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	<title>Sapiens Sapiens &#187; Revista Vida Simples</title>
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		<title>A ansiedade das escolhas</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 12:12:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
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		<description><![CDATA[Optar por isto ou aquilo faz parte da nossa rotina. E junto com essa decisão vem a perda (daquilo que ficou para trás). Saber conviver com essas decisões pode ser libertador]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">- OK, então vamos esperar por sua escolha até amanhã de manhã. Pense bem antes de decidir.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa frase soou como uma ameaça. Eu tinha que decidir e não podia negar essa responsabilidade, pois corria o risco de perder tudo. Mas a escolha não era simples, pois, no fundo eu queria os dois. Um representava a liberdade,  a aventura, a alegria de viver. O outro significava a sabedoria, o conhecimento, o futuro. Como escolher entre dois conjuntos de valores tão importantes? Como optar por um e abrir mão do outro que eu também queria tanto? Por que o destino estava fazendo isso comigo? Ó mundo cruel&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não teve jeito, pois eu sabia que se demorasse para decidir, ou não mostrasse firmeza em minha conclusão, não seria considerado maduro o suficiente para merecer nenhum dos dois, e acabaria tendo que me contentar com algum premio de consolação, e isso seria a pior coisa que poderia me acontecer naquela fase da vida. Então, armado de uma convicção artificiar, comuniquei minha decisão:</p>
<p style="text-align: justify;">- Estão está bem, fico com a bicicleta! – e abri mão da enciclopédia. </p>
<p style="text-align: justify;">Estávamos em véspera de Natal e eu tinha 11 anos. O que aconteceu naquela oportunidade foi uma espécie de iniciação à vida, que nada mais é do que uma sucessão de escolhas. Parece que a única escolha que não fizemos foi a de nascer, porque daí para frente, passada a primeira infância, começa nossa preparação para sermos responsáveis. Tem início o desenvolvimento de algo  chamado “consciência”, que, em última análise, é a autonomia para cuidar do destino, escolhendo os caminhos da vida. Amadurecer, descobri, é assumir responsabilidade por suas escolhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu queria muito aquela bicicleta. Qual é o garoto que não quer? Desejava sair por aí, com os colegas ou mesmo sozinho, deslocando-me com rapidez, sentindo o vento, conhecendo outros bairros da cidade. Mas também estava de olho na tal enciclopédia que, para mim, era uma espécie de passaporte para o conhecimento. Com a bicicleta poderia passear pela cidade – pensava – e com a enciclopédia poderia viajar pelo mundo.  </p>
<p style="text-align: justify;">Prevaleceu a liberdade do vento, e não das letras, como seria de esperar de alguém que mal encerrava a primeira década de vida. E aquela bicicleta me deu muita alegria, acredite. Nunca me arrependi da escolha, até porque mais tarde, em outro Natal, a enciclopédia veio, ainda que não tenha vindo o aparelho de som – outra escolha/troca.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A tirania do “ou”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Um dos personagens mais explorados pela literatura alemã é o de um homem que fez uma escolha perigosa: Fausto. Ele foi inspirado em uma pessoa real, o médico Johannes Georg Faust, que viveu entre 1480 e 1540, e que era também estudioso de alquimia e magia. Sempre insatisfeito com o conhecimento disponível, ansioso por saber mais, acabou por dar origem a Fausto, que teve inúmeras interpretações na literatura germânica, sendo a mais conhecida a do mais importante escritor alemão, Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira parte da versão de Goethe foi publicada em 1806 e conta que Fausto, querendo superar os conhecimentos disponíveis na época, ambicioso pelo saber, acabou fazendo um pacto com um demônio, Mefistófeles. Durante 24 anos ele não envelheceria, experimentaria todos os prazeres e teria acesso a conhecimentos novos. Tudo isso em troca de sua alma, que passaria a ser posse do maléfico pela eternidade. </p>
<p style="text-align: justify;">Fausto aceita, pois seu desejo de saber é superior a tudo. O que ele não contava é que se apaixonaria por Margarida e, ao ver chegar perto seu prazo, se vê obrigado a abandona-la. O mito faustico, em todas as versões, joga com a ideia da perda como subproduto da escolha. E esta perda pode ser desesperante, como no caso do personagem, ou pode ser, em sua versão mais humana, no mínimo, a causa de grandes ansiedades.  </p>
<p style="text-align: justify;">A ansiedade é, sim, um dos males da modernidade. Não há pessoa que não relate que é acometida, eventualmente, por uma &#8220;crise de ansiedade”, caracterizada por uma sensação de dúvida, incerteza, desconforto. A pessoa ansiosa gostaria de não estar onde está, ou pelo menos, gostaria de não estar vivendo a situação que lhe causa ansiedade, mas, por outro lado, sabe que não tem com evitar. Todos somos ansiosos, em graus maiores ou menores.</p>
<p style="text-align: justify;">E a causa mais comum de geração de ansiedade atualmente é, como vimos, a necessidade de fazermos escolhas. Sim, pois a cada escolha você tem que sofrer com as renúncias que ela acarreta. Essa é a tragédia da escolha. O imperativo do “ou”. Ou isto ou aquilo, os dois não dá – explica a vida – e a gente aceita com resignação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Escolher é trocar</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A língua inglesa tem uma expressão que define bem a ansiedade da escolha: <em>trade-off</em>. Sem tradução literal, <em>trade-off</em> significa escolha, mas também significa troca. Em síntese, escolher significa trocar uma coisa por outra. Ao escolher a bicicleta, abri mão da enciclopédia. Foi uma troca e, convenhamos, a melhor que podia ter feito naquela ocasião. No ano seguinte troquei um aparelho de som novinho pela coleção de livros que esperei por um ano. E por aí vai.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Trade-off </em>é uma expressão muito usada nas empresas, e faz parte do planejamento estratégico. Os empresários e executivos sabem que sempre há um preço a pagar. Em resultados terão que fazer investimentos. Se buscarem inovação terão que admitir alguns erros. Se optarem por economizar terão que reduzir os investimentos. Na economia do país, se a opção for pelo controle da inflação, sabe-se que a taxa de crescimento será menor. “Não há almoço grátis”, dizem os economistas. Trata-se de um postulado da economia que lança mão da obviedade que não dá para, ao mesmo tempo, comer a refeição e ficar com o dinheiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos melhores exemplos de <em>trade-off</em> estratégicos é encontrado não na economia, mas no jogo de xadrez, e, neste caso, pode receber o nome de gambito, que não é, portanto, apenas o codinome das pernas finas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse jogo, gambito é o sacrifício de uma peça em troca de alguma vantagem, que pode ser outra peça ou espaço, desguarnecimento do adversário, linhas diagonais ou simplesmente tempo. O outro jogador pode aceitar ou refutar a oferta, pois sabe que há uma intenção por trás, uma espécie de jogada oculta. O <em>Gambito do Rei</em> é uma jogada em que o jogador de peças brancas oferece um peão logo no início do jogo e, aparentemente, desprotege o rei,  mas, na pratica, obtém uma liberdade de ações bem maior a partir disso, ganhando o domínio que vem da iniciativa. Tanto essa jogada quanto o <em>Gambito da Dama</em> são estratégias de quem sabe jogar, e não de iniciantes sem técnica nem equilibro emocional.</p>
<p style="text-align: justify;">Na vida também é assim, mas é claro que há variações importantes. Todos os dias fazemos escolhas <em>soft</em>, cujos enganos não provocarão maiores consequências. Se você errar no prato no restaurante ou no filme na locadora, ou se escolher uma roupa leve em um dia em que faz frio, tudo bem, a encrenca não é tão grande assim. O complicado é errar nas escolhas <em>hard</em>, como a profissão, os investimentos ou a pessoa com quem se casar e compartilhar a vida. Felizmente fazemos mais escolhas <em>soft</em> do que <em>hard</em> neste passeio pela vida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A possibilidade do “e”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mas nem tudo está perdido. Disse Einstein que nós não podemos resolver um problema usando o mesmo estado mental que o criou. É necessário buscar novas possibilidades, aceitar a existência de caminhos não vistos no primeiro olhar. E, nessa busca, sempre podemos contar com a possibilidade do “e” em vez do “ou”. A inclusão como alternativa à exclusão.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem sempre dá, mas não podemos descartar essa possibilidade, e até contar com ela. Aliás, há situações em que esta é a única saída. Voltando a falar dos economistas e dos pensadores no futuro da sociedade humana, há um tema que gera muita polêmica. Trata-se da disputa entre crescimento da economia e a sustentabilidade do planeta.</p>
<p style="text-align: justify;">Os que pregam o crescimento econômico são acusados pelos ambientalistas de não se preocuparem com a sustentabilidade do planeta, e estes são chamados por aqueles de patrocinadores do atraso. Durma com um barulho destes. Felizmente existem cérebros atuantes, cientistas, estadistas, pensadores que afirmam ser possível promover desenvolvimento protegendo a Natureza. Desenvolvimento <em>com </em>sustentabilidade. Geração de riqueza <em>e </em>preservação do meio ambiente.</p>
<p style="text-align: justify;">Para isso, claro, temos que falar de coisas novas, como reflorestamento, reciclagem, eficiência, novos materiais, pesquisa pura e aplicada, consumo consciente. Novos modelos mentais. Como se vê, fazer a opção pelo “e” requer investimento, tempo e inteligência. É mais fácil escolher um, ignorar o outro e tentar dormir tranquilo.  </p>
<p style="text-align: justify;">A inclusão é a solução ideal, quando possível. Se não, é necessário escolher e arcar com todas as consequências que fazem parte do pacote. O direito de escolher é atributo do mundo livre, o que é muito bom, claro. Nos países totalitários, em que ditadores comandam tudo com mão de ferro, a população não tem que fazer muitas escolhas, porque o estado faz por elas.</p>
<p style="text-align: justify;">Viver com liberdade aumenta a responsabilidade e a ansiedade, mas viver sem ela aumenta o sentimento de impotência e o resultado pode ser a tristeza e a depressão. Sinceramente, se este é o preço, fico com a ansiedade. E viva a liberdade de escolha.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>O Uróboro e a Sustentabilidade</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Dec 2011 15:42:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
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		<description><![CDATA[Somos nosso maior predador, por isso, para preservar o meio ambiente, precisamos nos conscientizar de que a mudança não depende de vontande política, mas sim das nossas ações diárias]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>O mito</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A serpente é um animal cheio de simbolismos. Aparece em Gênesis armando confusão entre Adão e Eva; representa a fertilidade em Canaã; a força política no Egito; e a renovação da vida no Caduceu de Mercúrio – o estandarte símbolo da medicina.</p>
<p style="text-align: justify;">A serpente é ambígua, pois representa, simultaneamente, o medo e a admiração, o respeito e a inveja, o belo e o horrível. Ao mesmo tempo em que a detestamos pelo perigo de seu veneno e por sua capacidade de aparecer e desaparecer de repente; admiramos a elegância de seus movimentos e sua a liberdade – mesmo presa em um aquário, parece livre, pois aquieta-se, ocupa todos os espaços disponíveis e apodera-se da segurança que o cativeiro lhe fornece.</p>
<p style="text-align: justify;">E foi no Egito que surgiu uma versão única da serpente: aquela em que ela aparece comendo sua própria cauda – o uróboro. Esta serpente que se engole quer representar o eterno recomeço da vida, mas permite outras interpretações.</p>
<p style="text-align: justify;">Usemos a imaginação: ao formar um círculo, o uróboro cria um espaço interno e outro externo. O lado de dentro simboliza o mundo percebido, a vida como a conhecemos, a matéria, o concreto, a natureza, a ciência. E, no lado de fora, de dimensão desconhecida, provavelmente infinita, caberiam todos os mistérios da vida, de sua origem e de seu fim – os grandes dilemas humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Fora do uróboro está Deus, e nele estamos contidos, pois o círculo criado pela serpente delimita um espaço do todo e fragmenta o infragmentável criando um fractal do infinito. Nossa esperança infantil e nossa arrogância ingênua desejam que o uróboro abra a boca e nos coloque em contato com o todo, com o divino, para então dominá-lo, sem percebermos que provavelmente seriamos absorvidos pelo infinito e pelo eterno, tornando-nos nada.</p>
