<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Sapiens Sapiens &#187; adultos</title>
	<atom:link href="http://www.sapiensapiens.com.br/tag/adultos/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.sapiensapiens.com.br</link>
	<description>Sapiens Sapiens</description>
	<lastBuildDate>Mon, 30 Jan 2012 14:47:55 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.0.1</generator>
		<item>
		<title>Infância Perdida</title>
		<link>http://www.sapiensapiens.com.br/infancia-perdida/</link>
		<comments>http://www.sapiensapiens.com.br/infancia-perdida/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 01 Apr 2011 13:42:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
		<category><![CDATA[.]]></category>
		<category><![CDATA[adultos]]></category>
		<category><![CDATA[crianças]]></category>
		<category><![CDATA[disciplina]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[educar]]></category>
		<category><![CDATA[excutivo]]></category>
		<category><![CDATA[formação]]></category>
		<category><![CDATA[infância]]></category>
		<category><![CDATA[infantil]]></category>
		<category><![CDATA[maturidade]]></category>
		<category><![CDATA[responsabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[responsável]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.sapiensapiens.com.br/?p=2729</guid>
		<description><![CDATA[As crianças, por estarem em fase de formação, precisam ser ensinadas a lidar com limites. Mas como disciplinar sua energia natural sem comprometer a beleza da liberdade da infância?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Calvin: “Eu sou apenas uma criança e quero fazer só o que me dá na telha. Por que eu tenho que aprender a ser responsável?”</p>
<p style="text-align: justify;">Susie Derkins: “Porque você não será uma criança para sempre. A infância é curta, a maturidade é eterna”.</p>
<p style="text-align: justify;">Calvin: “Eu sei, o mundo é injusto. Mas eu pergunto: ele não poderia ser injusto a meu favor?”</p>
<p style="text-align: justify;">Esse diálogo saboroso é marca registrada da obra do cartunista americano Bill Watterson, reproduzida diariamente em jornais no mundo inteiro. Conheço gente que começa a leitura do periódico pela tira do Calvin, o garoto de 6 anos que é o representante oficial do lado transgressor das crianças e, de certo modo, de todos nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele está apenas tentando entender o mundo ao qual mal acabou de chegar, mas já está fazendo um esforço para mudá-lo, de acordo com suas ideias e seus princípios. Calvin convive com pessoas que ele considera totalmente equivocadas: seus desesperados pais, a paciente professora Miss Wormwood e a pobre babá Rosalyn, que passam maus bocados para conter a energia transgressora do moleque.</p>
<p style="text-align: justify;">O único que o compreende é o tigre Haroldo, seu grande companheiro, que. E há a Susie Derkins, a garota que é o oposto do Calvin: ponderada, estudiosa, disciplinada. Ela é, ao mesmo tempo, antípoda e alter ego de nosso herói, pois representa tudo o que ele abomina e, ao mesmo tempo, o que ele sente &#8211; mesmo a contragosto. Susie é respeitada e admirada, mas, claro, é uma chata.</p>
<p style="text-align: justify;">Calvin e Susie simbolizam a dualidade na educação das crianças. Se, por um lado, apreciamos a infantilidade natural, a espontaneidade livre dos pequenos, por outro tentamos colocar-lhe limites, educá-los para que convivam em harmonia em um mundo cheio de regras e exigências. É provável que encontrar o equilíbrio entre essas duas verdades seja o maior, e mais necessário, desafio para quem se dedica a educar pimpolhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos pequenos, “Raízes e asas”, como sugeriu Kant. Estava certo, o disciplinadíssimo filósofo alemão. As raízes nos prendem à essência, ao imutável, ao eterno, e nos dão a segurança de ter com quem contar e para onde voltar se nada der certo. As asas permitem o vôo da vida, a descoberta e a construção de infinitas possibilidades. Ter asas significa viver a própria vida e construir seu próprio futuro. Todas as mães sabem disso, mas bem que gostariam que as raízes fossem mais fortes que as asas.   </p>
