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	<title>Sapiens Sapiens</title>
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	<description>Sapiens Sapiens</description>
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		<title>Faça bem o básico</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Jan 2012 14:45:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Só é capaz de alterar a realidade quem já lidou com ela o suficiente para entender o que pode ser modificado]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A empresa tinha estabelecido que a cultura de inovação deveria ser promovida e estimulada. É bastante sabido que as melhorias de processos, serviços e até de produtos vêm, principalmente, de sugestões dos funcionários, e não de um departamento responsável pela inovação.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se espalhou a notícia de que ideias seriam bem-vindas e, mais que isso, valorizadas e premiadas, muitos funcionários deram asas à imaginação e começaram a aparecer propostas de melhoria, vindas de todos os setores da organização. “Está funcionando”, pensavam os diretores.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi quando o gerente, responsável por uma ilha de produção com cerca de 20 operários, foi procurado por um de seus subordinados com uma “idéia revolucionária”, segundo o próprio.</p>
<p style="text-align: justify;">Se fosse aplicada, provocaria economia de tempo e de dinheiro, além de diminuir o risco de aparecerem falhas nos produtos.</p>
<p style="text-align: justify;">O plano do gênio era, de fato, ótimo, ou melhor, seria, se não por um detalhe: para que funcionasse, era preciso alterar toda a linha de produção, inclusive as máquinas importadas da Alemanha, o que exigiria um investimento totalmente desproporcional.</p>
<p style="text-align: justify;">- Obrigado pela sugestão – disse o gerente -, mas perceba que ela não se aplica a nossa realidade. Precisamos de ideias simples, práticas, que possuam ser implementadas rapidamente, sem muitos gastos. Infelizmente, não é o caso de sua proposta.</p>
<p style="text-align: justify;">- Entretanto – continuou -, vamos aproveitar essa oportunidade. Tenho observado seu trabalho e percebo que você tem alguma dificuldade para se concentrar e concluir seu turno com eficiência. Sua disposição para sugerir mudanças é uma coisa boa, mas seria melhor se você, primeiro, fizesse bem o seu trabalho. Dificilmente, meu jovem, será aceito um projeto vindo de alguém que não faz nem o básico.</p>
<p style="text-align: justify;">Grande lição, caro gerente. Inovação não vem do vazio. Há, pelo menos, duas condições prévias: o conhecimento e a experiência. Só é capaz de alterar a realidade quem já lidou com ela o suficiente para entender o que pode ser modificado e o que deve ser mantido. Inovar é necessário. Fazer bem o básico é fundamental.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: www.vocesa.com.br</em></p>
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		<title>A ansiedade das escolhas</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jan 2012 12:12:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Vida Simples]]></category>
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		<description><![CDATA[Optar por isto ou aquilo faz parte da nossa rotina. E junto com essa decisão vem a perda (daquilo que ficou para trás). Saber conviver com essas decisões pode ser libertador]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">- OK, então vamos esperar por sua escolha até amanhã de manhã. Pense bem antes de decidir.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa frase soou como uma ameaça. Eu tinha que decidir e não podia negar essa responsabilidade, pois corria o risco de perder tudo. Mas a escolha não era simples, pois, no fundo eu queria os dois. Um representava a liberdade,  a aventura, a alegria de viver. O outro significava a sabedoria, o conhecimento, o futuro. Como escolher entre dois conjuntos de valores tão importantes? Como optar por um e abrir mão do outro que eu também queria tanto? Por que o destino estava fazendo isso comigo? Ó mundo cruel&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não teve jeito, pois eu sabia que se demorasse para decidir, ou não mostrasse firmeza em minha conclusão, não seria considerado maduro o suficiente para merecer nenhum dos dois, e acabaria tendo que me contentar com algum premio de consolação, e isso seria a pior coisa que poderia me acontecer naquela fase da vida. Então, armado de uma convicção artificiar, comuniquei minha decisão:</p>
<p style="text-align: justify;">- Estão está bem, fico com a bicicleta! – e abri mão da enciclopédia. </p>
<p style="text-align: justify;">Estávamos em véspera de Natal e eu tinha 11 anos. O que aconteceu naquela oportunidade foi uma espécie de iniciação à vida, que nada mais é do que uma sucessão de escolhas. Parece que a única escolha que não fizemos foi a de nascer, porque daí para frente, passada a primeira infância, começa nossa preparação para sermos responsáveis. Tem início o desenvolvimento de algo  chamado “consciência”, que, em última análise, é a autonomia para cuidar do destino, escolhendo os caminhos da vida. Amadurecer, descobri, é assumir responsabilidade por suas escolhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu queria muito aquela bicicleta. Qual é o garoto que não quer? Desejava sair por aí, com os colegas ou mesmo sozinho, deslocando-me com rapidez, sentindo o vento, conhecendo outros bairros da cidade. Mas também estava de olho na tal enciclopédia que, para mim, era uma espécie de passaporte para o conhecimento. Com a bicicleta poderia passear pela cidade – pensava – e com a enciclopédia poderia viajar pelo mundo.  </p>
<p style="text-align: justify;">Prevaleceu a liberdade do vento, e não das letras, como seria de esperar de alguém que mal encerrava a primeira década de vida. E aquela bicicleta me deu muita alegria, acredite. Nunca me arrependi da escolha, até porque mais tarde, em outro Natal, a enciclopédia veio, ainda que não tenha vindo o aparelho de som – outra escolha/troca.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A tirania do “ou”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Um dos personagens mais explorados pela literatura alemã é o de um homem que fez uma escolha perigosa: Fausto. Ele foi inspirado em uma pessoa real, o médico Johannes Georg Faust, que viveu entre 1480 e 1540, e que era também estudioso de alquimia e magia. Sempre insatisfeito com o conhecimento disponível, ansioso por saber mais, acabou por dar origem a Fausto, que teve inúmeras interpretações na literatura germânica, sendo a mais conhecida a do mais importante escritor alemão, Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira parte da versão de Goethe foi publicada em 1806 e conta que Fausto, querendo superar os conhecimentos disponíveis na época, ambicioso pelo saber, acabou fazendo um pacto com um demônio, Mefistófeles. Durante 24 anos ele não envelheceria, experimentaria todos os prazeres e teria acesso a conhecimentos novos. Tudo isso em troca de sua alma, que passaria a ser posse do maléfico pela eternidade. </p>
<p style="text-align: justify;">Fausto aceita, pois seu desejo de saber é superior a tudo. O que ele não contava é que se apaixonaria por Margarida e, ao ver chegar perto seu prazo, se vê obrigado a abandona-la. O mito faustico, em todas as versões, joga com a ideia da perda como subproduto da escolha. E esta perda pode ser desesperante, como no caso do personagem, ou pode ser, em sua versão mais humana, no mínimo, a causa de grandes ansiedades.  </p>
<p style="text-align: justify;">A ansiedade é, sim, um dos males da modernidade. Não há pessoa que não relate que é acometida, eventualmente, por uma &#8220;crise de ansiedade”, caracterizada por uma sensação de dúvida, incerteza, desconforto. A pessoa ansiosa gostaria de não estar onde está, ou pelo menos, gostaria de não estar vivendo a situação que lhe causa ansiedade, mas, por outro lado, sabe que não tem com evitar. Todos somos ansiosos, em graus maiores ou menores.</p>