<p style="text-align: justify;">É confuso? Pode ser, mas é também fantástico. É só prestar atenção para descobrir que se o uróboro continuar a se comer terminará por consumir-se e desaparecerá deixando-nos ao mesmo tempo sem o interno e sem o externo. Por outro lado, se parar de se alimentar desaparecerá por inanição, e a humanidade morrerá com ele. Parece que não temos saída.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, diz a lenda que o uróboro, ele mesmo, não teme por sua sorte, pois descobriu o segredo da vida eterna, da sustentabilidade infinita. Ao alimentar-se de si mesmo, mantem-se vivo, cresce e providencia a substância que irá alimentá-lo novamente. E nesse moto-perpétuo, absorve energia do externo, do todo, e mantém o interno vivo. A sabedoria do uróboro reside em não parar de alimentar-se, porém, sem extrair, de si mesmo, mais do que necessita para manter-se capaz de continuar produzindo a substância que lhe garante a vida. Uau!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A consciência </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Pode parecer exagero, mas o uróboro nos ensina o segredo da sustentabilidade: não consuma mais do que você precisa para manter-se vivo, e use o resultado de sua produção para recompor o substrato que lhe permita produzir. Simples assim. Sim, simples, mas não fácil.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1987 uma bela e poderosa mulher, a norueguesa Gro Harlem Brundtland, subiu com passos decididos na tribuna da ONU e explicou: “Sustentabilidade é satisfazer as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa definição fazia parte da Declaração Universal sobre a Proteção Ambiental e o Desenvolvimento Sustentável, que passou a ser conhecido por “Relatório Brundtland” em homenagem a Gro, que havia sido primeira-ministra de seu país e que agora ocupava a presidência da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa declaração encontramos propostas para novas formas de providenciar o progresso humano, sem comprometer a fonte da riqueza. O mundo se desenvolve, a população se multiplica, a economia se expande. Mas cuidado, pois nos dias em que vivemos não podemos abordar os temas clássicos como a geração de riqueza, a política internacional, a educação de jovens, a administração de empresas, sem colocar na pauta o crescimento sustentável.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia é transformar a inteligência humana em aliada do planeta, levando o homem a maneirar com o seu instinto predador. Sustentabilidade tem a ver com a prática de consumir sem esgotar, de viver sem comprometer a vida, de ter responsabilidade com o futuro. E isso tem a ver com o que cada um de nós faz em seu dia a dia, e não apenas com os pensadores e os políticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensar no futuro não é mais – ou não deveria ser – tarefa exclusiva dos futurólogos e preocupação apenas dos ecologistas. Deveria estar na ordem do dia de cada habitante deste planetinha, o único que temos, diga-se. Para isso seria necessária a criação de uma nova consciência humana, a de que, cuidando, não vai faltar. </p>
<p style="text-align: justify;"> <strong>A realidade</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mas, o que acontece é que a competitividade global está dificultando a sobrevivência das empresas e das pessoas, e é difícil, vamos ser honestos, alguém pensar no futuro se está com dificuldades para garantir o presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos nós temos necessidades imediatas e procuramos atendê-las rapidamente, pois elas nos provocam desconforto ou sofrimento. Só que a modernidade acrescentou novas necessidades à nossa sobrevivência. O homem de antigamente precisava de comida, roupas, abrigo. Hoje também, mas agora acrescentamos outras prioridades como educação, lazer, relações, tecnologia, comunicação, transporte de massa. Além disso, mudou a frequência das necessidades. Assim como a comida, hoje consumimos outras coisas que precisaremos consumir de novo amanhã, e depois-de-amanhã, em uma escala muitas vezes crescente.</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica da sustentabilidade nos obriga a pensar sobre a linha do tempo próxima e remota, pois precisamos atender às necessidades pessoais de hoje lembrando que teremos outras amanhã. Vem daí a ideia da sustentabilidade pessoal. Usando o exemplo do consumo, apenas medir se uma prestação cabe no orçamento e enfiar-se em uma dívida para comprar algo que precisamos no momento pode prejudicar o orçamento por um bom tempo e, como consequência, as necessidades do amanhã.</p>
<p style="text-align: justify;">O conselho é este: você até pode gastar hoje o que vai ganhar amanhã, desde que não perca de vista que amanhã você vai ter outras coisas para gastar. Desejos e recursos são passageiros do mesmo barco. E isso vale para o planeta, para uma empresa, para uma família e para cada um de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">É famosa a história daquele playboy que herdou uma grande fortuna e resolveu dedicar a vida apenas a gastá-la. Ele fez um cálculo simples, reservando uma parte do dinheiro para cada ano que ele imaginou que iria viver. Só que ele foi surpreendido por sua boa saúde: viveu muito mais do que imaginava. A consequência foi que ele passou cerca de vinte anos com extrema dificuldade para se manter, e como não havia se preparado para exercer nenhuma profissão, não tinha como ganhar dinheiro. Dependeu da ajuda de parentes e amigos até para comprar comida e remédios. Foi uma vida não autossustentável.</p>
<p style="text-align: justify;">Guardadas as proporções, isso acontece com muita gente que não previne seu futuro, o que poderia ser feito através de uma poupança, de um negócio ou de um plano de previdência. E é também o que está acontecendo com o planeta, pois estamos gastando demais seus recursos sem preocupação com seu esgotamento. Quem vai pagar essa conta são nossos descendentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O legado</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Com frequência nos perguntamos que planeta queremos deixar para nossos filhos, mas deveríamos mesmo é nos perguntar que filhos queremos deixar para o planeta. A ideia da sustentabilidade passa, necessariamente, pela educação, pela criação de uma “mentalidade sustentável”. Há comunidades em que a ideia da sustentabilidade faz parte do senso comum, não é apenas uma visão cientifica, política ou acadêmica. Faz parte do cotidiano. Mas, nesses casos, houve investimentos em educação, e não apenas na criação de leis, normas e punições.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Curitiba, um exemplo que eu conheço bem, a separação doméstica de lixo é uma das maiores do mundo. Quase ninguém deixa de separar o lixo comum do lixo reciclável em casa. Todo o material de plástico, vidro, papel ou tecido é armazenado em algum lugar e entregue a um caminhão especial, verde, que passa duas vezes por semana, em todos os bairros da cidade – o caminhão do “lixo que não é lixo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste caso, três fatores contribuíram: a educação das crianças nas escolas, a competência da prefeitura que manteve a coleta seletiva e a ação do tempo. Esse programa levou trinta anos para se consolidar. As novas gerações educaram as mais velhas, numa maravilhosa inversão dos fatos históricos. Os filhos ensinaram os pais o que haviam aprendido na escola. É um belo exemplo de preocupação com a sustentabilidade de uma cidade, no que diz respeito ao manejo de matérias que podem ser recicladas e reaproveitadas para produzir novas coisas.</p>
<p style="text-align: justify;">Educação, conscientização, estratégias, recursos. Talvez pudéssemos chamar tudo isso de vontade política, o que não tem a ver apenas com os políticos, e sim com cada pessoa. Eu, pessoalmente, durmo melhor quando sinto que, naquele dia, pratiquei algo que, de alguma forma colaborou com o meio ambiente. Pode ser a economia de água, o uso de transporte coletivo, o fato de dispensar a sacola plástica do supermercado levando uma sacola de pano, coisas pequenas, mas que são as que vão fazer a grande diferença no final. Isso é o que o Capra chama de <em>ecoliteracy</em> – alfabetização para a ecologia.</p>
<p style="text-align: justify;">É urgente que caminhemos em direção a essa alfabetização. E é bom que tenhamos pressa, porque o uróboro está quase abrindo a boca&#8230;</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>De bem com a vida</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 14:26:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“Cuidado, a vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada embaixo: Deus! e com firma reconhecida”.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A frase acima só podia ser de um poeta transgressor como Vinícius de Moraes. É uma das partes faladas do Samba da Benção que ele compôs e Baden Powell musicou. Enaltecendo a beleza do samba e a aventura do amor, ele fala mesmo, em seus versos, da arte de viver. Pede benção aos amigos e diz que já viajou muitas canções, mas que ainda há muitas para viajar.</p>
<p style="text-align: justify;">Os versos de nosso “poetinha” resumem como poucos a dupla função da poesia composta por beleza e verdade: agrada os sentidos e faz pensar. “Cuidado, a vida é pra valer”, não é algo a ser desperdiçado, até porque “Não se engane não, tem uma só”. Por isso temos que estar de bem com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Estar de bem com a vida. Este é um tema que ultrapassa o terreno estéril das frases de efeito e chega ao território fecundo da filosofia. &#8220;Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão”, disse Nietzsche, para depois admitir que invejava a leveza desses seres. “Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arrancam lágrimas e canções”, completou. Pois até o mal humorado filosofo alemão admitiu que há virtude em se buscar a paz com o viver.   </p>
<p style="text-align: justify;">E o que é estar de bem com a vida senão a capacidade de manter um estado de alegria a despeito das vicissitudes da própria? É claro que a vida é dura, injusta e muitas vezes cruel. Todos sofremos com a perdas e com as angústias próprias do viver, mas não é disso que estamos falando. As condições externas influem, sim, mas o tema aqui é o estado da alma.    </p>
<p style="text-align: justify;">Não me agrada o discurso fácil da auto ajuda que insiste que você tem a obrigação de ser feliz. Não, felicidade não é uma obrigação nem uma competência. Não é uma alienação. Felicidade nem sequer é um estado definitivo, e, com certeza não é um lugar onde se pode chegar. Por outro lado, não me agrada também a condição das “vítimas do sistema”, que se orgulham de sua amargura e a exibem como um troféu conquistado.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheço pessoas que souberam lidar bem com as dificuldades naturais de suas existências e conheço outras que se transformaram em vítimas tristes nas mesmas condições. É claro que há situações de extrema dificuldade, e negar a tristeza que vem junto é negar a própria condição humana. Mas esta não é a questão. Não me refiro às tragédias, e sim às dificuldades corriqueiras, que impregnam nosso cotidiano como o musgo na face sul do tronco das árvores, e que podem, com o tempo, apagar o brilho de viver. A menos que não se deixe que isso aconteça.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei pessoas de bem com a vida nas grandes cidades, trabalhando em imensas corporações. Encontrei também em pequenas vilas do interior ou do litoral. Em lugares pobres e em lugares ricos. Em tempos de tranquilidade e em tempos de crise. Ou seja, em todos os lugares. E também encontrei pessoas de mal com a vida. Onde? Exatamente nos mesmos lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Este talvez seja um dos grandes mistérios da psicologia humana. O que faz a diferença entre esses dois tipos de indivíduos? Será sua genética ou terá sido sua educação?       </p>
<p style="text-align: justify;">Lembro de meus colegas de colégio. Estávamos todos naquela fase de definir o futuro, de escolher a faculdade, de sonhar com o sucesso. Eu, por exemplo, já tinha me decidido: queria ser médico. E também queria ser rico, famoso, comprar um carrão, viajar bastante e ter um monte de namoradas, claro. Afinal, éramos todos adolescentes, cheios de espinhas e de sonhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia ali os futuros engenheiros, advogados, empresários, e até um diplomata.  E havia Fabinho. Ele não tinha planos grandiosos, não queria ficar rico nem famoso. Quando alguém lhe perguntava o que queria ser na vida ele respondia com um sorriso: “Eu quero ser feliz”. E eu via sinceridade em sua afirmação.</p>