<p style="text-align: justify;">“Voar não é só com os pássaros, nós também voamos”, escreveu Moacyr Scliar em um dos seu últimos textos, “A síndrome do ninho vazio”. Mas voar exige competência para tal, e é disso que falamos quando mandamos nosso pequeno para seu primeiro dia de escola, alegre e assustado ao mesmo tempo. E lá ficamos nós, com o coração a mil, olhando nosso filho desaparecer nos corredores, dando a mão à sua primeira professora, que vai ajudar a conduzi-lo à liberdade ao mesmo tempo desejada e temida.     </p>
<p style="text-align: justify;"> <strong>Algumas crianças estão sendo transformadas em adultos, com compromissos e responsabilidades. Será que isso é bom?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O termo “executivo” tem sido mais empregado para representar o funcionário de uma empresa que desempenha o papel de um provedor de realizações. Os bons executivos são disciplinados, organizados, planejadores, focados, visionários e, não menos importantes, são capazes de influenciar outras pessoas, assumindo, nesse caso, o papel de líderes. E, acredite, o mercado de trabalho tem faro fino para identificar o perfil executivo de um candidato a emprego. E faz uso dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Sempre foi assim, e a tendência é que seja ainda mais no futuro. Se você for, também, um executivo, terá mais probabilidade de ter sucesso profissional e também pessoal. Por isso não há nada de mal em ensinar às crianças algumas habilidades executivas, aquelas que tornam a vida mais prática e produtiva. São músculos para suas asinhas, que vão crescer de qualquer maneira, e se crescerem mais fortes, tanto melhor, maior será o alcance do vôo.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente ganhei de minha amiga Sara Hughes, fundadora da escola FourC na cidade de Bauru, um livro muito instigante. Seu título, em inglês, é Smart but Scattered, que poderia ser traduzido para algo como Esperto, mas Avoado. Seus autores, Peg Dawson e Richard Guare são psicólogos do Centro de Estudos sobre Aprendizado e Disturbios de Atenção de New Hampshire. E sua proposta é simples: educar é muito mais do que passar conhecimentos estandardizados, educar é preparar para a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">E preparar uma criança para a vida significa dar-lhe condições de relacionar-se com as exigências de um mundo complexo e exigente. “Não há nada mais frustrante do que observar seu filho ou sua filha, que tem tanto para oferecer, debatendo-se com as tarefas e exigências corriqueiras do dia a dia”, ponderam, logo na abertura do livro. De fato, as tarefas rotineiras, como lidar com dinheiro, organizar compromissos, manter a pontualidade, assumir responsabilidades a seu alcance, deveriam ser encaradas de maneira natural, sem assombro nem estresse.  </p>
<p style="text-align: justify;">Os autores desenrolam o texto a partir de sua experiência e de suas pesquisas, mostrando que as crianças que desenvolvem habilidades práticas constroem um mundo circundante mais organizado e também mais feliz. Organização, planejamento e controle não são exclusividade de empresas. Ao contrário, empresas puderam surgir graças a essas qualidades humanas, que podem, e devem, ser aplicadas em todos os lugares a qualquer momento.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, não podemos esquecer, habilidade não são inatas, são aprendidas. E quem nos ensina é o ambiente onde estamos inseridos, sendo a escola, apenas parte dele. A família é o primeiro e mais determinante provedor de habilidades, pois o que se aprende em casa vem acompanhado de afeto e significado, mais do que na escola. </p>
<p style="text-align: justify;">Ser inteligente não é suficiente, é necessário usar a inteligência para produzir benefício. Aliás, a inteligência é reconhecida exatamente pelo seu uso, e não por sua simples existência. Você certamente conhece alguém considerado inteligente por sua memória, seu conhecimento ou por sua capacidade lógica que, apesar disso, coleciona uma série de insucessos e erros cometidos em sua vida prática. Alto QI é como argila de boa qualidade, precisa ser trabalhada para se transformar em obra de arte, senão continua sendo apenas isso, argila de boa qualidade. Inteligência é energia potencial. Habilidade é energia cinética.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mas as crianças não perdem a chance de serem apenas crianças quando ganham responsabilidades?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A inteligência, tal como habilidade, precisa ser moldada, incentivada e até disciplinada. A disciplina, ao contrário do que se pensa, não aprisiona, antes é um instrumento de libertação. Ela nos ajuda a organizar, justamente em tempos em que temos tantas coisas a fazer. Não é dela a culpa da sobrecarga. Esta vem do exagero, da volúpia por realizar, da ambição desmedida.</p>