<p style="text-align: justify;">E a causa mais comum de geração de ansiedade atualmente é, como vimos, a necessidade de fazermos escolhas. Sim, pois a cada escolha você tem que sofrer com as renúncias que ela acarreta. Essa é a tragédia da escolha. O imperativo do “ou”. Ou isto ou aquilo, os dois não dá – explica a vida – e a gente aceita com resignação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Escolher é trocar</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A língua inglesa tem uma expressão que define bem a ansiedade da escolha: <em>trade-off</em>. Sem tradução literal, <em>trade-off</em> significa escolha, mas também significa troca. Em síntese, escolher significa trocar uma coisa por outra. Ao escolher a bicicleta, abri mão da enciclopédia. Foi uma troca e, convenhamos, a melhor que podia ter feito naquela ocasião. No ano seguinte troquei um aparelho de som novinho pela coleção de livros que esperei por um ano. E por aí vai.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Trade-off </em>é uma expressão muito usada nas empresas, e faz parte do planejamento estratégico. Os empresários e executivos sabem que sempre há um preço a pagar. Em resultados terão que fazer investimentos. Se buscarem inovação terão que admitir alguns erros. Se optarem por economizar terão que reduzir os investimentos. Na economia do país, se a opção for pelo controle da inflação, sabe-se que a taxa de crescimento será menor. “Não há almoço grátis”, dizem os economistas. Trata-se de um postulado da economia que lança mão da obviedade que não dá para, ao mesmo tempo, comer a refeição e ficar com o dinheiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos melhores exemplos de <em>trade-off</em> estratégicos é encontrado não na economia, mas no jogo de xadrez, e, neste caso, pode receber o nome de gambito, que não é, portanto, apenas o codinome das pernas finas.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse jogo, gambito é o sacrifício de uma peça em troca de alguma vantagem, que pode ser outra peça ou espaço, desguarnecimento do adversário, linhas diagonais ou simplesmente tempo. O outro jogador pode aceitar ou refutar a oferta, pois sabe que há uma intenção por trás, uma espécie de jogada oculta. O <em>Gambito do Rei</em> é uma jogada em que o jogador de peças brancas oferece um peão logo no início do jogo e, aparentemente, desprotege o rei,  mas, na pratica, obtém uma liberdade de ações bem maior a partir disso, ganhando o domínio que vem da iniciativa. Tanto essa jogada quanto o <em>Gambito da Dama</em> são estratégias de quem sabe jogar, e não de iniciantes sem técnica nem equilibro emocional.</p>
<p style="text-align: justify;">Na vida também é assim, mas é claro que há variações importantes. Todos os dias fazemos escolhas <em>soft</em>, cujos enganos não provocarão maiores consequências. Se você errar no prato no restaurante ou no filme na locadora, ou se escolher uma roupa leve em um dia em que faz frio, tudo bem, a encrenca não é tão grande assim. O complicado é errar nas escolhas <em>hard</em>, como a profissão, os investimentos ou a pessoa com quem se casar e compartilhar a vida. Felizmente fazemos mais escolhas <em>soft</em> do que <em>hard</em> neste passeio pela vida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A possibilidade do “e”</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mas nem tudo está perdido. Disse Einstein que nós não podemos resolver um problema usando o mesmo estado mental que o criou. É necessário buscar novas possibilidades, aceitar a existência de caminhos não vistos no primeiro olhar. E, nessa busca, sempre podemos contar com a possibilidade do “e” em vez do “ou”. A inclusão como alternativa à exclusão.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem sempre dá, mas não podemos descartar essa possibilidade, e até contar com ela. Aliás, há situações em que esta é a única saída. Voltando a falar dos economistas e dos pensadores no futuro da sociedade humana, há um tema que gera muita polêmica. Trata-se da disputa entre crescimento da economia e a sustentabilidade do planeta.</p>
<p style="text-align: justify;">Os que pregam o crescimento econômico são acusados pelos ambientalistas de não se preocuparem com a sustentabilidade do planeta, e estes são chamados por aqueles de patrocinadores do atraso. Durma com um barulho destes. Felizmente existem cérebros atuantes, cientistas, estadistas, pensadores que afirmam ser possível promover desenvolvimento protegendo a Natureza. Desenvolvimento <em>com </em>sustentabilidade. Geração de riqueza <em>e </em>preservação do meio ambiente.</p>
<p style="text-align: justify;">Para isso, claro, temos que falar de coisas novas, como reflorestamento, reciclagem, eficiência, novos materiais, pesquisa pura e aplicada, consumo consciente. Novos modelos mentais. Como se vê, fazer a opção pelo “e” requer investimento, tempo e inteligência. É mais fácil escolher um, ignorar o outro e tentar dormir tranquilo.  </p>
<p style="text-align: justify;">A inclusão é a solução ideal, quando possível. Se não, é necessário escolher e arcar com todas as consequências que fazem parte do pacote. O direito de escolher é atributo do mundo livre, o que é muito bom, claro. Nos países totalitários, em que ditadores comandam tudo com mão de ferro, a população não tem que fazer muitas escolhas, porque o estado faz por elas.</p>
<p style="text-align: justify;">Viver com liberdade aumenta a responsabilidade e a ansiedade, mas viver sem ela aumenta o sentimento de impotência e o resultado pode ser a tristeza e a depressão. Sinceramente, se este é o preço, fico com a ansiedade. E viva a liberdade de escolha.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>Atitude DIY</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Dec 2011 17:56:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A sigla em inglês se refere ao comportamento de quem não fica esperando que os outros façam o que deve ser feito. Você é assim?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Mas que tipo de pessoa freqüenta uma loja como esta? Essa foi a pergunta que fiz à minha irmã que está radicada na Califórnia desde muito jovem. Ela é dona de uma loja de <em>beads</em>, que são aqueles pequenos objetos coloridos usados para fazer colares, brincos e bijuterias em geral, por aqui chamamos de contas. O detalhe é que ela não vende as bijuterias prontas, a pessoa tem de criar sua própria peça e ela coloca, no máximo, o fecho. Meio sem entender porque eu havia feito aquela pergunta, ela respondeu:</p>
<p style="text-align: justify;">- Todo tipo de gente. Garotas, senhoras, estudantes, turistas e até homens de negócio. São pessoas que adotam a atitude DIY porque consideram que isso agrega valor à sua compra.</p>
<p style="text-align: justify;">E eu continuei olhando para ela com cara de interrogação, pois, apesar de haver entendido a resposta, estava claro que havia algo que me escapara. Afinal, o que seria atitude DIY?</p>
<p style="text-align: justify;">Minha querida irmã deve ter percebido minha dúvida porque tratou logo de explicar:</p>
<p style="text-align: justify;">- Do It Yourself! Trata-se de uma atitude muito valorizada por aqui. As pessoas gostam de colocar a mão na massa e fazer pequenas coisas com as próprias mãos.</p>
<p style="text-align: justify;">Claro. Faça você mesmo! Não fique esperando que outros façam o que você mesmo pode fazer. Nos Estados Unidos não há facilidade de contratar mão de obra que resolve nossas pequenas (ou grandes) necessidades cotidianas. Empregada doméstica é um luxo raro. Mesmo pagar uma diarista – tem de ser aprovado pelo orçamento doméstico. É necessário pôr a mão na massa.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso há uma profusão de empresas que facilitam a vida do americano comum, que precisa resolver suas próprias coisas. Você compra ferramentas no The Home Depot e conserta a janela empenada e apara a grama. Aluga um caminhão no U-Haul, convida uns amigos e faz sua própria mudança, e por aí vai. E no mundo corporativo? A mulher do cafezinho? A mulher do cafezinho é uma máquina no corredor. Não há o boy para fazer cópias ou comprar lanches. Faça você mesmo, meu jovem folgado.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez seja só especulação, mas o DIY, que nasceu no pós-guerra como meio de acelerar a retomada do progresso e nos anos 1970 teve um apelo de contracultura, como protesto contra o modelo capitalista representado pela indústria, acabou tendo um efeito colateral: estimulou o empreendedorismo e o espírito inovador, muito forte naquele país. É algo a se pensar – e a se imitar. Por falar, nisso, você arrumou sua cama antes de sair de casa hoje?</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: www.vocesa.com.br</em></p>