<p style="text-align: justify;">O Fabinho era desses garotos raros que, ao contrário da maioria, não parecia estar em guerra contra o mundo. Não tinha inimigos, não se “empatotava” para odiar a outra “patota”. Não se queixava das exigências dos professores nem da dureza das provas, que, aliás, ele tirava de letra.</p>
<p style="text-align: justify;">Fabinho não era rico, nem bonito, nem atleta talentoso. Ele era como a maioria, com virtudes e fragilidades. Era como eu, só que ele tinha algo que lhe era singular. Ele parecia estar de bem com a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei, como já disse muitos Fabinhos pela vida afora, como também encontrei seus opostos, os amargurados crônicos. Qual o segredo? Não sei, mas, pra começo de conversa, estou certo de que não existe uma fórmula para ser feliz, e se existir, ainda que seja apenas uma pista, com certeza ela é pessoal e intransferível, pois felicidade é um conceito concebido individualmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto pessoas de bem com a vida têm, sim, algo a nos ensinar. A primeira lição é que elas não caem na armadilha fácil da felicidade imediata, aquela que é confundida com o prazer descartável, nem transformam a felicidade em um eterno projeto futuro. Gente de bem com a vida percebe que felicidade é um estado interior que não precisa ser prejudicado pelo que acontece fora de nós, e também se dá conta que, se a única coisa que existe de fato é o presente, o futuro vai virar presente e, quando isso acontecer, ele será tão melhor ou tão pior dependendo das providências que tomarmos no presente atual.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um quê de sabedoria nessa postura, e um monte de inteligência aplicada ao bem viver, pois, em síntese, quer dizer que temos que viver o presente com um olho posto no futuro, aproveitar cada instante como se fosse único e, ao mesmo tempo, organizar-se para o dia de amanhã para não ser tomado de assalto por notícias ruins nas esquinas da vida. Então é isso, estar de bem com o tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, espere um pouco, tem mais. É necessário equipar-se com alguns artigos de primeira necessidade para alimentar a felicidade, nada muito complicado, acredite. Algumas coisas são óbvias, mas invisíveis como o ar, que só é percebido quando falta. A saúde, por exemplo. Então é melhor cuidar da dita cuja, pois não dá pra ser feliz e doente ao mesmo tempo, e não importa a fase da vida. O mesmo se dá com a grana, a bufunfa, o tal do dinheiro. É parecido com o ar e a saúde, só damos valor quando falta. O ditado popular insiste, há séculos, que dinheiro não traz felicidade. Estou inclinado em acreditar nisso até certo ponto, pois se o dinheiro não te faz feliz, a falta dele, provavelmente, vai te tirar o sono e prejudicar sensivelmente a felicidade interna bruta.</p>
<p style="text-align: justify;">Resolvidos os requisitos básicos, que atrapalham a busca da felicidade se estiverem ausentes, é hora de cuidar dos ingredientes da verdadeira felicidade, aquela que dá gosto de sentir. E eles são pelo menos três: o que fazemos para viver, como gastamos nosso tempo livre e, talvez o mais importante, com quem compartilhamos tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;">O que fazemos para viver, evidentemente, é nosso trabalho. Ele nos dá o sustento e a dignidade, mas pode nos dar mais, pode dar o verdadeiro sentido da vida. Todos os trabalhos são dignos, mas temos que ouvir nossa vocação e perceber o significado daquilo que fazemos. Assim teremos, não só um trabalho, mas uma carreira; e não realizaremos apenas tarefas, mas causas. Não acho que alguém, para quem o trabalho seja um peso, possa ser feliz de fato. Você se contentaria em ser feliz só depois do expediente e, ainda por cima, odiar a vinheta do Fantástico, que é o prenúncio da segunda feira?</p>
<p style="text-align: justify;">Cuidar do tempo livre é ter disposição para se divertir. O prazer, a alegria, a diversão são tão importantes quanto seu trabalho ou o estudo. É desse equilíbrio que sai o caldo de cultura que vai alimentar a felicidade. E curtir a vida tem mais uma vantagem: quando você ficar velho terá boas lembranças como lenitivo para a vida mais recolhida.</p>
<p style="text-align: justify;">Por último, mas muito longe de ser menos importante, as relações humanas. Geneticamente não estamos preparados para a solidão, que só é boa quando é por opção, e, ainda assim, por pouco tempo. Ter amigos, curtir a família, cultivar boas relações com seus colegas de trabalhos e vizinhos do condomínio. As boas relações nos fazem felizes sim, alimentam nosso espírito gregário, nos fazem perceber que somos queridos, geram autoestima.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, é bom que se diga, há uma relação humana especial, que tem um imenso poder de agregar felicidade, que transforma silêncio em música, folha em flor, distância em saudades, toque em sedução, sorriso em esperança. Estou falando da pessoa especial que está a seu lado, seu companheiro, sua companheira de jornada. Estou falando do amor verdadeiro, que existe, sim, e é bom, muito bom.</p>
<p style="text-align: justify;">Não conheço os detalhes da vida do Fabinho, mas quem me fala sobre ele relata que ele tem andado por aí com aquela cara que só os apaixonados têm, um misto de paz e entusiasmo, a combinação pra lá de perfeita. No fundo, no fundo, não é difícil ser feliz, mas dá um certo trabalhinho cuidar desses detalhes. E o fator acaso? Existe, afinal? Claro que existe, mas seu potencial para gerar felicidade é diretamente proporcional à atenção e inversamente proporcional ao descaso.</p>
<p style="text-align: justify;">Já se disse que o acaso tem sempre a última palavra. Mas podemos rever esse conceito, afinal, a última palavra pode estar com cada um de nós, e é dita por aquilo que fazemos com o que o acaso fez conosco.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>A pergunta certa</title>
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		<pubDate>Thu, 06 Oct 2011 17:51:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Conseguir uma boa resposta para nossas dúvidas - cotidianas ou existenciais - depende apenas da maneira como questionamos]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">- O que aconteceu? Quem fez isso? Como é que pôde acontecer uma coisa dessas?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa coleção de perguntas foram disparadas pela vizinha de uma casa, enquanto os bombeiros faziam seu trabalho de rescaldo após terem dominado o fogo que quase a consumira por inteiro. Seus moradores, atônitos, não conseguiram responder. Eles mal entendiam o que estava acontecendo.</p>
<p style="text-align: justify;">O chefe dos bombeiros, um homem grisalho, calejado pelos anos dedicados a acudir tragédias e, quando possível, mitigar o sofrimento humano, afastou gentilmente a vizinha tagarela da família que olhava a cena, incrédula. Foi quando chegou uma segunda vizinha que falou suavemente com ele, dizendo:</p>
<p style="text-align: justify;">- Desculpe, senhor, gostaria de saber: há alguma coisa que possamos fazer para ajudar?</p>
<p style="text-align: justify;">- Obrigado – respondeu o bombeiro – por enquanto, tudo o que você pode fazer é consolar a família, quem sabe recolhendo-a à sua casa. Ah, e obrigado também por fazer a pergunta certa.</p>
<p style="text-align: justify;">O bombeiro, institivamente, se referiu a um ponto crucial para ajudar a encontrar as respostas para nossas dúvidas, angústias e questionamentos dentro da fantástica complexidade do mundo em que vivemos: fazer a pergunta certa. Sem perceber estamos tomando decisões o tempo todo e nos posicionando nos instantes da vida. Encontrar as respostas que nos ajudarão a tomar decisões é fundamental, e o que custamos a perceber, é que as respostas existem a priori, desde que sejam feitas as perguntas certas.</p>
<p style="text-align: justify;">As três perguntas feitas pela primeira vizinha não tinham nexo, e as respostas, além de óbvias, seriam totalmente irrelevantes. Perguntar o que aconteceu diante de uma casa que pega fogo tem a mesma relevância que comentar o tempo dentro de um elevador com o morador do andar de cima, ou zoar com o amigo cujo time perdeu para o seu &#8211; nenhuma. Foram feitas apenas para satisfazer a curiosidade, não para agregar valor. Além disso, nenhuma pergunta é tão difícil de responder do que aquela cuja resposta é óbvia.</p>
<p style="text-align: justify;">Era evidente que a casa estava pegando fogo, era certo que a família estava sofrendo, estava claro que os bombeiros estavam controlando a situação. Como começou o fogo? Assunto para depois, agora é tratar de colaborar ou, pelo menos, de não atrapalhar. Realmente, a segunda vizinha fez a pergunta adequada: como posso ajudar?  </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O âmago da questão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Encontrar o centro geométrico de uma questão qualquer é a maneira de interpretar, entender, resolver e decidir. Só que, ainda que não pareça, fazer isso tem lá suas dificuldades. Leva tempo. Você já participou daquela brincadeira juvenil de descobrir quem é o personagem imaginado pelo outro, que fica respondendo apenas “sim” e “não”? Se você descobrir com poucas perguntas, ganha o jogo, se com muitas, perde.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois há técnica para encontrar a pista, fazendo as perguntas certas na ordem certa. O ideal é começar pelas perguntas mais genéricas, tipo “É homem?” ou “Está vivo?”, antes de tentar descobrir a profissão ou a nacionalidade. Os bons jogadores dificilmente passam de meia dúzia de perguntas para acertar em cheio.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois na vida também é assim. Entrevistadores de candidatos a emprego, executivos em processos de negociação e, claro, advogados e promotores nos tribunais, são especialistas em fazer a pergunta certa, aquela cuja resposta será definitivamente esclarecedora. </p>
<p style="text-align: justify;">Quando estudei medicina aprendi a conduzir a anamnese, que nada mais é do que a conversa que o médico tem com o paciente. Este diálogo é importantíssimo e, às vezes, tão revelador que, quando bem conduzido, já revela o diagnóstico. “Grandes clínicos são excelentes conversadores”, costumava nos dizer um famoso professor.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode não ficar claro para o paciente, mas o médico lhe faz basicamente três perguntas: Qual é sua queixa?, Como é sua família?, Quais são seus hábitos de vida? &#8211; Se essas três questões básicas forem respondidas adequadamente, é difícil que um médico bem preparado não tenha nas mãos pelo menos uma bela hipótese diagnóstica. O exame físico e os exames laboratoriais passam a ser apenas confirmadores de tal suspeita.</p>
<p style="text-align: justify;">Perguntas certas abreviam as respostas, aceleram o processo de tomada de decisão, e até permitem que o médico faça diagnósticos à distância. Recém formado recebi um telefonema de uma amiga da família pedindo uma indicação de um remédio, pois seu marido, um homem de mais de cinquenta anos, queixava-se de fortes dores no estomago. Fazendo as perguntas certas descobri que ele não tinha dores de estomago frequentes, não tinha se alimentado fora do padrão e, o mais revelador, a dor tinha começado imediatamente após ter trocado o pneu do carro. “Corra para o hospital com ele, é muito provável que ele esteja tendo um enfarte”. É comum que a dor do enfarte do miocárdio seja confundida com outro tipo de dor, e as perguntas certas me permitiram salvar a vida de uma pessoa querida. Orgulho-me dessa lembrança.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Chega de rodeios</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O tema da pergunta certa é muito sutil e, geral, passa ao largo de nossa atenção, pois se trata de algo aparentemente óbvio. Mas não é. Gasta-se muita energia com interlocuções que não chegam a lugar nenhum, simplesmente porque alguém faz uma pergunta errada e ela desvia totalmente o rumo da conversa. Pense um pouco, já aconteceu com você.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode parecer exagero, mas existe uma organização que foi criada exatamente para estimular que se façam as perguntas certas nos lugares onde isso é crucial para que os bons resultados sejam atingidos. Trata-se da <em>Right Question Institute </em>(Instituto da Pergunta Certa), cujo nome não podia ser mais assertivo. Localizado próximo à cidade de Cambridge, na costa leste dos Estados Unidos, o Instituto tem como missão promover o uso de estratégias simples, poderosas, baseadas em evidências, que ajudam as pessoas a aprender a ajudar a si mesmas. Nobre missão.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia do RQI não começou num laboratório ou a partir de uma estudo acadêmico. Começou com um programa de prevenção de abandono escolar, durante o qual notou-se que os pais dos alunos que não se envolviam na educação de seus filhos justificavam sua ausência dizendo que “nem sabiam o que perguntar a eles”.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir dessa observação os educadores identificaram um imenso obstáculo de relacionamento dos pais com os filhos, mas também de cada pessoa consigo mesma, pois também devemos nos fazer as perguntas certas, para começarmos a encontrar nossos próprios caminhos.</p>