<p style="text-align: justify;">Se bem usada, a disciplina nos permite realizar mais, sim, mas também nos permite ter mais tempo para o prazer puro e simples, como o de brincar simplesmente, sem vincular a brincadeira a nada além da alegria. O que é ser “simplesmente criança” senão ser livre para brincar sem responsabilidade nem conseqüência? Nesse sentido, insisto, eu quero ser criança para sempre. Quero ser livre para voar com minha imaginação para além dos horizontes pré- definidos pelo modelo mental cristalizado das gerações que me antecederam. Quero dar-me o direito de errar e de ser feliz. É o mesmo que qualquer criança quer, sem saber que quer.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se, reconheço, de uma grande ambição. É por isso que temos que nos organizar, planejar e controlar o espaço em que nos foi dado viver. É melhor atender logo às demandas naturais da vida, aquelas que nos infernizam porque as protelamos, e as protelamos porque não são agradáveis. E isso é aprendizado, treino, condicionamento.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida se torna melhor quando enfrentamos as dificuldades naturais com armas mais adequadas, e estas são as chamadas habilidades executivas. Uma criança não deixará de ser apenas uma criança porque aprende noções de tempo, responsabilidade e execução. Ao contrário, isso fará com que ela consiga se livrar cada vez mais rápido de suas responsabilidades crescentes e tenha, assim, mais tempo para ser simplesmente criança.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.sapiensapiens.com.br/infancia-perdida/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Adultos: já pra brincadeira!</title>
		<link>http://www.sapiensapiens.com.br/adultos-ja-pra-brincadeira/</link>
		<comments>http://www.sapiensapiens.com.br/adultos-ja-pra-brincadeira/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 21 Feb 2010 02:26:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
		<category><![CDATA[adultos]]></category>
		<category><![CDATA[aprender]]></category>
		<category><![CDATA[brincadeira]]></category>
		<category><![CDATA[brincar]]></category>
		<category><![CDATA[capacidade]]></category>
		<category><![CDATA[crianças]]></category>
		<category><![CDATA[curiosidade]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento]]></category>
		<category><![CDATA[diversão]]></category>
		<category><![CDATA[identidade]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://ssdi.chrisb.com.br/?p=64</guid>
		<description><![CDATA[Para conservar a curiosidade, a imaginação e a transgressão, é importante brincar sempre]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alguns mitos precisam ser derrubados. Um deles é que a infância termina quando ficamos grandes. Quem pensa assim considera que infância é apenas uma fase da vida, um ciclo biológico durante o qual o corpo cresce aceleradamente e importantes mudanças fisiológicas acontecem. Mas há quem ache que infância é mais que isso, é um estado de espírito, cheio de qualidades que promovem o desenvolvimento da alma. Ao pensar dessa forma, aceitam que ela não termina quando começa a idade adulta; ao contrário, persiste por toda a vida. Estou nesse grupo.</p>
<p>Há pelo menos três qualidades na criança, necessárias para permitir sua interação com mundo: a curiosidade, a imaginação e a transgressão criativa. A primeira serve para que ela acelere o processo de percepção e entendimento do mundo; a segunda, para que ela crie, em sua cabecinha, o mundo que ela deseja, sem as mazelas que ela vai percebendo que existem; e a terceira, para que ela ouse modificá-lo para dar lugar a esse mundo ideal.</p>
<p>Sem essas três características humanas, que nascem conosco, provavelmente ainda estaríamos na Idade da Pedra. Foram elas que promoveram a evolução, o desenvolvimento, todo o conjunto de coisas que inventamos ao longo de todos esses séculos. Pois bem, essas qualidades são infantis, primárias, precoces, mas podem perdurar pela vida, conservando, no adulto, um jeito de criança.</p>