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		<title>O Uróboro e a Sustentabilidade</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Dec 2011 15:42:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Somos nosso maior predador, por isso, para preservar o meio ambiente, precisamos nos conscientizar de que a mudança não depende de vontande política, mas sim das nossas ações diárias]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>O mito</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A serpente é um animal cheio de simbolismos. Aparece em Gênesis armando confusão entre Adão e Eva; representa a fertilidade em Canaã; a força política no Egito; e a renovação da vida no Caduceu de Mercúrio – o estandarte símbolo da medicina.</p>
<p style="text-align: justify;">A serpente é ambígua, pois representa, simultaneamente, o medo e a admiração, o respeito e a inveja, o belo e o horrível. Ao mesmo tempo em que a detestamos pelo perigo de seu veneno e por sua capacidade de aparecer e desaparecer de repente; admiramos a elegância de seus movimentos e sua a liberdade – mesmo presa em um aquário, parece livre, pois aquieta-se, ocupa todos os espaços disponíveis e apodera-se da segurança que o cativeiro lhe fornece.</p>
<p style="text-align: justify;">E foi no Egito que surgiu uma versão única da serpente: aquela em que ela aparece comendo sua própria cauda – o uróboro. Esta serpente que se engole quer representar o eterno recomeço da vida, mas permite outras interpretações.</p>
<p style="text-align: justify;">Usemos a imaginação: ao formar um círculo, o uróboro cria um espaço interno e outro externo. O lado de dentro simboliza o mundo percebido, a vida como a conhecemos, a matéria, o concreto, a natureza, a ciência. E, no lado de fora, de dimensão desconhecida, provavelmente infinita, caberiam todos os mistérios da vida, de sua origem e de seu fim – os grandes dilemas humanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Fora do uróboro está Deus, e nele estamos contidos, pois o círculo criado pela serpente delimita um espaço do todo e fragmenta o infragmentável criando um fractal do infinito. Nossa esperança infantil e nossa arrogância ingênua desejam que o uróboro abra a boca e nos coloque em contato com o todo, com o divino, para então dominá-lo, sem percebermos que provavelmente seriamos absorvidos pelo infinito e pelo eterno, tornando-nos nada.</p>
<p style="text-align: justify;">É confuso? Pode ser, mas é também fantástico. É só prestar atenção para descobrir que se o uróboro continuar a se comer terminará por consumir-se e desaparecerá deixando-nos ao mesmo tempo sem o interno e sem o externo. Por outro lado, se parar de se alimentar desaparecerá por inanição, e a humanidade morrerá com ele. Parece que não temos saída.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, diz a lenda que o uróboro, ele mesmo, não teme por sua sorte, pois descobriu o segredo da vida eterna, da sustentabilidade infinita. Ao alimentar-se de si mesmo, mantem-se vivo, cresce e providencia a substância que irá alimentá-lo novamente. E nesse moto-perpétuo, absorve energia do externo, do todo, e mantém o interno vivo. A sabedoria do uróboro reside em não parar de alimentar-se, porém, sem extrair, de si mesmo, mais do que necessita para manter-se capaz de continuar produzindo a substância que lhe garante a vida. Uau!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A consciência </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Pode parecer exagero, mas o uróboro nos ensina o segredo da sustentabilidade: não consuma mais do que você precisa para manter-se vivo, e use o resultado de sua produção para recompor o substrato que lhe permita produzir. Simples assim. Sim, simples, mas não fácil.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1987 uma bela e poderosa mulher, a norueguesa Gro Harlem Brundtland, subiu com passos decididos na tribuna da ONU e explicou: “Sustentabilidade é satisfazer as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa definição fazia parte da Declaração Universal sobre a Proteção Ambiental e o Desenvolvimento Sustentável, que passou a ser conhecido por “Relatório Brundtland” em homenagem a Gro, que havia sido primeira-ministra de seu país e que agora ocupava a presidência da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa declaração encontramos propostas para novas formas de providenciar o progresso humano, sem comprometer a fonte da riqueza. O mundo se desenvolve, a população se multiplica, a economia se expande. Mas cuidado, pois nos dias em que vivemos não podemos abordar os temas clássicos como a geração de riqueza, a política internacional, a educação de jovens, a administração de empresas, sem colocar na pauta o crescimento sustentável.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia é transformar a inteligência humana em aliada do planeta, levando o homem a maneirar com o seu instinto predador. Sustentabilidade tem a ver com a prática de consumir sem esgotar, de viver sem comprometer a vida, de ter responsabilidade com o futuro. E isso tem a ver com o que cada um de nós faz em seu dia a dia, e não apenas com os pensadores e os políticos.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensar no futuro não é mais – ou não deveria ser – tarefa exclusiva dos futurólogos e preocupação apenas dos ecologistas. Deveria estar na ordem do dia de cada habitante deste planetinha, o único que temos, diga-se. Para isso seria necessária a criação de uma nova consciência humana, a de que, cuidando, não vai faltar. </p>
<p style="text-align: justify;"> <strong>A realidade</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Mas, o que acontece é que a competitividade global está dificultando a sobrevivência das empresas e das pessoas, e é difícil, vamos ser honestos, alguém pensar no futuro se está com dificuldades para garantir o presente.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos nós temos necessidades imediatas e procuramos atendê-las rapidamente, pois elas nos provocam desconforto ou sofrimento. Só que a modernidade acrescentou novas necessidades à nossa sobrevivência. O homem de antigamente precisava de comida, roupas, abrigo. Hoje também, mas agora acrescentamos outras prioridades como educação, lazer, relações, tecnologia, comunicação, transporte de massa. Além disso, mudou a frequência das necessidades. Assim como a comida, hoje consumimos outras coisas que precisaremos consumir de novo amanhã, e depois-de-amanhã, em uma escala muitas vezes crescente.</p>
<p style="text-align: justify;">A lógica da sustentabilidade nos obriga a pensar sobre a linha do tempo próxima e remota, pois precisamos atender às necessidades pessoais de hoje lembrando que teremos outras amanhã. Vem daí a ideia da sustentabilidade pessoal. Usando o exemplo do consumo, apenas medir se uma prestação cabe no orçamento e enfiar-se em uma dívida para comprar algo que precisamos no momento pode prejudicar o orçamento por um bom tempo e, como consequência, as necessidades do amanhã.</p>
<p style="text-align: justify;">O conselho é este: você até pode gastar hoje o que vai ganhar amanhã, desde que não perca de vista que amanhã você vai ter outras coisas para gastar. Desejos e recursos são passageiros do mesmo barco. E isso vale para o planeta, para uma empresa, para uma família e para cada um de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">É famosa a história daquele playboy que herdou uma grande fortuna e resolveu dedicar a vida apenas a gastá-la. Ele fez um cálculo simples, reservando uma parte do dinheiro para cada ano que ele imaginou que iria viver. Só que ele foi surpreendido por sua boa saúde: viveu muito mais do que imaginava. A consequência foi que ele passou cerca de vinte anos com extrema dificuldade para se manter, e como não havia se preparado para exercer nenhuma profissão, não tinha como ganhar dinheiro. Dependeu da ajuda de parentes e amigos até para comprar comida e remédios. Foi uma vida não autossustentável.</p>