<p style="text-align: justify;">O RQI admite ter cometido um erro. Assim que perceberam a importância das perguntas certas, seus fundadores criaram uma lista de perguntas recomendadas para tais pais. Rapidamente essa estratégia os direcionou para uma rua sem saída, pois aumentou a dependência dos pais que queriam ajudar na educação de seus filhos. Perguntas certas não podem ser padronizadas, a não ser em situações extremamente controladas, como uma consulta médica. Na vida, o buraco é mais embaixo.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi assim que perceberam que precisavam encontrar uma forma de ensinar as pessoas a formular suas próprias perguntas. Claro, esse é o caminho da autonomia, essa grande riqueza humana.  Foi a origem do Question Formulation Technique (Técnica de Formulação de Questões) que, se bem aplicado, remove as barreiras que impedem que se vá direto ao ponto. A forma mais eficaz de formular perguntas é focar as perguntas nas decisões chaves que nos afetam, o que é mais difícil do que parece, pois todos temos uma imensa compulsão de não querermos enfrentar de frente nossas questões mais dolorosas.</p>
<p style="text-align: justify;">A evolução de tal trabalho deu origem ao <em>Framework for Accountable Decision-Making </em>(Estrutura para Tomada de Decisão Responsável) que passou a ser adotada por escolas e empresas. É, a coisa é séria. Tão séria que os pesquisadores notaram uma correlação direta entre a capacidade das pessoas fazerem perguntas certas e, pasme, a instalação e manutenção dos estados democráticos. Cidadãos que não permitem que se tape o sol com a peneira, e que fazem a seus representantes no governo as perguntas que interessam, não se deixam enganar, reivindicam seus direitos e são mais colaborativos. Poderia haver maior poder para a pergunta certa?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Esteja atento</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como já disse, quando fazemos as perguntas certas, somos surpreendidos com a facilidade com que as respostas surgem. Estas já existem, só precisam ser acessadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha amiga Dulce, uma pessoa pra lá de sábia, com quem dá gosto de trocar uma ideia, defende a teoria de que estamos cercados de respostas, é só olhar em volta. Nos livros, nas músicas, nos poemas, também no semblante das pessoas, na reação delas e, por incrível que pareça, até em cartazes e sinais de trânsito.   </p>
<p style="text-align: justify;">Conta que certa vez acompanhava uma pessoa em uma visita à sua empresa, ouvindo no carro, uma enxurrada de queixas sobre sua vida profissional e pessoal. Foi quando ela lhe estimulou a fazer-se a si mesmo, a pergunta crucial, aquela que tocava na ferida, e que, por isso mesmo ele tratava de evitar. Ele então disse algo como “Por que ando tão infeliz, se, afinal, até aqui, consegui tudo o que desejava?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse momento eles estavam chegando na entrada da empresa que, muito preocupada com segurança, tinha, em seu portão uma guarita, um guarda e um cartaz que dava cinco instruções aos chegantes: Pare. Apague as luzes externas. Acenda as luzes internas. Identifique-se. Siga.</p>
<p style="text-align: justify;">Aquele era o portão pelo qual ele passava todos os dias, e nunca tinha reparado naqueles dizeres, ou nunca havia lhes dado outra interpretação que não a de definirem procedimentos de segurança. Mas a resposta estava para seu dilema existencial estava ali, diante de seus olhos. Mansamente, Dulce apontou aquele cartaz e lhe disse:</p>
<p style="text-align: justify;">- Pois aí está uma boa sugestão. Você está precisando de um tempo para você mesmo antes de prosseguir. Se não aumentar sua consciência e não diminuir a dependência do mundo para tomar suas decisões, dificilmente se encontrará a si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois é, parece que o que não faltam no mundo são respostas. A carência maior é de perguntas certas. Não evite as perguntas, não tenha medo delas, elas é que são o caminho. Afinal, como disse o Bruce Lee, filosofando, entre uma luta e outra: “Um homem sábio aprende mais com uma pergunta tola do que um tolo aprende com uma resposta sábia”. </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>Batendo na mesma tecla</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Aug 2011 16:47:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[As pessoas tendem a repetir modelos de comportamento com frequência. Por que isso acontece, mesmo quando essa reincidência provoca erros e sofrimentos]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho facilidade para despertar de manhã. Se o telefone toca e estou dormindo, abro os olhos e atendo sem que a pessoa note que acabou de me acordar. Foi o que aconteceu quando meu amigo Lino me ligou um pouco depois das 6 da manhã de um sábado.</p>
<p>- Alô.</p>
<p>- Preciso de sua ajuda. Desta vez, é sério. – disse, afobado, como se das outras vezes que me ligou pedindo ajuda também não fosse séria a encrenca em que se metera.</p>
<p>- Então comece do começo – disse eu – e fale devagar.</p>
<p>- Na verdade é pouca coisa. Nada que vá tirar seu sono por muito tempo.</p>
<p>Achei interessante o “por muito tempo”. Isso significava que no mínimo eu perderia o sono por algum tempo, como já havia acontecido antes. O Lino é um desses amigos que nós costumamos amar e detestar na mesma proporção, dependendo apenas do momento. Mas, afinal, amigos são para essas coisas, como diz o ditado. Não se é amigo de alguém apenas na festa, mas também na ressaca. Eu tinha que ter paciência com ele.</p>
<p>O Lino é um jovem que costuma ser alegre como uma criança, otimista como um adolescente e, às vezes, ranzinza como um velho. O que lhe falta são os traços da maturidade, coisas como responsabilidade, segurança, tranquilidade. O número de vezes que se meteu em enrascadas pelo simples fato de tomar atitudes impulsivas e impensadas provavelmente o candidataria ao livro <em>Guinness</em> na categoria “Trapalhadas”, se ela existisse.  </p>
<p>Festeiro como ele só, certa vez se fez passar por amigo do namorado de uma aniversariante, filha de um rico empresário, só para entrar na festa e dançar com uma das convidadas, em quem estava interessado. O que ele não sabia, é que tal moça era irmã do tal namorado. Acabou sendo desmascarado e convidado a se retirar por um dos seguranças da festa, conforme nos contou depois. No dia seguinte, claro, me ligou pedindo que eu intercedesse em seu favor junto à família da moça – que eu conhecia –, para que o mal estar fosse interpretado como uma travessura inocente, e não como uma atitude cafajeste, própria de um mau caráter.  </p>
<p>E Lino, de fato, não pode ser classificado como um mau caráter. É apenas uma pessoa com dificuldades na área do aprendizado e do amadurecimento. Costuma repetir erros com uma frequência bem acima do considerado normal e aceitável dentro de um processo de crescimento pessoal. Ela já está passando dos 40, é inteligente, competente, mas não para muito tempo em um emprego. A alegação costuma ser a mesma: Lino está em busca de novos desafios. Como é muito bom no que faz, acaba se colocando rapidamente, mas vai deixando para trás um currículo recheado de decepções. “Ele é muito bom, mas é inconstante”, dizem seus antigos empregadores.</p>
<p>Naquela manhã o assunto era mais sério do que ele estava tentando aparentar, e envolvia dinheiro.</p>
<p>- Preciso de um favor – disse. Fui numa festa que tinha uma mesa de jogo e você sabe como eu não resisto a um carteado. O jogo era a dinheiro, e eu comecei ganhando, mas me empolguei e acabei perdendo tudo. Agora preciso pagar e não tenho dinheiro suficiente para sacar no caixa eletrônico. Falta pouca coisa, mas preciso de sua ajuda. Depois a gente acerta tudo, OK? O que ele precisava não era muito, então concordei com o empréstimo, e prometi que faria a transferência imediatamente pelo <em>bankline</em>, desde que ele viesse tomar café em minha casa para que pudéssemos conversar. Ele agradeceu aliviado e concordou animado. Quando chegou, não tinha cabeça para conversar. Deitou em um sofá e dormiu até tarde.</p>
<p><strong>Enquanto o observava, pensei: “Porque esse ‘cabeça dura’ fica repetindo esse comportamento autodestrutivo? Será que ele não aprende nada com cada burrada que comete?”.   </strong></p>
<p>Também me perguntei se a tendência humana de repetir comportamentos, mesmo que eles tragam consequências pouco apreciadas, seria comum a todas as pessoas.</p>
<p>Eu não queria recriminar meu amigo. Eu queria que ele me explicasse – e a si mesmo – por que ele repetia tanto um modelo de comportamento que, visivelmente, o estava prejudicando.</p>
<p>No fundo eu sabia que eu mesmo estava agindo errado, pois ao ajudá-lo eu estava, ao mesmo tempo, acobertando sua tendência a repetir erros. Naquele momento lembrei-me de uma frase do psicólogo behaviorista John Watson, que ajudou a criar a controvertida corrente da psicologia que afirma que nossas atitudes são condicionadas mais pelas respostas que recebemos do mundo ao nosso redor e menos à qualidade de nosso pensamento.  “Quando ouço uma mãe dizer ‘Ai, coitadinha!’ quando a criança cai, ou dá uma topada no pé, ou quando lhe acontece alguma outra coisa ruim, costumo caminhar uma quadra para me acalmar”.</p>
<p>Segundo Watson, ao tentar amenizar a dor com o carinho, a mãe priva a criança de aprender com o próprio sofrimento, um aprendizado que colaboraria com seu estado de atenção &#8211; qualidade importante para não repetir o comportamento que lhe provocou a dor.</p>
<p>Na prática, e eu estava fazendo isso com o Lino. Para diminuir minha culpa eu o havia ajudado, mas intimado para ouvir um sermão. Será que adiantaria alguma coisa? E será que Lino é um caso isolado? Ou é apenas um caso extremo, e todos nós temos um pouco de repetidores de padrões comportamentais destrutivos?</p>
<p>Enquanto esperava que meu amigo acordasse para ter com ele “aquela conversa” fiquei me fazendo essas perguntas e buscado em mim mesmo sinais dessa síndrome. Para meu espanto, comecei a identificar, sim, em algumas atitudes minhas, as qualidades de um repetidor contumaz de comportamentos reprováveis.</p>
<p>Lembrei-me quantas vezes procrastinei coisas importantes, deixando para a última hora as providências necessárias. Pensei em quantas vezes usei o cartão de crédito por mero impulso, para comprar coisas que não precisava. Analisei aquela vez em que, ainda muito jovem, tinha terminado um namoro pernicioso só para começar outro absolutamente igual. Sim, atitudes repetidas geram padrões de comportamento. “Padrões&#8230;” – pensei eu, como uma cobaia de laboratório. “Sou humano” – aleguei em pensamento, para minha própria defesa. Mas não adiantou muito, pois já tinha passado de juiz a réu, tendo como acusador minha própria consciência.</p>
<p><strong>A experiência pessoal é uma grande fonte de aprendizado. Por que então as pessoas parecem não aprender nada com o que fazem repetidamente? </strong></p>
<p>Desde que Pavlov nos explicou a existência de reflexos condicionados, sabemos que qualquer ser vivo responde positivamente a impulsos agradáveis e procura afastar-se instantaneamente dos fenômenos que o fazem sofrer. Tentar entender por que repetimos comportamentos inconvenientes exige um esforça maior do que usar os princípios do comportamentalismo. Precisaríamos entender as diferenças de percepção e de valores entre as pessoas.</p>
<p>Lembro de um treinamento do qual participei, em que o instrutor fez um exercício curioso. Cada pessoa recebeu um determinado número de palitos de fósforo, e foi orientada a criar com eles, no chão, um quadrado grande que continha nove quadrados menores em seu interior. A seguir, o desafio: mexendo apenas três palitos, transformar essa figura em três quadrados.</p>
<p>Há uma lógica na solução dessa tarefa, mas o instrutor não queria que usássemos o pensamento, apenas a percepção dos sinais externos.</p>
<p>Eu tinha que tocar um palito qualquer e observar o que acontecia a meu redor. Se não acontecesse nada, é porque o palito estava errado. Quando tocava o palito certo, ouviam-se aplausos, indicando que o caminho era esse.</p>
<p>Resolver a charada dessa forma era muito mais fácil e rápido do que tentar entender a lógica da solução. Bastava ouvir. Mesmo assim, vários participantes daquele não conseguiam resolver. Tocavam várias vezes nos palitos errados, agindo de maneira aleatória e até um pouco desesperada. À medida que o tempo passava e o nervosismo aumentava, a possibilidade de resolver pela percepção diminuía.</p>