<p>O problema é que nós teimamos em acabar com essas qualidades quando crescemos, porque alguém – provavelmente um grande chato – disse que elas não combinam com ser sério e responsável. Ora, o que seria dos inventores, dos artistas, dos poetas, dos cientistas e dos grandes promotores de mudanças se eles não tivessem conservado em si a curiosidade, a imaginação e a transgressão? Aliás, foi Einstein quem disse que a imaginação é mais importante que o conhecimento. E depois foi tirar aquela foto de língua para fora, brincando com o fotógrafo e com o mundo.</p>
<p>Então, o adulto pode continuar a brincar sem parecer ridículo? Estou escrevendo este artigo nos Estados Unidos, aonde vim para um curto período de estudo e, claro, diversão. Aqui eles têm um ditado curioso a esse respeito. Dizem: “The difference between men and boys is the price of the toys” (a diferença entre homens e meninos é o preço dos brinquedos).</p>
<p>Eu sei, trata-se de uma frase com forte apelo consumista e de gosto duvidoso, mas mostra como funciona a cabeça dessse povo, que desenvolveu a maior indústria de entretenimento do mundo, além de dar uma pista da essência do ser humano.</p>
<p>Por acaso, uma das pessoas a quem vim conhecer foi o Dr. Elkhonon Goldberg. Trata-se de um neurocientista de origem russa, pesquisador na Universidade de Nova York e autor de vários livros, entre eles O Paradoxo da Sabedoria, em que ele mostra que a mente pode manter-se lúcida e ativa apesar do envelhecimento do cérebro. Uma das condições, ele insiste, é manter-se capaz de brincar, especialmente consigo mesmo.</p>
<p>Quando cheguei a seu gabinete, o Dr. Goldberg abriu a porta e foi logo me perguntando se eu me incomodava com a presença de animais. Eu respondi que não, que gostava muito, que tinha duas cachorras e uma gata em casa. Ele então me fez entrar e eu pude ver em cima do sofá um imenso mastim napolitano que atendia pelo nome de Britt. Quer dizer, atendia em termos, porque demorou a ser convencido a ceder o sofá para a visita. Dr. Goldberg é uma pessoa bem-humorada. Brinca o tempo todo, de um jeito que, para os mais sisudos, talvez pareça não combinar com um cientista de renome mundial. Mas ele é assim, e em minutos eu já estava totalmente à vontade.</p>
<p>Ao longo da conversa, entramos no assunto da importância dos estímulos ambientais para o desenvolvimento do cérebro, e foi quando ele conseguiu me surpreender ainda mais. Esticou o braço e pegou da estante um livro em russo, escrito no começo do século passado, em que o autor já se referia a esse tema. Era um original de Lev Vigotsky, um dos maiores pensadores em educação que o mundo já produziu. E, para encanto meu, havia nele uma dedicatória de sua viúva, que o presenteou diretamente ao nosso doutor.</p>
<p>Vigotsky diz que o processo de brincar não torna o brinquedo um mero utensílio de distração, mas um gerador de situações imaginárias. Ele aponta em seu livro A Formação Social da Mente que toda brincadeira, por mais livre e espontânea que pareça, é regida por regras “ocultas”. A principal delas é que a criança quando brinca está sendo totalmente espontânea, pois está brincando de ser ela própria, ou seja, ela brinca de ser criança. Mesmo que, em sua brincadeira, ela esteja imitando um adulto – um piloto ou um bombeiro, por exemplo –, ela está brincando de criança que imita o adulto.</p>
<p>Assim, o psicólogo russo concluiu que a brincadeira é o caminho fundamental para o desenvolvimento da mente humana, pois se trata de uma idealização da realidade, a partir da qual a criança começa a sentir-se parte do mundo, exercendo, inclusive, o poder de modificá-lo. Manter-se capaz de brincar pela vida afora é manter a capacidade de interagir com a realidade da melhor forma, com humor, imaginação e alegria.</p>
<p>Brincar ajuda a aprender? Fragmentar a diversão como objeto de estudo é algo tão intrincado quanto completar um quebra-cabeça com mais de 1000 peças, mas também não é algo tão difícil quanto ganhar superpoderes para salvar o mundo do mal. A primeira peça é a que mostra que é só na alegria que a criança se coloca inteira. É fácil deduzir que, se ela considerar o ato de aprender uma brincadeira, isso aumentará em várias vezes sua capacidade de se concentrar. Portanto, brincar ajuda a aprender.</p>