<p style="text-align: justify;">Guardadas as proporções, isso acontece com muita gente que não previne seu futuro, o que poderia ser feito através de uma poupança, de um negócio ou de um plano de previdência. E é também o que está acontecendo com o planeta, pois estamos gastando demais seus recursos sem preocupação com seu esgotamento. Quem vai pagar essa conta são nossos descendentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O legado</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Com frequência nos perguntamos que planeta queremos deixar para nossos filhos, mas deveríamos mesmo é nos perguntar que filhos queremos deixar para o planeta. A ideia da sustentabilidade passa, necessariamente, pela educação, pela criação de uma “mentalidade sustentável”. Há comunidades em que a ideia da sustentabilidade faz parte do senso comum, não é apenas uma visão cientifica, política ou acadêmica. Faz parte do cotidiano. Mas, nesses casos, houve investimentos em educação, e não apenas na criação de leis, normas e punições.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Curitiba, um exemplo que eu conheço bem, a separação doméstica de lixo é uma das maiores do mundo. Quase ninguém deixa de separar o lixo comum do lixo reciclável em casa. Todo o material de plástico, vidro, papel ou tecido é armazenado em algum lugar e entregue a um caminhão especial, verde, que passa duas vezes por semana, em todos os bairros da cidade – o caminhão do “lixo que não é lixo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste caso, três fatores contribuíram: a educação das crianças nas escolas, a competência da prefeitura que manteve a coleta seletiva e a ação do tempo. Esse programa levou trinta anos para se consolidar. As novas gerações educaram as mais velhas, numa maravilhosa inversão dos fatos históricos. Os filhos ensinaram os pais o que haviam aprendido na escola. É um belo exemplo de preocupação com a sustentabilidade de uma cidade, no que diz respeito ao manejo de matérias que podem ser recicladas e reaproveitadas para produzir novas coisas.</p>
<p style="text-align: justify;">Educação, conscientização, estratégias, recursos. Talvez pudéssemos chamar tudo isso de vontade política, o que não tem a ver apenas com os políticos, e sim com cada pessoa. Eu, pessoalmente, durmo melhor quando sinto que, naquele dia, pratiquei algo que, de alguma forma colaborou com o meio ambiente. Pode ser a economia de água, o uso de transporte coletivo, o fato de dispensar a sacola plástica do supermercado levando uma sacola de pano, coisas pequenas, mas que são as que vão fazer a grande diferença no final. Isso é o que o Capra chama de <em>ecoliteracy</em> – alfabetização para a ecologia.</p>
<p style="text-align: justify;">É urgente que caminhemos em direção a essa alfabetização. E é bom que tenhamos pressa, porque o uróboro está quase abrindo a boca&#8230;</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>Liderando em tempos de mudança</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Dec 2011 12:20:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Deu no The Economist: “As escolas de negócios deveriam rever seus currículos. Quando descobrimos que a maior parte dos executivos que protagonizaram a crise de 2009 eram oriundos das principais Business Schools do mundo, percebemos que alguma coisa está errada, muito errada. Se elas ensinassem história a seus alunos, por exemplo, estes evitariam os erros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Deu no <em>The Economist</em>: “As escolas de negócios deveriam rever seus currículos. Quando descobrimos que a maior parte dos executivos que protagonizaram a crise de 2009 eram oriundos das principais <em>Business Schools </em>do mundo, percebemos que alguma coisa está errada, muito errada. Se elas ensinassem história a seus alunos, por exemplo, estes evitariam os erros já cometidos anteriormente”. <em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">De fato, nos últimos 50 anos houve mais de uma centena de crises no sistema financeiro (nenhuma tão grave, claro), e todas tiveram origens parecidas. Conhecer os erros e os acertos de quem veio antes de nós é, no mínimo, uma forma de ajuda aos processos de tomada de decisão. Mas pouca gente se interessa por história. Pena.</p>
<p style="text-align: justify;">E seria fácil. Faça o seguinte: pegue um livro de história universal do colégio de seu filho e dê uma olhada. Ou compre uma das publicações do Laurentino Gomes sobre história do Brasil e delicie-se com os fatos da vinda da família real em 1808 e da independência em 1822.</p>
<p style="text-align: justify;">Em qualquer dos casos você vai verificar o seguinte: primeiro, que estudar história é estudar os movimentos de mudança da humanidade, como as conquistas, os descobrimentos, as crises e as invenções. Segundo que não nos debruçamos sobre esses fatos sem verificar quem foram seus protagonistas, aqueles que estiveram à frente dessas mudanças, as promoveram ou, de alguma forma, influenciaram os fatos. Esses foram os líderes. E não importa se eram reis, generais, comandantes ou simples homens e mulheres do povo. Lideres são os que promovem mudanças. Ou, pelo menos, lidam com elas.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, para gerir as mudanças cada vez mais frequentes e profundas, e seus casos especiais, como as crises e os grandes desafios da atualidade, são necessários lideres bem preparados, dotados de visão sistêmica, competência estratégica, poder de decisão e, acima de tudo, resiliência.</p>
<p style="text-align: justify;">É bem sabido que os líderes mais apropriados aos tempos de guerra são diferentes daqueles que administram a paz. Churchill, por exemplo, não foi reconduzido ao primeiro gabinete depois da Segunda Guerra Mundial. O homem que havia livrado o mundo da tirania simplesmente não era a pessoa mais indicada para a reconstrução. Agora seria necessário um líder com perfil de gestor, um empreendedor, e não um guerreiro. O escolhido foi o conciliador Clement Attlee, mas Winston Churchill voltou em 1951 para controlar o declínio econômico do império – uma nova batalha.  </p>
<p style="text-align: justify;">OK, e que tipo de líderes estamos precisando em nossas empresas? Afinal estamos paz ou em guerra? Bem, depende do ponto de vista. Em termos absolutos,  vivemos tempos de paz, felizmente. Pelo menos não há nenhuma guerra em nosso quintal, e esperamos que assim continue, por muito tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, em termos relativos, considerando as disputas de território de um mercado globalizado, os solavancos da economia europeia, a força dos emergentes, o acirramento da competitividade, não dá pra dizer que não estamos em um certo “estado de guerra”. Revisão de cenários, estratégia de conquista, logística, comunicação, capacitação do time. Tudo isso é necessário para, às vezes, ganhar alguns metros de território. Que tempos são esses, em que a paz exige operações de guerra?</p>
<p style="text-align: justify;">O autor do artigo da revista inglesa tem razão. É hora de revermos a maneira como estamos produzindo os líderes que irão construir o futuro. Para estes, competências funcionais são apenas um detalhe. Fundamental, mas não mais do que uma parcela de sua formação, que atualmente exige a compreensão da evolução social, o entendimento das variáveis econômicas, as características comportamentais das novas gerações, as exigências crescentes do mercado e assim por diante.</p>