<p>O resultado que ficou daquele exercício foi a reflexão sobre a tendência que os humanos têm de não “ler” os “sinais do universo”, para usar as mesmas expressões do instrutor. Isso acontece porque tentamos encontrar a resposta, ou a explicação, no lugar errado. Às vezes, quando temos apenas que observar, ficamos tentando racionalizar. Outras vezes fazemos ao contrário. Por quê? Responda corretamente e você se candidatará a um prêmio da academia de psicologia. É claro que essa predisposição é bastante variável entre as pessoas, como ficou provado pela diferença de tempo de resposta entre todos os participantes. Mas que todos nós temos um <em>delay </em>entre o acontecimento e o aprendizado, não há dúvidas.</p>
<p>Então, muita calma nessa hora. Sem julgar ninguém, muito menos a si mesmo, o que de melhor podemos fazer é continuar na luta pelo aprendizado diário. E aprender com os erros é um caminho. Não o único, mas é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada.</p>
<p>O problema que resta (sempre há mais um) é discutir o que é certo ou errado. Meu amigo Lino, por exemplo, nunca se convenceu que ele cometia irresponsabilidades. Em sua opinião, estava apenas “curtindo a vida”.     </p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>Uma experiência sensual</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Aug 2011 16:11:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vivemos uma era em que a sensualidade é muito valorizada. E isso não significa sexualidade nem tampouco vulgaridade]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Saí da Universidade Federal Fluminense (RJ), após uma palestra com um objetivo: visitar o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. “Nada mais fácil” – disse meu gentil anfitrião.</p>
<p style="text-align: justify;">E lá fomos nós em direção ao Mirante da Boa Viagem, aproveitando a maravilhosa visão que se tem da orla que hoje é chamada de Caminho Niemeyer. Estamos na boca da Baía da Guanabara, uma posição privilegiada voltada para a cidade do Rio de Janeiro, que se exibe faceira com seu relevo fantástico, em que o Pão de Açúcar é a peça de resistência. Aviões mergulham em direção ao mar encontrando o aeroporto Santos Dumont.</p>
<p style="text-align: justify;">E eis que de repente surge à nossa frente aquela obra futurista, um imprevisível disco de concreto que parece flutuar sobre o promontório como se estivesse se preparando para decolar em direção a seu planeta de origem: o incrível cérebro criativo de Oscar Niemeyer. Seu acervo é formado por arte do século 20, e o prédio é, sem dúvida, sua obra mais vistosa. Consta que o arquiteto percebeu que aquela paisagem pedia um prédio assim, e ele o viu imediatamente. Bastou acrescentar uma rampa e o projeto estava pronto.</p>
<p style="text-align: justify;">Se pudéssemos definir o MAC Nit, como é carinhosamente chamado, poderíamos utilizar vários adjetivos, como futurista, surpreendente, arrojado e, sem dúvida, poderíamos conceder a ele a qualidade de ser sensual, uma marca persistente na obra do arquiteto centenário que projetou. Sobre seu estilo, disse Niemeyer:</p>
<p style="text-align: justify;">“<em>Não é o </em><em>ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando o arquiteto define sua obra como sensual, ele quer dizer que deseja que ela agrade aos sentidos, que a beleza das curvas é, naturalmente, mais confortável à observação humana, que o belo atrai, conforta e enleva a alma. A sensualidade da forma é necessária. A obra que parece ter saído de um sonho nos ajuda a viver, pois precisamos do sonho para enfrentar a realidade.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sexo e Sensualidade</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não devemos, então, classificar de sensual algo que não tem uma conotação sexual? O concreto curvo de Niemeyer nos inspira a pensar e a ousar. A sensualidade que ele denota é o que buscamos para completar nossa capacidade de criar e de crescer. Sensualidade é vida, mas não necessariamente sexo.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, quando ouvimos falar em sensualidade, a maioria de nós pensa em sexo, acreditando um ser sinônimo do outro. Não é correto, ainda que haja alguma verdade nesse pensamento, pois a sensualidade certamente pode ser considerada como um ingrediente essencial para uma experiência sexual mais rica. No entanto, enquanto sensualidade parece ser parte essencial do sexo bom, a sexualidade não representa a única esfera da expressão sensual. Sensualidade é muito mais abrangente. Ela começa com a consciência e abarca todos os nossos sentidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ter um <em>approach</em> mais sensual nos leva a ter uma vida mais satisfatória e plena. Se você conseguir canalizar adequadamente seu estado mental, você poderá tornar qualquer experiência em uma experiência sensual. Comer um chocolate, apreciar uma refeição, meditar ou observar a sua própria respiração ou a de alguém. Dançar, sentir o cheiro de flores, olhar para o rosto da pessoa amada. Qualquer coisa!</p>
<p style="text-align: justify;">A sensualidade envolve uso dos sentidos, mas vai além, pois quando você traz a experiência para o nível da consciência e da intuição, aquele momento transcende a sensação. Sensualidade é uma forma de permitir que a paixão e a reverência entrem em sua vida – uma vida que passa a ser mais gratificante e apreciada, até mesmo nos momentos mais difíceis.</p>
<p style="text-align: justify;">O escritor americano James A. Baldwin disse que “<em>ser sensual é respeitar e exultar a força da vida, da vida por si só, e estar presente em tudo o que se faz, desde o esforço do amor até a feitura do pão</em>”. E ele tinha razão, a sensualidade representa e enaltece a força da vida e todas suas dimensões. Há poemas sensuais, músicas sensuais, sorrisos, flores, e animais sensuais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sedução</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto sensualidade é a qualidade de agradar aos sentidos, sedução poderia ser definida como a capacidade de atrair, encantar, fascinar o outro com o intuito de alcançar determinados objetivos. Visto desta forma, a sedução faz parte das relações de todos os tipos. Não é só o garoto que deseja seduzir a menina por quem ele está encantado. As pessoas em geral, todos nós, sem exceção, buscamos seduzir nossos interlocutores para que a haja melhoria na convivência e na qualidade de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma, quando produzimos algo, buscamos seduzir. A propaganda utiliza-se da sedução para induzir ao consumo. Os poetas e escritores querem seduzir os seus leitores para que estes não queiram largar seus livros. Os arquitetos, como o “rei das curvas” Niemeyer, buscam projetar prédios que tragam específicas sensações e transformem-se em objetos de desejo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas ciências sociais, sedução é o processo de incitar deliberadamente uma pessoa para atraí-la. A palavra sedução vem do latim e literalmente significa “afastar alguém dos seus votos, da sua lealdade”. Assim, concluímos que o termo possui uma conotação positiva, mas pode ter outra, negativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando vista pelo aspecto negativo, a sedução envolve tentação, normalmente de natureza sexual, para desviar alguém a uma escolha de comportamento que ela não teria não fosse tal estado de evocação sexual. Já vista pelo lado positivo, a sedução é sinônimo para o ato de encantar alguém através do apelo aos sentidos, com o objetivo de reduzir medos infundados.</p>
<p style="text-align: justify;">A moralidade da sedução depende dos impactos que a mesma apresenta sobre os indivíduos envolvidos em longo prazo, e não no ato por si só. A sedução é um assunto recorrente na história e na ficção, como alerta para as conseqüências sociais que o comportamento de seduzir e ser seduzido apresenta, pois se trata de uma poderosa habilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Na B<em>íblia</em>, Eva seduziu Adão oferecendo-lhe o fruto proibido. Eva, por sua vez, fora seduzida verbalmente pela serpente, reconhecida pela cristandade como o demônio. As sereias, na mitologia grega, encantavam os marinheiros e os levavam para a morte. Cleópatra cativou Júlio César e Marco Antônio. A rainha persa Scheherazade se livrou da morte ao contar histórias sensuais. Sem esquecer o lendário libertino Don Juan, cuja história foi contada por diversos autores.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, a sedução é uma alavanca poderosa que usa a sensualidade como seu forte ponto de apoio. Não é boa nem má, essa alavanca. Depende apenas de que objeto está sendo deslocado por ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas cuidado com a linha que separa o sensual do vulgar. Essa linha existe, e é tênue. Com freqüência é ultrapassada e, quando acontece, a mistura desanda totalmente. A vulgaridade é a tentativa de transformar a sensualidade no sujeito e não no predicativo.</p>
<p style="text-align: justify;">Com freqüência associada à imagem feminina, a sensualidade passou a ser explorada como um objeto que pode ter valor comercial. Não creio, sinceramente, que haja muitas distorções de valor maiores do que essa. O vulgar ofende, agride, enfeia. O vulgar não é belo, é desprovido de sensualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A mulher moderna é sensual. Tem sido vista como aquela que conduz sua vida dentro dos parâmetros da estética maior, que tem a sensualidade como uma aliada. A sensual não se expõe, não se oferece, apenas é. A mulher moderna não está esperando ser salva por um príncipe encantado; dispensa, com certo desprezo, o complexo de Cinderela.</p>
<p style="text-align: justify;">A sensualidade da mulher moderna está em sua postura, não nos pedaços expostos de seu corpo; está na convicção sobre seu direito à integridade, ao respeito, à oportunidade. Há sensualidade na firmeza de uma mulher, porque, diferente da atitude masculina, ela é suave, não ofende.    </p>
<p style="text-align: justify;">Há o sensual, o sexual e o vulgar. Podem habitar o mesmo continente, mas são separados por barreiras geográficas bem demarcadas. A vulgaridade é burra, a sexualidade é necessária, a sensualidade é divina. Não confundir esses territórios faz com que nossos caminhos pela sejam trilhados com mais segurança e com muito mais alegria.</p>
<p style="text-align: justify;">Sensualidade é saúde, movimento suave, olhar plácido, sorriso sincero, palavra bem colocada. É o senso de beleza precisa, sem artifício, sem exagero, com cuidado, atenção. A sensualidade é a matéria prima do poeta, e há quem o seja sem nunca ter escrito um verso. Sim, pois ser poeta na vida é ter apreciado a beleza do amor, é ter cantado o canto da paixão, é ter explorado o caminho sensual de uma relação sobre a qual se pode dizer que foi inteira.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>Vivendo por uma causa</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jul 2011 18:54:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Que tipo de pessoa é capaz de abandonar seu conforto e entregar seu trabalho e seu tempo a trabalhos voluntários? ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.sapiensapiens.com.br/wp-content/uploads/Zé-Pescador.jpg"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-2962" title="Zé Pescador" src="http://www.sapiensapiens.com.br/wp-content/uploads/Zé-Pescador-130x130.jpg" alt="" width="130" height="130" /></a>Os alunos da Escola Municipal estavam excitados. Naquele dia não teriam aula, ou pelo menos, eles achavam que não teriam. Seria mesmo difícil convencer os meninos e meninas do ensino fundamental que um passeio na praia em companhia dos professores e daquele simpático visitante seria uma aula. Mas era. E que aula.</p>
<p style="text-align: justify;">Em duas horas de alegre caminhada os jovens participaram de uma espécie de gincana em que ganharia mais pontos a equipe que coletasse mais garrafas plásticas e outros tipos de lixo que costuma se acumular nas praias brasileiras depois de um final de semana. O resultado foi impressionante: dezenas de garrafas de plástico e de vidro, latinhas de cerveja e refrigerante, pedaços de papel, isopor e até alguns velhos sapatos e sandálias abandonados foram recolhidos pelas crianças que, ao mesmo tempo em que limpavam a praia recebiam uma belíssima aula prática de sustentabilidade e de espírito cívico.</p>
<p style="text-align: justify;">- Vocês sabiam que na semana passada fizemos uma cirurgia para salvar uma tartaruga engasgada com um plástico e encontramos mais de vinte pedaços de material não degradável no estomago da coitadinha?</p>
