas com os outros e com o planeta, e habitam, com certeza, o mundo do mais. E que as pessoas-boca querem apenas ser alimentadas, existem só para receber e pronto, não querem saber o que podem fazer pelo mundo, mas o que o mundo pode fazer por elas. Perigoso, esse pensamento. Ainda bem que a humanidade conta com uma rede de proteção, que se chama generosidade.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
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