<p style="text-align: justify;">Conhecer história, como ele sugere, é apenas parte do processo. Mais do que conhecer história é necessária a disposição para participar de sua construção. Há quatro séculos o Padre Antônio Vieira disse: “Contar a história do passado é fácil. Quero ver é você contar a história do futuro, do que ainda está por vir. Quando fazemos isso estamos mostrando nossa disposição para sermos como deuses”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem o exagero semântico do padre filósofo poderíamos dizer, sem medo de errar, que os novos líderes gostam, sim, de brincar de seres capazes de ver o que os demais não veem. E não vai nisso nenhuma arrogância nem prepotência, e nem sequer é uma competência especialíssima. Trata-se apenas de uma qualidade dos líderes que se forjam e agem em tempos especiais, os tempos de grandes mudanças, como o que estamos vivendo nestes dias.    </p>
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		<title>De bem com a vida</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 14:26:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“Cuidado, a vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada embaixo: Deus! e com firma reconhecida”.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A frase acima só podia ser de um poeta transgressor como Vinícius de Moraes. É uma das partes faladas do Samba da Benção que ele compôs e Baden Powell musicou. Enaltecendo a beleza do samba e a aventura do amor, ele fala mesmo, em seus versos, da arte de viver. Pede benção aos amigos e diz que já viajou muitas canções, mas que ainda há muitas para viajar.</p>
<p style="text-align: justify;">Os versos de nosso “poetinha” resumem como poucos a dupla função da poesia composta por beleza e verdade: agrada os sentidos e faz pensar. “Cuidado, a vida é pra valer”, não é algo a ser desperdiçado, até porque “Não se engane não, tem uma só”. Por isso temos que estar de bem com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Estar de bem com a vida. Este é um tema que ultrapassa o terreno estéril das frases de efeito e chega ao território fecundo da filosofia. &#8220;Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão”, disse Nietzsche, para depois admitir que invejava a leveza desses seres. “Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arrancam lágrimas e canções”, completou. Pois até o mal humorado filosofo alemão admitiu que há virtude em se buscar a paz com o viver.   </p>
<p style="text-align: justify;">E o que é estar de bem com a vida senão a capacidade de manter um estado de alegria a despeito das vicissitudes da própria? É claro que a vida é dura, injusta e muitas vezes cruel. Todos sofremos com a perdas e com as angústias próprias do viver, mas não é disso que estamos falando. As condições externas influem, sim, mas o tema aqui é o estado da alma.    </p>
<p style="text-align: justify;">Não me agrada o discurso fácil da auto ajuda que insiste que você tem a obrigação de ser feliz. Não, felicidade não é uma obrigação nem uma competência. Não é uma alienação. Felicidade nem sequer é um estado definitivo, e, com certeza não é um lugar onde se pode chegar. Por outro lado, não me agrada também a condição das “vítimas do sistema”, que se orgulham de sua amargura e a exibem como um troféu conquistado.</p>
<p style="text-align: justify;">Conheço pessoas que souberam lidar bem com as dificuldades naturais de suas existências e conheço outras que se transformaram em vítimas tristes nas mesmas condições. É claro que há situações de extrema dificuldade, e negar a tristeza que vem junto é negar a própria condição humana. Mas esta não é a questão. Não me refiro às tragédias, e sim às dificuldades corriqueiras, que impregnam nosso cotidiano como o musgo na face sul do tronco das árvores, e que podem, com o tempo, apagar o brilho de viver. A menos que não se deixe que isso aconteça.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei pessoas de bem com a vida nas grandes cidades, trabalhando em imensas corporações. Encontrei também em pequenas vilas do interior ou do litoral. Em lugares pobres e em lugares ricos. Em tempos de tranquilidade e em tempos de crise. Ou seja, em todos os lugares. E também encontrei pessoas de mal com a vida. Onde? Exatamente nos mesmos lugares.</p>
<p style="text-align: justify;">Este talvez seja um dos grandes mistérios da psicologia humana. O que faz a diferença entre esses dois tipos de indivíduos? Será sua genética ou terá sido sua educação?       </p>
<p style="text-align: justify;">Lembro de meus colegas de colégio. Estávamos todos naquela fase de definir o futuro, de escolher a faculdade, de sonhar com o sucesso. Eu, por exemplo, já tinha me decidido: queria ser médico. E também queria ser rico, famoso, comprar um carrão, viajar bastante e ter um monte de namoradas, claro. Afinal, éramos todos adolescentes, cheios de espinhas e de sonhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Havia ali os futuros engenheiros, advogados, empresários, e até um diplomata.  E havia Fabinho. Ele não tinha planos grandiosos, não queria ficar rico nem famoso. Quando alguém lhe perguntava o que queria ser na vida ele respondia com um sorriso: “Eu quero ser feliz”. E eu via sinceridade em sua afirmação.</p>
<p style="text-align: justify;">O Fabinho era desses garotos raros que, ao contrário da maioria, não parecia estar em guerra contra o mundo. Não tinha inimigos, não se “empatotava” para odiar a outra “patota”. Não se queixava das exigências dos professores nem da dureza das provas, que, aliás, ele tirava de letra.</p>
<p style="text-align: justify;">Fabinho não era rico, nem bonito, nem atleta talentoso. Ele era como a maioria, com virtudes e fragilidades. Era como eu, só que ele tinha algo que lhe era singular. Ele parecia estar de bem com a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Encontrei, como já disse muitos Fabinhos pela vida afora, como também encontrei seus opostos, os amargurados crônicos. Qual o segredo? Não sei, mas, pra começo de conversa, estou certo de que não existe uma fórmula para ser feliz, e se existir, ainda que seja apenas uma pista, com certeza ela é pessoal e intransferível, pois felicidade é um conceito concebido individualmente.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto pessoas de bem com a vida têm, sim, algo a nos ensinar. A primeira lição é que elas não caem na armadilha fácil da felicidade imediata, aquela que é confundida com o prazer descartável, nem transformam a felicidade em um eterno projeto futuro. Gente de bem com a vida percebe que felicidade é um estado interior que não precisa ser prejudicado pelo que acontece fora de nós, e também se dá conta que, se a única coisa que existe de fato é o presente, o futuro vai virar presente e, quando isso acontecer, ele será tão melhor ou tão pior dependendo das providências que tomarmos no presente atual.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um quê de sabedoria nessa postura, e um monte de inteligência aplicada ao bem viver, pois, em síntese, quer dizer que temos que viver o presente com um olho posto no futuro, aproveitar cada instante como se fosse único e, ao mesmo tempo, organizar-se para o dia de amanhã para não ser tomado de assalto por notícias ruins nas esquinas da vida. Então é isso, estar de bem com o tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, espere um pouco, tem mais. É necessário equipar-se com alguns artigos de primeira necessidade para alimentar a felicidade, nada muito complicado, acredite. Algumas coisas são óbvias, mas invisíveis como o ar, que só é percebido quando falta. A saúde, por exemplo. Então é melhor cuidar da dita cuja, pois não dá pra ser feliz e doente ao mesmo tempo, e não importa a fase da vida. O mesmo se dá com a grana, a bufunfa, o tal do dinheiro. É parecido com o ar e a saúde, só damos valor quando falta. O ditado popular insiste, há séculos, que dinheiro não traz felicidade. Estou inclinado em acreditar nisso até certo ponto, pois se o dinheiro não te faz feliz, a falta dele, provavelmente, vai te tirar o sono e prejudicar sensivelmente a felicidade interna bruta.</p>
<p style="text-align: justify;">Resolvidos os requisitos básicos, que atrapalham a busca da felicidade se estiverem ausentes, é hora de cuidar dos ingredientes da verdadeira felicidade, aquela que dá gosto de sentir. E eles são pelo menos três: o que fazemos para viver, como gastamos nosso tempo livre e, talvez o mais importante, com quem compartilhamos tudo isso.</p>