<p style="text-align: justify;">- E eu já contei pra vocês a história do golfinho que devolvia lixo para a praia com seu focinho? A gente o chamava de golfixeiro, o golfinho lixeiro – O instrutor continuou a encantar as crianças durante todo o passeio e só pôde se despedir porque prometeu voltar outro dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada criança, no final daquela pequena jornada tinha se transformado. Agora cada um era um ecologista em potencial e, mais, um educador ambiental que ensinaria outras pessoas a preservar a Natureza, a começar por seus pais, tios e irmãos mais velhos. É impressionante o poder multiplicador de uma atitude quando vem acompanhada pela imensa energia inocente de uma criança.  </p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma estória típica de uma Organização Não Governamental criada para ajudar a preservar a natureza. Em geral compostas por profissionais da área, como biólogos e engenheiros ambientais, mas engrossadas por voluntários preocupados com o destino do planeta, algumas não passam de boas intenções, mas outras são fundamentais para a educação da sociedade e para a vigilância sobre os governos.</p>
<p style="text-align: justify;">O que encanta, nos ativistas sérios (porque há os que não passam de pirotécnicos) é seu comprometimento com a causa ambientalista. Eles são um exemplo da necessidade que temos de estar ligados a coisas que façam sentido, que nos façam sentir úteis, necessários e importantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto você lê este artigo estão acontecendo dois tipos de coisas no mundo: pessoas agindo sem nenhuma responsabilidade com o outro e gente cuidando de quem nem conhece; jovens depredando e jovens recuperando; gente sujando e gente limpando. Para compensar a irresponsabilidade de uma vida egoísta, há, felizmente, centenas de pessoas como aquele instrutor voluntário trabalhando para preservar a natureza, ensinando crianças, cuidando de animais, dando dignidade a mendigos.</p>
<p style="text-align: justify;">São pessoas que trabalham em função de crenças, em nome de causas. Não há recompensa material que as pague, não é por isso que se dedicam ao que fazem. São movidos por ideais, alimentados por resultados consistentes e energizados pela certeza de que vale a pena dar parte de si para tornar o mundo melhor.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O que move essas pessoas? Por que algumas mudam seu comportamento radicalmente após terem levado uma vida alienada e indiferente?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Conheço um caso peculiar. Um pescador que durante anos exercia sua profissão sem a mínima preocupação com o ambiente e com o futuro. Segundo ele mesmo, era alienado e só se ocupava com o aqui e com o agora. Não acreditava que suas ações maléficas – como pescar com o uso de explosivos, que matam os peixes e, de quebra, todas as formas de vida em seu raio de ação, como corais, moluscos e filhotes de peixe sem valor comercial – tivesse algum efeito sobre o ecossistema que o alimentava.</p>
<p style="text-align: justify;">Até que um fato aparentemente banal marcou sua vida e mudou seu destino. Sua filha pré-adolescente, a Janaina, examinando uma lagosta que o pai acabara de trazer para casa lhe perguntou o que eram aquelas bolinhas vermelhas que ela tinha na barriga.</p>
<p style="text-align: justify;">- São ovos – respondeu o pai – cada bolinha dessas é uma lagostinha que ainda não nasceu.</p>
<p style="text-align: justify;">- Então por que você a pescou? – indagou a pequena com ar de espanto – assim você impediu todas essas lagostinhas de nascer.</p>
<p style="text-align: justify;">O choque e a decepção da filha provocaram uma revolução de valores na alma do pescador. Ele teve um insight, uma súbita iluminação interna que mostrou o erro de suas ações, a conseqüência de sua irresponsabilidade. Foi o suficiente para que o Zé Pescador – esse é seu nome – tomasse uma decisão que mudaria a sua vida e a de milhares de pessoas: deixaria de trabalhar com pesca e criaria uma instituição para estimular os pescadores a praticarem a pesca consciente.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, doze anos depois da história das lagostinhas, a PROMAR, criada por ele na ilha de Itaparica já tem seis sedes em praias e ilhas da costa baiana e uma em uma comunidade pesqueira do rio São Francisco. Apoiada por empresas-parceiras, que lhe garantem a subsistência, atua junto às comunidades pesqueiras, mas também com educação ambiental em escolas, orientação de turistas, monitoramento dos corais, dá consultoria para empresas e assistência aos governos. O Zé Pescador é outra pessoa em muitos sentidos. Ele encontrou sua causa.</p>
<p style="text-align: justify;">Estive com ele recentemente, visitando a sede da PROMAR na ilha de Boipeba. Chegamos a Torrinhas de onde se toma o barco na noite de São João, dia 23 de junho. No Nordeste esta festa é comemorada intensamente. Praticamente cada família tem sua fogueira que rivaliza com a do vizinho em tamanho ou intensidade. Um concurso junino. Os homens estão sentados à porta das casas, a crianças correm e algumas brincam de pau-de-fogo, uma espécie de bastão que solta faíscas pela ponta. Os cachorros latem. Quase não se vê mulheres. Elas devem estar preparando os pratos que acompanharão a festa ao lado do fogo. Não imagino o que será. Talvez mungunzá ou tapioca.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu olho para a extensão do rio e só vejo escuridão. Pergunto se o piloto do barco conhece bem o caminho, e ele se limita a aumentar o tamanho do sorriso. O Zé, percebendo minha preocupação diz “Ele nasceu aqui. Faz esta viagem ate de olhos fechados”. Fico pensando que poderia ficar mesmo de olhos fechados, pois o escuro da noite é mesmo inescrutável. “Sentem atrás”, limita-se a dizer quando entramos cambaleando em sua voadora. “É mais confortável”. Nota-se que ele pensava na Lu e na Thais, que me acompanhavam. Um cavalheiro, o piloto-morcego.</p>
<p style="text-align: justify;">Saímos. A lancha inclinou-se e ganhou velocidade instantaneamente. Ao mesmo tempo em que, claro, começou a chover. O Zé, magnânimo, abriu sua mochila, retirou uma jaqueta de nylon. “É melhor vocês se cobrirem” disse. Não precisou falar duas vezes. De repente nos vimos, eu e a Lu, cobertos precariamente por um pedaço de plástico frio que recebia as gotas de chuva como se fossem balas de borracha potencializadas pela velocidade da voadeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Abraçados, molhados, com frio, ríamos com o ridículo da situação. “Preferia estar no shopping?”, brinquei. “De maneira nenhuma”, respondeu rindo minha companheira de aventuras. Algo me dizia que esta estava apenas começando.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu tinha razão. Foram três dias excepcionais de convivência com o Zé Pescador e sua turma. O idealismo é contagiante entre aquelas pessoas, que são de todos os tipos. Há pescadores, surfistas, biólogos, oceanógrafos, estudantes. Vieram de vários lugares, alguns do sul, mas todos falam com o mesmo sotaque, o da língua da missão que defendem a causa ambiental do litoral baiano. O pescador abandonou a pesca, pelo menos a de peixes. Começou a pescar mentes e corações.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>As pessoas precisam necessariamente estar ligadas a causas nobres para se sentirem completas?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A experiência na ilha paradisíaca direcionou meu pensamento para a questão do significado de nossas ações. Precisamos, sim, de causas. A vida vazia, sem objetivos, missões que exigem nosso melhor, não nos completa.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a razão porque milhões de pessoas dedicam parte de seu tempo e de sua energia a trabalhos voluntários, cuidando de pessoas desprotegidas, de mendigos, de animais abandonados, de doentes no hospital. Um estudo nos Estados Unidos calculou em muitos bilhões de dólares o que deveria ser pago para os voluntários naquele país se eles recebessem salários pelo que fazem.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse cálculo intrigou Peter Drucker, o grande guru da administração e da economia. Olhando mais de perto ele concluiu que as pessoas buscam os trabalhos voluntários para darem sentido para suas vidas. E se preocupou com o fato de que o trabalho delas não lhes dava esse sentimento de serem úteis e necessárias. Seu trabalho era desprovido de significado.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não é necessário que seja assim. Nem todos podemos estar ligados diretamente a uma causa nobre como a do pescador, e nem é necessário que estejamos. Duas providencias simples podem resolver o vazio interior que algumas pessoas carregam: faça a sua parte, seja ético e correto em todos os lugares onde você freqüenta; e, não menos importante, perceba a causa que está ligada ao seu trabalho. Ele é maior do que uma simples tarefa, acredite.</p>
<p style="text-align: justify;">Um vendedor de celulares é mais que um vendedor de celulares. É um aproximador de pessoas. Assim como um motorista de ônibus é um transportador de pessoas, um enfermeiro é um cuidador, um cabeleireiro é um embelezador e um guarda de transito é um organizador. Tarefas simples podem ter sabor de causas se forem observadas com um olhar ampliado, interessado e generoso. Vale a pena.    </p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>A passagem do tempo</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jun 2011 15:51:49 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Envelhecer, atualmente, é diferente de antigamente. Ainda assim, como lidar bem com a chegada da velhice?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">- Aqui está seu cartão. Faça bom uso dele e não se esqueça que ele precisa ser renovado daqui a três anos.</p>
<p style="text-align: justify;">O funcionário da prefeitura foi eficiente e simpático. Eu havia procurado o departamento responsável por fornecer a identidade de “idoso”, que vem a ser um documento que confere às pessoas que já completaram 60 anos alguns direitos. Entre eles, o de estacionar o carro em vagas reservadas, o que muito me interessa, especialmente no aeroporto, que eu freqüento muito, e onde chego, em geral, morrendo de pressa para não perder o avião.</p>
<p style="text-align: justify;">- Muito obrigado – respondi – mas porque você quer que eu renove o cartão em três anos? Eu preciso provar que ainda continuo “idoso”? – perguntei, brincando.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não, você precisa provar que ainda está vivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Uau! Ele tinha razão, mas a pancada na costela doeu um pouquinho, sim. Afinal, não gostamos de ser alertados para o fato de que iremos morrer, principalmente quando já estamos avançados em anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho usado meu cartão com muito orgulho, mas esse episódio me colocou a pensar sobre essa tal condição de “idoso”. Se essa palavra trás a você a imagem de um senhor de chinelos e meias quentes, sentado observando a vida passar, esqueça, meu caro leitor.</p>
<p style="text-align: justify;">Os sessentões de hoje estão fazendo cursos, abrindo empresas, planejando viagens de aventura, casando de novo e até tendo filhos. A ciência mudou a realidade desses homens e mulheres cheios de experiência porque lhes deu a chance de manter a saúde e a vitalidade. Mas não foi só a ciência, também a própria atitude das pessoas. Velhos atores continuam fazendo ótimos filmes – em geral os melhores de suas carreiras. Executivos se aposentam por tempo de trabalho, mas são recontratados pelas empresas como consultores, pois não se pode perder essa biblioteca viva que continua com brilho nos olhos. Hoje, paramos só por escolha.</p>
<p style="text-align: justify;"> <strong>Apesar disso, na prática estamos apenas postergando os sinais da velhice, mas eles chegarão algum dia.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Meu amigo Paulo, brilhante professor, me contou, recentemente o que ele aprendeu de uma sociedade africana, daquelas que conservam suas tradições e sua cultura própria, apesar dos avanços da modernidade. Na tribo há uma casa, chamada “A Casa da Palavra”, onde os membros se reúnem para discutir os problemas coletivos, mas onde também é permitido compartilhar os problemas pessoais, em busca de soluções.</p>