<p>Quem explica isso é a biologia. O biólogo evolucionista Marc Bekoff, da Universidade do Colorado, descobriu, ao comparar o cérebro humano com o de outros mamíferos, que há, entre eles, muitas semelhanças. Uma delas é a produção do neurotransmissor dopamina, responsável pela sensação de alegria e que também ajuda na construção de novas possibilidades. Em outras palavras, estimula o aprendizado.</p>
<p>“Brincar leva a uma flexibilidade mental e a um vocabulário comportamental mais amplo que auxilia o animal a obter sucesso no que importa: dominância do grupo, seleção de companheiros, prevenção de captura e busca por alimento”, disse Bekoff. Dessa forma, ser humano e bicho funcionam de forma similar: ambos criam crescentes conexões nervosas ao longo da brincadeira, e estas ajudam a formar uma cabeça mais ágil e aberta ao novo.</p>
<p>E há mais gente que, sem querer querendo, está metendo sua colher de pau nesse angu. Gilles Brougèr, por exemplo, é um especialista em jogos e brinquedos. Ele coloca uma pitada de semiótica na discussão ao afirmar que as brincadeiras têm signifi cado antropológico, e que não são simples passatempos. “O brinquedo é um dos reveladores de nossa cultura”, diz ele. E insiste que, ao brincar, estamos revelando o jeito de ser de nosso grupo humano.</p>
<p>Então o brinquedo não está à sombra da sociedade, ele revela a identidade social da criança e, como consequência, do adulto que ela virá a ser. O brinquedo é o pensamento vigente em forma de objetos de plástico. Como se vê, não dá para parar de brincar; a humanidade perderia uma ótima oportunidade de entender a si mesma.</p>
<p>E em casa? É saudável um casal manter as brincadeiras entre si e com os filhos? E como. Desde a Grécia, os antigos – e sapientíssimos – habitantes já usavam o ato lúdico para criar e curar. Arquimedes já citava que “brincar é a condição fundamental para ser sério”; os atenienses concediam peças musicais, teatros e espetáculos de comédia aos doentes; no século 16, os médicos já diagnosticavam o entretimento como o melhor medicamento para todos os males: “A alegria dilata e aquece o organismo, já a tristeza contrai e esfria o corpo”.</p>
<p>Enfim, se você, adulto ciente e responsável, ainda não desatou a brincar, é porque ainda lhe falta maturidade. Deixar-se levar pela imaginação, não tenha medo de ir contra a maré da “adultice”, de dar risada de si mesmo, abraçar a espontaneidade, correr, gritar, pular, usar o siso somente quando necessário e abusar – e muito – do riso.</p>
<p>Com relação aos baixinhos em casa, não tente transformá-los em mini adultos. Cursar novas línguas pode fazer bem à mente. Praticar esportes pode estimular o corpo. Aprender a tocar violoncelo pode lavar a alma. Mas desde quando rechear o dia do seu filho com tantas atividades é sinônimo de qualidade? Celular, computador, agenda cheia. Quando ele tem tempo para brincar sem estar preso à grade de horário?</p>
<p>É difícil conciliar estudo e diversão em tempos em que escolas priorizam formar cidadãos mais “competentes para o mercado de trabalho” que “aptos para a vida”. Contudo, é bom ressaltar que aprender e brincar se complementam. Divertirse estimula a criatividade e abre novos caminhos ao aprendizado.</p>
<p>Não tenha pressa em tornar seu pimpolho um pequeno sisudo. Ele irá adquirir competências de gente grande de um jeito ou de outro, cada coisa a seu tempo. E deixe que ele faça você se lembrar de sua infância, de um tempo passado que pode continuar ainda hoje – se você quiser –, assim você aprenderá que a infância não precisa morrer nunca.</p>
<p>Num cemitério do Rio de Janeiro há um túmulo diferente. Nele, uma lápide revela o espírito de quem ali repousa. Diz: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino”. A frase foi escolhida pelo próprio escritor mineiro para imortalizar seu maior valor – a maravilhosa capacidade de brincar.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: <a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank">www.revistavidasimples.com.br</a></em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.sapiensapiens.com.br/adultos-ja-pra-brincadeira/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