<p style="text-align: justify;">O que fazemos para viver, evidentemente, é nosso trabalho. Ele nos dá o sustento e a dignidade, mas pode nos dar mais, pode dar o verdadeiro sentido da vida. Todos os trabalhos são dignos, mas temos que ouvir nossa vocação e perceber o significado daquilo que fazemos. Assim teremos, não só um trabalho, mas uma carreira; e não realizaremos apenas tarefas, mas causas. Não acho que alguém, para quem o trabalho seja um peso, possa ser feliz de fato. Você se contentaria em ser feliz só depois do expediente e, ainda por cima, odiar a vinheta do Fantástico, que é o prenúncio da segunda feira?</p>
<p style="text-align: justify;">Cuidar do tempo livre é ter disposição para se divertir. O prazer, a alegria, a diversão são tão importantes quanto seu trabalho ou o estudo. É desse equilíbrio que sai o caldo de cultura que vai alimentar a felicidade. E curtir a vida tem mais uma vantagem: quando você ficar velho terá boas lembranças como lenitivo para a vida mais recolhida.</p>
<p style="text-align: justify;">Por último, mas muito longe de ser menos importante, as relações humanas. Geneticamente não estamos preparados para a solidão, que só é boa quando é por opção, e, ainda assim, por pouco tempo. Ter amigos, curtir a família, cultivar boas relações com seus colegas de trabalhos e vizinhos do condomínio. As boas relações nos fazem felizes sim, alimentam nosso espírito gregário, nos fazem perceber que somos queridos, geram autoestima.</p>
<p style="text-align: justify;">Entretanto, é bom que se diga, há uma relação humana especial, que tem um imenso poder de agregar felicidade, que transforma silêncio em música, folha em flor, distância em saudades, toque em sedução, sorriso em esperança. Estou falando da pessoa especial que está a seu lado, seu companheiro, sua companheira de jornada. Estou falando do amor verdadeiro, que existe, sim, e é bom, muito bom.</p>
<p style="text-align: justify;">Não conheço os detalhes da vida do Fabinho, mas quem me fala sobre ele relata que ele tem andado por aí com aquela cara que só os apaixonados têm, um misto de paz e entusiasmo, a combinação pra lá de perfeita. No fundo, no fundo, não é difícil ser feliz, mas dá um certo trabalhinho cuidar desses detalhes. E o fator acaso? Existe, afinal? Claro que existe, mas seu potencial para gerar felicidade é diretamente proporcional à atenção e inversamente proporcional ao descaso.</p>
<p style="text-align: justify;">Já se disse que o acaso tem sempre a última palavra. Mas podemos rever esse conceito, afinal, a última palavra pode estar com cada um de nós, e é dita por aquilo que fazemos com o que o acaso fez conosco.</p>
<p><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>Crie a sua própria fruta</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Nov 2011 18:32:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Referências e ídolos são importantes fontes de inspiração, porém, cuidado com as imitações. Não vale a pena viver a vida de outra pessoa]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A recente morte de Steve Jobs provocou uma enxurrada de referências à sua fantástica contribuição para o mundo. Cultivar ídolos sempre fascinou o ser humano, como pode ser percebido por meio dos mitos aos quais recorremos com freqüência. Ulisses, Hércules e Davi estão aí para nos inspirar; essa é a função dos heróis. Se você está para fazer um curso ou assistir a uma palestra de liderança, é muito provável que vá ouvir os nomes de pessoas como Mandela ou Gandhi. Não há nada de errado em usar – e até reverenciar – os nomes deles.</p>
<p style="text-align: justify;">Usar esses personagens como referência é útil porque eles criaram novas possibilidades para si e para muitos outros. Nesse sentido, Jobs é um exemplo daqueles que não surgem dois no mesmo século. Ambicioso que sou, eu adoraria ser um Steve Jobs. Gostaria muito de ser um visionário tão fantástico, um aglutinador de talentos tão eficaz e um empreendedor tão audaz. Mas fico pensando que, para ser tudo isso, eu teria de deixar de ser eu mesmo, com meus valores e minhas conquistas pessoais. Se eu tivesse de deixar de lado meu próprio eu, provavelmente abriria mão de ser alguém assim tão especial. Jobs foi o único, mas cada pessoa, a seu modo, também é. Ele criou a marca da maçã, e você pode criar sua própria fruta.</p>
<p style="text-align: justify;">Jobs era budista, e o budismo aconselha: “Medite, viva puramente, seja simples, faça seu trabalho com maestria. E, como a Lua, saia de trás das nuvens e brilhe”. Esse maravilhoso conselho de Sidarta pode ser aplicado em todos os lugares, desde que haja uma pessoa e uma intenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Serviu para criar uma nova maçã, pode servir para criar uma nova jabuticaba. E, para ser bom, junte-os aos bons.</p>
<p style="text-align: justify;">Os produtos imaginados por Jobs não foram desenvolvidos necessariamente por ele, e sim por técnicos capazes e igualmente apaixonados. A imaginação e o conhecimento, quando se juntam, produzem coisas fantásticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Porém, cuidado com as imitações. Os dois Steves, “pais da Apple”, entre seus erros e acertos, aconselharam as pessoas a serem elas mesmas.</p>
<p style="text-align: justify;">Worzniak, o outro Steve, e sócio de primeira hora de Jobs, termina sua autobiografia encorajando os jovens a seguir, acima de tudo, suas próprias ideias e paixões. Jobs, em seu famoso discurso para os alunos da Universidade Stanford em 2005, disse: “Seu tempo é limitado, portanto não o desperdice vivendo a vida de outra pessoa”. A discussão sobre se a Apple continuará sendo a mesma sem ele é inútil. É claro que não será. Poderá até ser melhor, mas será a Apple sem Jobs.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
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		<title>Quando eu quase desisti</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Oct 2011 16:10:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Antes de abandonar um desafio, faça uma pausa para refletir e converse com um amigo que saiba te escutar]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Recentemente fiz uma viagem aventura. Com meus amigos Júlio e Décio fui de moto até Cuzco, no Peru, onde encontramos nossas mulheres para visitar Machu Picchu. Percorremos mais de 5000 quilômetros em sete dias. Foi uma das experiências mais emocionantes, e duras, que tive em toda a vida. Houve momentos mágicos, como a entrada na região amazônica e a travessia dos Andes. Houve um momento difícil, em que quase desisti. Em mato Grosso, já com algumas dores no corpo, comecei uma manhã enfrentando um infernal trânsito de caminhões, com a meta de viajar mais de 900 quilômetros naquele dia, sob um sol de 40 graus. Para piorar, perdi uma das malas, que, com um pequeno defeito na presilha, saiu quicando pelo asfalto quase provocando um acidente. Assustado, na primeira parada informei a meus amigos que iria só até Cuiabá, despacharia a moto para São Paulo e voltaria de avião. Era meu limite e, para mim, já tinha sido uma vitória.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi quando senti o valor da equipe. “Vamos respeitar sua escolha”, disse Julio. “Mas primeiro vamos almoçar, depois você decide.” E durante o almoço, um pouco mais relaxado, a conversa foi sobre o valor do companheirismo, a força que o grupo emana, a coesão proporcionada pelos objetivos comuns, tudo isso fluindo naturalmente das histórias de vida de cada um. Ao fim da refeição, respondendo ao olhar interessado de meus amigos, eu disse: “Vamos em frente pessoal”. A viagem foi maravilhosa, principalmente pelo prazer de aventura associado às dificuldades, mas confesso que aquele episódio ajudou a tornar a experiência ainda mais rica. Se eu não passasse por um momento tão duro, acho que não teria valido tanto a pena. Isso me fez recordar vários momentos da vida, igualmente difíceis, que exigiram doses extras de energia, e que, por isso mesmo, foram marcantes e colaboraram para a construção de meu caráter. Você fez vestibular? Batalhou para conseguir um emprego? Abriu seu próprio negócio? Faliu? Casou? Montou sua primeira casa? Em todos esses eventos com certeza há momentos de dúvida e pensamentos de desistência. Mas não dá para desistir de viver. Em todos esses momentos ter uma equipe de verdade a seu lado pode ser determinante.</p>