<p style="text-align: justify;">Qualquer um pode comparecer e colocar suas dificuldades e suas opiniões, mas na Casa da Palavra há algumas regras. A primeira é que os mais velhos falarão por último, e suas palavras terão mais peso que as dos outros. O consenso é que os mais velhos, por terem vivido mais, acumularam mais experiência e, como conseqüência, sabedoria.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa sociedade, ao contrário da nossa, todos têm um grande objetivo na vida: ficar velho. Pode parecer exótico demais para o pensamento ocidental, que alimenta o sonho da eterna juventude, mas faz todo sentido; primeiro porque isso significa sobreviver à dureza da vida naquelas paragens inóspitas; e, segundo, porque, lá, ser velho confere status, angaria admiração, respeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho procurado adaptar essa filosofia à minha vida. Meu objetivo também é ficar velho, só que com alguns predicados, que passo a relatar:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O primeiro predicado é a saúde,</strong> sem a qual a vida se transforma em um martírio. Sempre lembrando que ter saúde significa algo mais do que não ter doenças. Saúde plena quer dizer disposição, energia, alegria de viver. É claro que os parâmetros mudam, e temos que respeitá-los. Não posso querer correr 3 mil metros em 12 minutos, como já fiz, até porque isso não é mais relevante. O importante é conseguir correr os 12 minutos sem parar, não importa a distância; ou correr os 3 quilômetros, não importa o tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje temos todas as condições para manter a saúde em dia. Exames preventivos, intervenções avançadas quando necessárias, alimentos saudáveis, espaços para a prática de atividades físicas, etc. Só que – sempre tem um “só que” – para lançarmos mão desses recursos, precisamos de um pré-requisito: a consciência, que gera a vontade que vira disciplina.  </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O segundo predicado é a paz,</strong> pois sem ela perdemos a vontade de viver. E ter paz significa ter construído uma vida correta, carregar a certeza de que ajudamos, com nossa existência, este mundo a melhorar. Ter paz também emana das relações que construímos, a começar pela família, nosso grande esteio emocional. O amor de um companheiro, valor que tem forte componente lógico, pois depende do cotidiano, da construção conjunta de uma relação prazerosa, enriquecedora e amorosa. Também paz que vem dos filhos criados, a quem demos educação, amor e, como valor adicional, autonomia, que dá a eles liberdade, e aos pais a consciência do dever cumprido.  </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O terceiro são as boas lembranças</strong>, pois elas são a marca de que vivemos uma vida intensa, plena, com descobertas, aventuras, alegrias, emoções. Meu sonho é poder anunciar, como Neruda: “Confesso que vivi”. Adoro ver as fotos antigas de viagens realizadas, museus conhecidos, festas freqüentadas, amigos visitados. Lembranças encontradas nos cantos da memória, principalmente quando garimpadas a dois, estão entre os momentos de maior alegria. É como viver de novo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O quarto é a curiosidade,</strong> que mantém a mente ativa e a alma iluminada pela descoberta. Ser curioso significa querer saber, interessar-se por novos conhecimentos, áreas ainda inexploradas do saber. Não há idade para o aprendizado, para a incorporação de novas competências intelectuais. O mundo nunca foi tão rico de conhecimentos e de acesso a eles. Acho que verdadeiramente começamos a envelhecer quando perdemos a curiosidade.      </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O quinto predicado essencial é o olhar otimista sobre o futuro,</strong> não importa o quanto ele dure. Acredito que ele será tão mais longo quanto maior a projeção que fizemos dele em nossa própria cabeça. Sonhos e planos nos mantém ativos, e mais, nos conservam vivos. “Quando temos um bom porquê, suportamos qualquer como”, resumiu Viktor Frankl, que não se deixou destruir pela infâmia de Auschwitz e contaminou a cabeça de seus companheiros de infortúnio com os sonhos de uma Europa em paz. A visão de futuro conservou aqueles homens vivos. Seu corpo foi protegido da morte pela mente ativa e pela esperança sempre presente.   </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Já se disse que envelhecer é compulsório, mas amadurecer é opcional. O que significa, exatamente, esse comentário?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se considerarmos que envelhecer é agregar anos à sua existência, e amadurecer é fazer isso com sabedoria, o ditado faz todo sentido. Ter vivido simplesmente não significa ter-se tornado maduro. É preciso aprender com a vida, e isso requer mais do que simplesmente viver. Antes de qualquer coisa é necessário ter humildade, a primeira qualidade dos sábios.</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente todos conhecemos pessoas que chegam à aurora de sua existência de maneira amarga, com postura de vítima, sem ânimo de olhar para trás em busca das lembranças que nos ensinam e muito menos para frente, onde deveriam estar o sonhos que nos motivam.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, todos tivemos a oportunidade de conviver com os fantásticos dribladores do tempo, os que viveram intensamente o presente sempre lançando um olhar para o passado, que no presente se chama memória, e outro para o futuro, que no agora se chama sonho. A junção dos três tempos aumenta imensamente a qualidade de conferir sabedoria. Quando penso nos atributos que descrevi acima, percebo que eles só poderão ser exercidos na velhice se forem preparados ao longo da vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Saúde é cuidado, prevenção clínica e bons hábitos. Paz é um caminho que só se faz caminhando. Boas lembranças dispensam comentários, pois só podemos lembrar do que já passou, o que fizemos com o tempo que nos foi dado viver. Curiosidade é uma qualidade infantil que pode virar hábito arraigado e ser mantido pela vida. Olhar otimista sobre o futuro será, então, conseqüência dos demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu tenho alguns modelos de vida. Um dele é Mário Lago, que só aos 91 anos se cansou de viver, e enquanto viveu fez de tudo um pouco. Foi advogado, ator, poeta e compositor. Deixou-nos algumas lembranças eternas, em forma de músicas, como as memoráveis <em>Ai que saudades da Amélia</em> (Aquilo sim é que era mulher&#8230;) e <em>Atire a primeira pedra </em>(Eu errei, não posso errar?), ambas em parceria com outro especialista em vida, Ataulfo Alves; e também na forma inconfundível de seu sorriso franco.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando lhe perguntaram sobre seu segredo de longevidade, Mário Lago respondeu alegre: “Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra”.</p>
<p style="text-align: justify;">É claro que todos nos encontraremos com o tempo em algum lugar, e saberemos que terá chegado nossa hora. Só que essa precisa hora é a única que não nos pertence de fato. Já todas as outras, as cerca de 800 mil horas que fazem parte de uma vida bem cuidada, essas sim, nos pertencem. Podemos dispor delas como quisermos. E só terá o objetivo de ficar velho aquele que entender o valor de cada uma delas, e fizer, com tempo, aquele famoso acordo de coexistência pacífica.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>A arte de fazer escolhas</title>
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		<pubDate>Mon, 23 May 2011 19:46:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Parece que cada vez mais temos que optar por isso ou aquilo. Mas como nos prepararmos para tantas decisões?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tomar um sorvete figura entre meus programas favoritos quando vou a Manaus. Trata-se de uma experiência diferente de qualquer outro lugar do mundo, não porque os manauras dominem técnicas secretas da arte dos gelados que nem os italianos conhecem, mas porque eles dispõem de matéria prima invejável: as frutas amazônicas com seus sabores incríveis.</p>
<p style="text-align: justify;">As mais conhecidas, como o açaí, o cupuaçu, a graviola, e o buriti estão entre elas, mas não são as únicas, apesar de que apenas elas já colocam o freguês em uma situação de difícil decisão. “Não posso pedir uma bola de cada?”, perguntei ao atendente da sorveteria, para ouvir a resposta óbvia: “Claro que o senhor pode, mas vai ter que levar uma caixa, e não apenas uma casquinha”.</p>
<p style="text-align: justify;">Como eu só queria um sorvete para sair lambendo enquanto caminhava pelo quente entardecer tropical, não me restou alternativa, a não ser escolher dois sabores, abrindo mão de todos os demais. Pelo menos por enquanto.</p>
<p style="text-align: justify;">O que poderia ter sido apenas um acontecimento corriqueiro, me colocou em contato com uma questão filosófica: a necessidade humana de fazer escolhas na vida. Enquanto saboreava meu manjar amazônico não pude deixar de aprofundar meu pensamento da questão das escolhas e, claro, lembrei-me de algumas das mais difíceis que tive que fazer ao longo de minha trajetória. E de repente me dei conta que escolher é uma das coisas a que mais o homem se dedica. Não há um dia sequer que não tenhamos que escolher algo e abrir mão de algo também.  </p>
<p style="text-align: justify;">É claro que, na maioria das vezes fazemos escolhas simples, como o sabor do sorvete, a cor da gravata ou o filme a assistir. Mas quem não sofreu calado quando teve que decidir que vestibular fazer? Ou quando recebeu uma proposta para mudar de emprego? E, suprema decisão, que atire a primeira pedra quem nunca esteve dividido entre dois amores.   </p>
<p style="text-align: justify;">Sim, parece que passamos a vida decidindo, e, ainda que a maioria das pessoas não tenha essa consciência, os momentos de decisão são, também, momentos de ansiedade. Só que uma ansiedade que deriva de uma coisa boa: a existência de mais de uma opção. A rigor, a ansiedade de escolher é a ansiedade de ser livre.  Escolher é exercer a liberdade, com suas prerrogativas e responsabilidades. E a liberdade só pode ser bem exercida por que está preparado para ela, ou seja, quem tem maturidade intelectual e emocional para tanto. A liberdade é um valor adulto.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Poder escolher é uma conquista. Então por que às vezes sofremos com isso?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A escolha é um privilégio, o problema é a renúncia. Ao escolher dois sabores de sorvete você abre mão de todos os demais. Até aí tudo bem – sempre dá para voltar amanhã. O que nos martiriza são as renúncias definitivas ou aquelas que nos causam insegurança. Para os mortais comuns, a escolha da carreira, por exemplo, significa renunciar a uma grande quantidade de opções, talvez melhores.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda que uma carreira não seja uma condenação, pois sempre é possível mudar, tal escolha carrega o peso de que, depois de investir anos em estudos e sonhos, não é exatamente fácil dar a guinada. Em nosso sistema educacional ainda há o agravante de que a escolha tem que ser feita por garotos recém saídos da adolescência. A inscrição no vestibular é, por esse motivo, um momento de tensão. Como fui professor de cursinho pré-vestibular, acompanhei muitos desses dramas.</p>
<p style="text-align: justify;">Vi de tudo. De jovens cheios de certeza àqueles que procuravam orientação vocacional em clínicas especializadas, passando pelos menos previdentes que, na hora H apelavam até para um jogo de par ou ímpar. “Se der par faço biológicas. Se der ímpar faço humanas”. Dá pra imaginar a ansiedade?</p>
<p style="text-align: justify;">É evidente que não é assim que devemos escolher. Uma escolha é uma decisão e, como tal, obedece a uma lógica. A técnica de tomada de decisões tem um mandamento: quanto maior o número de variáveis consideradas na tomada de decisão, maior a probabilidade de acerto. Em outras palavras, escolher significa pesar todos os prós e contras, inclusive projetando-os no tempo – a variável mais abstrata.</p>
<p style="text-align: justify;">E dá para fazer isso o tempo todo? Cada vez que eu quiser almoçar fora, para escolher o restaurante vou ter que montar uma planilha no Excel, com colunas de vantagens e desvantagens, considerando o desejo, a saúde, o ambiente etc.? Por incrível que pareça, sim, é isso mesmo que fazemos, sem usar um computador e um software, é claro, mas lançando mão de algoritmos mentais que consultam todas essas variáveis rapidamente, emitindo, inclusive, notas ponderadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Você pode, por exemplo, decidir por um restaurante caro (nota alta na coluna do “não”) porque ele vai ajudá-lo a impressionar a namorada (nota altíssima na coluna do “sim”). E você faz isso mentalmente, consultando a lógica (tenho o dinheiro), a emoção (estou apaixonado) e o fator tempo (é agora ou nunca).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Então estamos condenados a decidir e a conviver com a dúvida de termos feito a escolha certa?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Se tomar uma decisão provoca ansiedade, muito pior é não ter a oportunidade de decidir. Pense nas pessoas que você conhece, especialmente das gerações com mais vivência, que se queixam de estarem fazendo algumas coisas por não terem tido a oportunidade de fazer outras. “Eu não tive a chance de estudar”; “Na minha época a gente casava com o primeiro pretendente”; “Eu tive que continuar negócio da família” – estes são apenas alguns dos lamentos mais comuns de pessoas que, aparentemente, não puderam escolher.</p>
<p style="text-align: justify;">Se pudessem – ou se percebessem que podiam – muitas delas teriam dado rumos diferentes às suas vidas. Poder escolher é bom, muito bom, ainda que dê alguma dor de cabeça. Escolher angustia, não poder escolher mortifica.</p>
<p style="text-align: justify;">Em inglês, escolher é <em>to choice</em>, mas os americanos, sempre práticos, utilizam uma expressão curiosa para falar sobre escolhas, especialmente no mundo dos negócios, em que os executivos vivem tendo que tomar decisões – <em>trade off</em>. Mais do que uma escolha, a expressão <em>trade off</em> quer significar uma troca.  </p>