<p style="text-align: justify;">Que equipe? Ora, a que você constrói enquanto caminha pela longa estrada da vida – família, amigos, companheiro (a). Não desista de nada já. Primeiro tenha um almoço descontraído e troque uma idéia com alguém que saiba ouvir.</p>
<p><em>Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: www.vocesa.com.br</em></p>
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		<title>A pergunta certa</title>
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		<pubDate>Thu, 06 Oct 2011 17:51:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Conseguir uma boa resposta para nossas dúvidas - cotidianas ou existenciais - depende apenas da maneira como questionamos]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">- O que aconteceu? Quem fez isso? Como é que pôde acontecer uma coisa dessas?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa coleção de perguntas foram disparadas pela vizinha de uma casa, enquanto os bombeiros faziam seu trabalho de rescaldo após terem dominado o fogo que quase a consumira por inteiro. Seus moradores, atônitos, não conseguiram responder. Eles mal entendiam o que estava acontecendo.</p>
<p style="text-align: justify;">O chefe dos bombeiros, um homem grisalho, calejado pelos anos dedicados a acudir tragédias e, quando possível, mitigar o sofrimento humano, afastou gentilmente a vizinha tagarela da família que olhava a cena, incrédula. Foi quando chegou uma segunda vizinha que falou suavemente com ele, dizendo:</p>
<p style="text-align: justify;">- Desculpe, senhor, gostaria de saber: há alguma coisa que possamos fazer para ajudar?</p>
<p style="text-align: justify;">- Obrigado – respondeu o bombeiro – por enquanto, tudo o que você pode fazer é consolar a família, quem sabe recolhendo-a à sua casa. Ah, e obrigado também por fazer a pergunta certa.</p>
<p style="text-align: justify;">O bombeiro, institivamente, se referiu a um ponto crucial para ajudar a encontrar as respostas para nossas dúvidas, angústias e questionamentos dentro da fantástica complexidade do mundo em que vivemos: fazer a pergunta certa. Sem perceber estamos tomando decisões o tempo todo e nos posicionando nos instantes da vida. Encontrar as respostas que nos ajudarão a tomar decisões é fundamental, e o que custamos a perceber, é que as respostas existem a priori, desde que sejam feitas as perguntas certas.</p>
<p style="text-align: justify;">As três perguntas feitas pela primeira vizinha não tinham nexo, e as respostas, além de óbvias, seriam totalmente irrelevantes. Perguntar o que aconteceu diante de uma casa que pega fogo tem a mesma relevância que comentar o tempo dentro de um elevador com o morador do andar de cima, ou zoar com o amigo cujo time perdeu para o seu &#8211; nenhuma. Foram feitas apenas para satisfazer a curiosidade, não para agregar valor. Além disso, nenhuma pergunta é tão difícil de responder do que aquela cuja resposta é óbvia.</p>
<p style="text-align: justify;">Era evidente que a casa estava pegando fogo, era certo que a família estava sofrendo, estava claro que os bombeiros estavam controlando a situação. Como começou o fogo? Assunto para depois, agora é tratar de colaborar ou, pelo menos, de não atrapalhar. Realmente, a segunda vizinha fez a pergunta adequada: como posso ajudar?  </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O âmago da questão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Encontrar o centro geométrico de uma questão qualquer é a maneira de interpretar, entender, resolver e decidir. Só que, ainda que não pareça, fazer isso tem lá suas dificuldades. Leva tempo. Você já participou daquela brincadeira juvenil de descobrir quem é o personagem imaginado pelo outro, que fica respondendo apenas “sim” e “não”? Se você descobrir com poucas perguntas, ganha o jogo, se com muitas, perde.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois há técnica para encontrar a pista, fazendo as perguntas certas na ordem certa. O ideal é começar pelas perguntas mais genéricas, tipo “É homem?” ou “Está vivo?”, antes de tentar descobrir a profissão ou a nacionalidade. Os bons jogadores dificilmente passam de meia dúzia de perguntas para acertar em cheio.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois na vida também é assim. Entrevistadores de candidatos a emprego, executivos em processos de negociação e, claro, advogados e promotores nos tribunais, são especialistas em fazer a pergunta certa, aquela cuja resposta será definitivamente esclarecedora. </p>
<p style="text-align: justify;">Quando estudei medicina aprendi a conduzir a anamnese, que nada mais é do que a conversa que o médico tem com o paciente. Este diálogo é importantíssimo e, às vezes, tão revelador que, quando bem conduzido, já revela o diagnóstico. “Grandes clínicos são excelentes conversadores”, costumava nos dizer um famoso professor.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode não ficar claro para o paciente, mas o médico lhe faz basicamente três perguntas: Qual é sua queixa?, Como é sua família?, Quais são seus hábitos de vida? &#8211; Se essas três questões básicas forem respondidas adequadamente, é difícil que um médico bem preparado não tenha nas mãos pelo menos uma bela hipótese diagnóstica. O exame físico e os exames laboratoriais passam a ser apenas confirmadores de tal suspeita.</p>
<p style="text-align: justify;">Perguntas certas abreviam as respostas, aceleram o processo de tomada de decisão, e até permitem que o médico faça diagnósticos à distância. Recém formado recebi um telefonema de uma amiga da família pedindo uma indicação de um remédio, pois seu marido, um homem de mais de cinquenta anos, queixava-se de fortes dores no estomago. Fazendo as perguntas certas descobri que ele não tinha dores de estomago frequentes, não tinha se alimentado fora do padrão e, o mais revelador, a dor tinha começado imediatamente após ter trocado o pneu do carro. “Corra para o hospital com ele, é muito provável que ele esteja tendo um enfarte”. É comum que a dor do enfarte do miocárdio seja confundida com outro tipo de dor, e as perguntas certas me permitiram salvar a vida de uma pessoa querida. Orgulho-me dessa lembrança.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Chega de rodeios</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O tema da pergunta certa é muito sutil e, geral, passa ao largo de nossa atenção, pois se trata de algo aparentemente óbvio. Mas não é. Gasta-se muita energia com interlocuções que não chegam a lugar nenhum, simplesmente porque alguém faz uma pergunta errada e ela desvia totalmente o rumo da conversa. Pense um pouco, já aconteceu com você.</p>
<p style="text-align: justify;">Pode parecer exagero, mas existe uma organização que foi criada exatamente para estimular que se façam as perguntas certas nos lugares onde isso é crucial para que os bons resultados sejam atingidos. Trata-se da <em>Right Question Institute </em>(Instituto da Pergunta Certa), cujo nome não podia ser mais assertivo. Localizado próximo à cidade de Cambridge, na costa leste dos Estados Unidos, o Instituto tem como missão promover o uso de estratégias simples, poderosas, baseadas em evidências, que ajudam as pessoas a aprender a ajudar a si mesmas. Nobre missão.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia do RQI não começou num laboratório ou a partir de uma estudo acadêmico. Começou com um programa de prevenção de abandono escolar, durante o qual notou-se que os pais dos alunos que não se envolviam na educação de seus filhos justificavam sua ausência dizendo que “nem sabiam o que perguntar a eles”.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir dessa observação os educadores identificaram um imenso obstáculo de relacionamento dos pais com os filhos, mas também de cada pessoa consigo mesma, pois também devemos nos fazer as perguntas certas, para começarmos a encontrar nossos próprios caminhos.</p>