<p style="text-align: justify;">E a troca significa uma espécie de condenação determinista a que todos estamos sujeitos. Afinal, não se pode ter tudo. Quer isto? Então não vai ter aquilo! E lamba os beiços, porque tem gente que não vai ter isto nem aquilo – parece dizer o destino com seu olhar de reprovação diante de nosso desespero.</p>
<p style="text-align: justify;">Às vezes temos, sim, que fazer escolhas difíceis, e sofremos muito por causa disso. Até a literatura já se debruçou sobre o tema. O escritor americano William Styron levou o drama da escolha a um nível épico em seu livro <em>A escolha de Sofia</em>, que virou filme e rendeu um Oscar de melhor atriz para Maryl Streep.</p>
<p style="text-align: justify;">O enredo trata da situação vivida por uma mãe judia, que é forçada por um soldado alemão a escolher entre o filho e a filha, ambos crianças. Só um poderia ser salvo, o outro seria executado. Se ela não escolhesse um, ambos seriam mortos.</p>
<p style="text-align: justify;">No limite da decisão ela opta por poupar o garoto, pois, por ser mais forte, teria mais chance de sobreviver (imagine o sofrimento e a velocidade com que ela montou a tal planilha mental). Como agravante, nem dele teve mais notícias. </p>
<p style="text-align: justify;">A história é ambientada no pós-guerra, com a protagonista já vivendo nos Estados Unidos, tentando reconstruir vida, mas sempre atormentada por aquele momento dramático em que teve que fazer a escolha mortal. A força do drama relatado pelo autor transformou o título em sinônimo de decisão quase impossível de ser tomada. Daquelas que nunca teremos certeza de termos acertado.</p>
<p style="text-align: justify;">A maioria de nós jamais terá que tomar uma decisão tão dramática, mas com certeza todos viveremos momentos difíceis, em que o fantasma da dúvida de termos decidido certo assombrará nossa memória, talvez por muito tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">É bem verdade que a tomada da decisão diminui a ansiedade, apesar da dúvida. “É este, pronto!”- e vamos em frente. Ainda assim, sofremos um pouquinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Sociedades modernas, livres, democráticas, têm essa qualidade &#8211; o cidadão tem que fazer escolhas diariamente. Trata-se de um direito e até uma obrigação. Nos regimes totalitários, o Estado considera os cidadãos incapazes de escolher seus próprios caminhos, por isso ele as tutela, as trata como menores irresponsáveis, que devem apenas concordar e obedecer. São títeres nas mãos dos poderosos. E pensar que há famílias que também são assim.   </p>
<p style="text-align: justify;">No mundo livre acontece o oposto. Quem se recusa a escolher os rumos de sua vida vira uma espécie de pária, um estorvo para os demais. Sempre lembrando que qualquer escolha pressupõe responsabilidade sobre ela. Apesar disso, ter a oportunidade de escolher o que fazer com sua vida, no macro ou no microcosmo da existência, ainda é a melhor situação, disparado.</p>
<p style="text-align: justify;">E, já que você escolheu ler este texto até o fim, espero que tenha gostado e que ele tenha agregado pitadas de lógica ao seu autoconhecimento. Afinal, conhecer-se e saber pensar são dois elementos fundamentais na hora das decisões. Grandes ou pequenas.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
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		<title>Um novo começo</title>
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		<pubDate>Mon, 23 May 2011 19:26:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Às vezes tenho a impressão que não estou fazendo a mesma coisa, e sim sempre começando algo novo, mesmo que seja a mesma tarefa, no mesmo lugar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em quarenta anos de carreira musical, o engenheiro químico (pode?) Ivan Lins produziu maravilhas como <em>Madalena</em>, <em>O Amor é meu País</em> e <em>Abre Alas</em>. Como acontece com todos os poetas e compositores, ele tocou cada pessoa de modo diferente, através de uma letra especial, que se instalou em algum canto da alma. Em meu caso, foi a música <em>Começar de novo</em>, que Ivan compôs em parceria com Vitor Martins em 1979.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi naquele ano que eu fiz uma das muitas mudanças em minha vida, indo morar em Florianópolis (SC), para onde eu já viajava semanalmente para dar aulas em um curso pré-vestibular do qual era sócio. Como aquela sede exigia mais atenção mudei minha residência oficial para a ilha. Lembro-me bem de estar atravessando a ponte Hercílio Luz, que ainda funcionava (foi interditada em 1982), quando do rádio do carro começou a sair a voz rouca da Simone dizendo: “<em>Começar de novo e contar comigo/ Vai valer a pena ter amanhecido/ Ter me rebelado, ter me debatido/Ter me machucado, ter sobrevivido&#8230;</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi um momento mágico, pois, apesar de bastante jovem, eu já vinha de uma experiência de vida cheia de mudanças e recomeços. Quando menino, morei na Argentina, onde meu pai tinha negócios. A revolução militar e a crise econômica que se instalaram naquele país fizeram a família retornar ao Brasil totalmente sem recursos, de um dia para outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu tinha dez anos, e enfrentei, pela primeira vez, a idéia do começar de novo. Acho que foi o pior dos recomeços, pois me sentia à deriva, tinha perdido todas as referências. Lembro que quando ia à escola levava comigo, além dos cadernos e do lanche, revolta, vergonha e dificuldade de comunicação – até então minha língua tinha sido outra. Ainda por cima tive que enfrentar a intolerância e implicância dos terríveis pré-adolescentes do colégio (hoje isso seria chamado de <em>bullying</em>). Nessa ocasião eu só podia contar comigo, mais ninguém.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma década e meia depois, lá estava eu, com um diploma de médico, um negócio próprio, um livro publicado, casado e com dois filhos. Talvez por isso, quando Simone disse “<em>Ter virado a mesa, ter me conhecido/ Ter virado o barco, ter me socorrido</em>”, parecia que estava falando só comigo.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu me sentia muito bem por ter começado de novo e ter vencido as evidências em contrário. Foi a primeira vez que eu tive a convicção de que uma mudança radical pode ser fonte de sofrimento enquanto está acontecendo, mas depois se transforma em uma maravilhosa oportunidade para se criar uma vida melhor. É quase uma lei cósmica.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Mas o começar de novo não se transforma em um sentimento de inconstância, de falta raízes?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A impermanência é uma das principais marcas de nosso tempo. Tudo muda muito rápido, e quem aceita essa realidade e consegue exercitar sua capacidade de adaptação, já sai com vantagens. De certa forma, quando acordamos na manhã de cada dia, começamos de novo nossa vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Às vezes começamos pouca coisa de novo, e damos continuidade ao que já fazíamos, mantendo a rotina e construindo estabilidade. Mas, às vezes acordamos de manhã e estamos em um novo lugar, ou iniciamos em um novo emprego, ou viramos a cabeça e vemos uma nova pessoa no travesseiro ao lado. Sempre começamos de novo, o que varia é a intensidade.    </p>
<p style="text-align: justify;">Naquele ano eu estava começando de novo muita coisa. Tinha me formado em medicina, mas não havia chegado a exercer, pois, na ocasião, eu já era dono de uma escola que crescia. Mas, como começar de novo é comigo mesmo, 15 anos depois resolvi dar-me o direito de experimentar a profissão de médico, e lá fui eu voltar a estudar, aplicando tempo e recursos aos livros de medicina, alguns para recordar, outros para entender a evolução dos anos. Apesar de ser médico foi mais um começar de novo.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha fase de médico foi de grande aprendizado. Entrar em contato com o sofrimento, conhecer a pessoa que está por trás da máscara dos cargos e das convenções sociais, perceber que não se medica o corpo sem se medicar também a alma, foram grandes descobertas.</p>
<p style="text-align: justify;">Só que algo revirava em meu espírito a cada consulta, e a cada fim de expediente eu me convencia que minha vocação não estava ali no consultório e sim na sala de aula, no convívio com alunos, na fabulosa galáxia de buscas e encontros que acontecem no universo da educação. Eu precisava voltar. E começar de novo. Depois de cinco anos dedicados ao mundo de Hipócrates, voltei a Sócrates.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meados da década de 1990, surgia no mundo uma nova tendência, a chamada educação corporativa. Eu precisava conhecer aquilo. O que significava mais uma vez voltar a estudar, entender o funcionamento das grandes empresas, suas necessidades e desejos, suas qualidades e defeitos.Durante o curso de MBA eu percebi meus olhos brilhando de novo com as possibilidades que surgiram.Estava começando de novo mais uma vez, desta vez com bem mais de 40 anos. Mas a idade não importava. O que interessava era a descoberta, a aventura, o risco calculado, as possibilidades infinitas que a vida mais uma vez colocava diante de meus pés.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Começar de novo não é cada vez mais difícil, já que buscamos conforto? </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Lembro como se fosse hoje. Em março de 1998 eu desembarquei no aeroporto de Guarulhos vindo dos Estados Unidos, onde tinha passado um tempo estudando, trabalhando e me preparando para a nova fase, em que eu me dedicaria ser um educador corporativo.Na verdade, eu tinha me proposto um autoexílio, algo a que hoje está na moda chamar de <em>sabático</em>. Eu sabia que, para começar essa nova carreira, eu tinha que sair do conforto da Curitiba e passar a morar em São Paulo definitivamente. Essa perspectiva era um pouco assustadora, pois pouco conhecia a maior cidade do Brasil. Estava cheio de energia e idéias, mas também tinha o peito cheio de dúvidas e medos. Eu tinha que <em>começar de novo</em> <em>e</em> só podia <em>contar comigo</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda no avião, as primeiras luzes da manhã já iluminavam solo brasileiro.  Eu olhava para frente, mas não conseguia não respeitar o que ficou para trás. Aproveitando a passividade de um passageiro de avião, que só o que tem a fazer é apreciar a paisagem e pensar, eu fiz um resumo da história de minha vida, e de repente me dei conta que eu vivi, sim, em um eterno e cíclico recomeçar. Lembrei, por exemplo, que quando conclui o colégio, ainda um adolescente, resolvi conhecer o Rio de Janeiro, onde acabei por morar um ano, entendendo a ginga carioca, praticando inglês na loja em que trabalhei atendendo turistas e aprendendo a surfar em longas pranchas de madeira no Arpoador.</p>
<p style="text-align: justify;">Passado o período <em>menino do Rio</em> voltei a Curitiba para encarar uma faculdade. Mas, para pagar o cursinho, de onde o dinheiro? Solução: dar aulas particulares aos alunos que iam prestar o exame de admissão, uma prova que se fazia aos aspirantes ao Ginásio (que coisa antiga, meu Deus!). Esse foi um recomeço que marcou o resto de minha vida, pois nunca mais parei de ensinar – foi uma paixão à primeira vista que nunca mais me abandonou.E agora estava eu voltando às origens, ainda que sem saber bem como começar. Só podia contar comigo, mas sabia que precisaria encontrar aliados, espaços que me recebessem e servissem de base de lançamento para minhas idéias. A solução foi bater em algumas portas, empresas de consultoria, faculdades.</p>
<p style="text-align: justify;">E eu não poderia ter encontrado um aliado melhor. Foi na Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo que eu encontrei pessoas dispostas a ouvir minhas idéias muito particulares sobre o desenvolvimento de pessoas. “Você pode ficar por aqui e participar das aulas como ouvinte”, me disseram e eu fiquei imensamente agradecido. “Você pode participar deste projeto como assistente”, foi a primeira ordem que eu acatei alegre e fui para a reunião carregando a pasta do notebook do coordenador do trabalho.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu, quase cinqüentão, ex-empresário, ex-médico, ex-riquinho, estava lá, começando de novo, por baixo, como convém. Mais de uma década já se foi, muita água já passou por baixo da Hercílio Luz, nosso planetinha deu milhares de voltas, e nós continuamos começando de novo todos os dias. Sim, tenho experiência nessa área e posso afirmar: há poucas coisas mais edificantes para o caráter do que começar de novo, relevando as mágoas, engolindo a lágrimas e lançando um olhar otimista para o futuro. Começar de novo é uma fantástica forma de libertação. Provavelmente a melhor de todas.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
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