<p style="text-align: justify;">O RQI admite ter cometido um erro. Assim que perceberam a importância das perguntas certas, seus fundadores criaram uma lista de perguntas recomendadas para tais pais. Rapidamente essa estratégia os direcionou para uma rua sem saída, pois aumentou a dependência dos pais que queriam ajudar na educação de seus filhos. Perguntas certas não podem ser padronizadas, a não ser em situações extremamente controladas, como uma consulta médica. Na vida, o buraco é mais embaixo.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi assim que perceberam que precisavam encontrar uma forma de ensinar as pessoas a formular suas próprias perguntas. Claro, esse é o caminho da autonomia, essa grande riqueza humana.  Foi a origem do Question Formulation Technique (Técnica de Formulação de Questões) que, se bem aplicado, remove as barreiras que impedem que se vá direto ao ponto. A forma mais eficaz de formular perguntas é focar as perguntas nas decisões chaves que nos afetam, o que é mais difícil do que parece, pois todos temos uma imensa compulsão de não querermos enfrentar de frente nossas questões mais dolorosas.</p>
<p style="text-align: justify;">A evolução de tal trabalho deu origem ao <em>Framework for Accountable Decision-Making </em>(Estrutura para Tomada de Decisão Responsável) que passou a ser adotada por escolas e empresas. É, a coisa é séria. Tão séria que os pesquisadores notaram uma correlação direta entre a capacidade das pessoas fazerem perguntas certas e, pasme, a instalação e manutenção dos estados democráticos. Cidadãos que não permitem que se tape o sol com a peneira, e que fazem a seus representantes no governo as perguntas que interessam, não se deixam enganar, reivindicam seus direitos e são mais colaborativos. Poderia haver maior poder para a pergunta certa?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Esteja atento</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Como já disse, quando fazemos as perguntas certas, somos surpreendidos com a facilidade com que as respostas surgem. Estas já existem, só precisam ser acessadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Minha amiga Dulce, uma pessoa pra lá de sábia, com quem dá gosto de trocar uma ideia, defende a teoria de que estamos cercados de respostas, é só olhar em volta. Nos livros, nas músicas, nos poemas, também no semblante das pessoas, na reação delas e, por incrível que pareça, até em cartazes e sinais de trânsito.   </p>
<p style="text-align: justify;">Conta que certa vez acompanhava uma pessoa em uma visita à sua empresa, ouvindo no carro, uma enxurrada de queixas sobre sua vida profissional e pessoal. Foi quando ela lhe estimulou a fazer-se a si mesmo, a pergunta crucial, aquela que tocava na ferida, e que, por isso mesmo ele tratava de evitar. Ele então disse algo como “Por que ando tão infeliz, se, afinal, até aqui, consegui tudo o que desejava?”.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse momento eles estavam chegando na entrada da empresa que, muito preocupada com segurança, tinha, em seu portão uma guarita, um guarda e um cartaz que dava cinco instruções aos chegantes: Pare. Apague as luzes externas. Acenda as luzes internas. Identifique-se. Siga.</p>
<p style="text-align: justify;">Aquele era o portão pelo qual ele passava todos os dias, e nunca tinha reparado naqueles dizeres, ou nunca havia lhes dado outra interpretação que não a de definirem procedimentos de segurança. Mas a resposta estava para seu dilema existencial estava ali, diante de seus olhos. Mansamente, Dulce apontou aquele cartaz e lhe disse:</p>
<p style="text-align: justify;">- Pois aí está uma boa sugestão. Você está precisando de um tempo para você mesmo antes de prosseguir. Se não aumentar sua consciência e não diminuir a dependência do mundo para tomar suas decisões, dificilmente se encontrará a si mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois é, parece que o que não faltam no mundo são respostas. A carência maior é de perguntas certas. Não evite as perguntas, não tenha medo delas, elas é que são o caminho. Afinal, como disse o Bruce Lee, filosofando, entre uma luta e outra: “Um homem sábio aprende mais com uma pergunta tola do que um tolo aprende com uma resposta sábia”. </p>
<p style="text-align: justify;"><strong><em>Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Todos os direitos reservados.</em></strong><strong><em><br />
</em></strong><strong><em>Visite o site da revista: </em></strong><strong><a href="http://www.revistavidasimples.com.br/" target="_blank"><em>www.revistavidasimples.com.br</em></a></strong></p>
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		<title>A Distância Adequada</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Sep 2011 16:00:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Revista Você S/A]]></category>
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		<description><![CDATA[Já ouviu falar no IDP, o Índice de Distância do Poder?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Às vezes demoramos para encontrar a medida certa das coisas. Por quanto tempo ferver um ovo para que ele não fique duro nem mole? Qual a altura exata do som de modo que alegre a festa sem incomodar o vizinho? Quanto de roupa levar numa viagem para que não falte nada sem deixar a mala muito pesada?</p>
<p style="text-align: justify;">Essas são algumas das questões de quantidade ideal com que nos defrontamos em nosso dia a dia. No trabalho e na gestão de empresas acontece o mesmo. Quando ligar para o cliente que demonstrou interesse em um produto sem parecer insistente nem deixar o negócio esfriar? Que dose de controle e autonomia dar à equipe? Mais arrojo ou conservadorismo nas aplicações financeiras?</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo acontece com a distância correta entre o líder e sua equipe. Há até um índice para isso, o IDP, ou Índice de Distância do Poder, que mede quanto o líder se coloca como superior à sua turma, ou quanto ele se considera parte integrante, sem maiores distinções com relação aos demais. É sabido que quando o IDP é alto há prejuízos para a inovação e para o empreendedorismo corporativo, pois as pessoas se sentem intimidadas em ter atitudes sem consultar ou pelo menos informar seu chefe. Por outro lado, quando o IDP é muito baixo, nos momentos de crise pode haver uma certa paralisia, já que nessas horas as pessoas precisam de um comando forte.</p>
<p style="text-align: justify;">Chefes amigos são muito desejados nos ambientes de trabalho, pois há mais confiança e liberdade para sugerir e colaborar por parte da equipe. Mas daí ao chefe aceitar ser padrinho do filho recém-nascido de um funcionário há uma imensa diferença, que deve ser compreendida por ambos. Só que às vezes isso acontece e, depois, como é que um gerente vai repreender, ou até demitir, um compadre, se necessário?</p>
<p style="text-align: justify;">O filósofo alemão Arthur Shopenhauer tem uma metáfora apropriada para essa situação: “Na era glacial, para não morrerem de frio, os animais ficavam bem juntinhos preservando o calor. Só que os porcos-espinho, quando se aproximavam demais, feriam uns aos outros, então se afastavam, e daí morriam de frio. Os bichinhos tiveram de encontrar a distância adequada, nem muito perto, nem muito longe, sempre observando a temperatura do dia”.</p>
<p style="text-align: justify;">Com as pessoas acontece o mesmo. A temperatura psicológica de cada dia é que determina a distância correta, o momento de ser afável ou duro, grave ou descontraído, falante ou calado. A observação dessa regra proporciona adaptação comportamental e facilita tremendamente as relações humanas. Por falar nisso, alguém sabe qual a temperatura ideal para assar um suflê de goiabada?</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.<br />
Todos os direitos reservados.<br />
Visite o site da revista: www.vocesa.com.br</em></p>
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